Mundo
por Gabriel Dinis
Publicado em 01/11/2026, às 12h25
Um confronto armado provocado pelo acesso a uma fonte de água deixou ao menos 25 mortos e 22 feridos na região central do Chade, país localizado na faixa do Sahel africano. O episódio, ocorrido na divisa entre as províncias de Hadjer-Lamis e Bahr El-Ghazal, reflete a escalada de disputas por recursos naturais cada vez mais escassos na África Central.
O confronto teve início na última sexta-feira (30), quando um criador de gado da etnia Kreda levou seus animais para beber água em uma lagoa e se desentendeu com um morador da comunidade Kuka.
"Na sequência do desentendimento, o homem Kreda sacou sua arma e atirou no pé do membro Kuka. Isso desencadeou uma troca de tiros entre as duas comunidades, deixando 22 feridos que foram levados para o hospital de Ngoura", relatou um parlamentar local à agência de notícias AFP.
Diante da proporção das mortes, o governo do Chade enviou tropas do exército e uma comitiva ministerial de emergência à região para conter a onda de vinganças. Ao todo, 39 homens foram detidos e transferidos sob escolta militar para a capital, N’Djamena, onde responderão por homicídio e porte ilegal de armas de fogo.
Alerta da ONU
Conflitos entre pastores nômades que migram em busca de pasto e comunidades de agricultores sedentários são históricos no país, mas a frequência e a letalidade dos episódios atingiram níveis críticos nos últimos anos.
A Organização das Nações Unidas (ONU) tem alertado de maneira reiterada para o impacto do aquecimento global na bacia do Lago Chade e em todo o Sahel, onde as temperaturas sobem cerca de 1,5 vez mais rápido do que a média do planeta.
Em discurso perante o Conselho de Segurança da ONU, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, já havia advertido que a emergência climática atua como um 'multiplicador de ameaças' no Sahel, onde a escassez severa de água doce converte disputas rotineiras por poços e bebedouros em confrontos armados letais.
A crise de recursos é agravada pelo cenário humanitário da região leste do Chade, que atualmente abriga mais de 600 mil refugiados que fugiram da guerra civil no vizinho Sudão, sobrecarregando ainda mais os poços artesianos e a ajuda humanitária.
Repetidos episódios e pressão sobre o governo
A tragédia na região central não é um caso isolado. Há poucos meses, na província de Wadi Fira, próxima à fronteira sudanesa, uma desavença familiar pelo uso de um poço de água também terminou em banho de sangue, deixando 42 mortos e povoados inteiros incendiados após ataques de represália.
O presidente do Chade, Mahamat Idriss Déby Itno, que comanda a transição política do país, tem cobrado publicamente tolerância zero das forças armadas contra milícias rurais e ordenado campanhas de desarmamento civil. O chefe de Estado declarou em discursos oficiais que o avanço dos conflitos intercomunitários representa uma ameaça direta à coesão e à estabilidade da nação, denunciando a circulação descontrolada de fuzis e munições remanescentes de conflitos armados na Líbia, na República Centro-Africana e no Sudão.
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