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Após declarações dos EUA, país mais seguro do mundo pode ter exército pela primeira vez

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Apesar de ser o país mais seguro do mundo, Islândia reflete sobre a autonomia e a necessidade de forças armadas diante de novos desafios globais.  |   Bnews - Divulgação Divulgação / Casa Branca
Camila Sales

por Camila Sales

Publicado em 22/06/2026, às 08h43 - Atualizado às 11h42



Reconhecida como o país mais seguro do mundo por quase duas décadas, a Islândia começou a discutir a implementação de um exército próprio. O debate ganha força diante do atual cenário internacional e do segundo mandato de Donald Trump na Casa Branca.

Embora os Estados Unidos e a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) tenham assegurado a proteção do território por décadas, declarações do presidente americano contra a Groenlândia e a aliança atlântica acenderam o alerta na capital Reykjavik. O episódio desencadeou uma profunda reflexão sobre a autonomia e o papel estratégico da região nórdica. 

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Localizada a apenas 2,3 km do Polo Norte, a ilha conquistou sua independência da Dinamarca em 1944. Anos depois, tornou-se membro fundador da Otan em 1949, mantendo a singularidade de não possuir uma estrutura militar permanente. Apesar das tensões, uma pesquisa recente apontou que 72% da população ainda rejeita a criação de forças armadas convencionais, especialmente em um território onde 80% das terras são inabitáveis por serem marcadas por vulcões e geleiras.

"Não faz sentido; não temos gente suficiente", afirmou Maria, estudante de direito, ao ser questionada pela BBC sobre a viabilidade de um exército nacional.

Atualmente, a sociedade islandesa deposita sua confiança na Guarda Costeira, cujo foco principal é o resgate marítimo, essencial para uma economia dependente da pesca e para o enfrentamento de climas extremos. A instituição, reconhecida por sua eficiência técnica e operacional, também é responsável pela vigilância das fronteiras e pela gestão da base de Keflavik, que serviu como ponto estratégico para monitorar submarinos na Guerra Fria e hoje apoia caças da Otan.

Mesmo sem fornecer tanques ou soldados, a Islândia ratificou sua defesa em 1951 através de um acordo bilateral com os EUA. Desde então, aeronaves de nações aliadas, como Noruega e Estados Unidos, realizam patrulhas rotineiras e treinamentos de reconhecimento em solo islandês.

"Em nosso país, temos experiência com a presença de exércitos estrangeiros, mas não com o nosso próprio", destacou Pia Hansen, diretora do Instituto de Assuntos Internacionais local sobre a singularidade do país. 

Essa postura é explicada, em grande parte, pela geografia da ilha.

Entretanto, Donald Trump e suas ambições para o Ártico provocaram um forte impacto na percepção de segurança local. Ele defendeu abertamente que os EUA deveriam "possuir" a Groenlândia e questionou a validade do compromisso americano com a Otan, gerando desconforto entre os parceiros europeus.

“Tudo que os EUA estão pedindo é um lugar chamado Groenlândia, que devolvemos à Dinamarca após defendê-la de alemães, japoneses e italianos.”

Confusões geográficas do líder republicano, que parecia confundir a Islândia com a Groenlândia em seus discursos, aumentaram a apreensão dos islandeses.

No Fórum de Davos, Trump chegou a declarar "Não sei se eles estariam lá por nós. Eles não estavam lá na Islândia, posso garantir. Quer dizer, nossa bolsa de valores despencou ontem por causa da Islândia. Então, a Islândia já nos custou muito dinheiro".

Mesmo com o esclarecimento posterior de que a referência correta seria a Groenlândia, as falas foram recebidas com uma mescla de surpresa e preocupação pela diplomacia de Reykjavik.

Especialistas alertam que a agressividade diplomática para adquirir a Groenlândia pode se voltar contra a Islândia, já que os argumentos estratégicos utilizados por Washington seriam aplicáveis a ambos os territórios.

Nesse cenário, o governo da primeira-ministra Kristrún Frostadóttir busca uma aproximação maior com a União Europeia (UE). Uma votação está prevista para 29 de agosto para decidir se o país deve retomar as negociações de adesão ao bloco, paralisadas desde 2013. O debate sobre a integração europeia, que perdura há décadas, agora assume um caráter de sobrevivência e segurança nacional diante da volatilidade externa.

Vale ressaltar que a Islândia já integra o espaço Schengen (uma área composta por 29 países europeus que aboliram os controles de fronteira internos, permitindo a livre circulação de pessoas) e o mercado comum, mas nunca formalizou sua entrada como estado-membro da UE visto a resistência sobre o acesso ao pilar fundamental da economia nacional que o país hesita em submeter às regras com Bruxelas.

Enquanto eurocéticos temem a perda de soberania, defensores da adesão visam a estabilidade do euro e o suporte de um bloco forte em um período de incertezas. Com as sondagens indicando uma disputa equilibrada, o desfecho da consulta popular permanece imprevisível.

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