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A primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, de perfil conservador e alinhada à direita, provocou polêmica ao afirmar que perde horas do dia com maquiagem, banho, cozinha e outras tarefas domésticas, o que dificulta a organização de sua agenda e o planejamento estratégico do governo.
A declaração foi feita na quarta-feira (14), durante uma sessão sobre o orçamento no Parlamento japonês, em resposta a questionamentos sobre o tempo dedicado pelos chefes de governo a procedimentos legislativos. As informações são do The New York Times.
Segundo Takaichi, as atividades do cotidiano consomem pelo menos três horas de seu dia. A primeira mulher a ocupar o cargo de primeira-ministra do Japão afirmou que sua rotina é mais exigente do que a de seus antecessores homens, justamente pelas demandas relacionadas à aparência e aos afazeres domésticos.
“Encontrar tempo para sentar e me concentrar com a cabeça verdadeiramente limpa é um desafio”, disse a premiê aos parlamentares. Ela acrescentou que acredita gastar de três a quatro horas a mais nessas tarefas em comparação com um primeiro-ministro homem.
A declaração dividiu opiniões entre apoiadores e críticos. Enquanto alguns elogiaram a iniciativa de expor as cobranças enfrentadas pelas mulheres, outros consideraram que a fala reforça estereótipos de gênero.
Entre os apoiadores de Takaichi, a escritora conservadora Kotoe Hashimoto defendeu a primeira-ministra em uma publicação na rede social X.
“Estão dizendo que ela deveria comparecer ao Parlamento de cara lavada?”, questionou Hashimoto, ao comentar a repercussão das declarações.
Já a parlamentar de oposição Yoshiko Kira criticou a abordagem da premiê. Em entrevista ao The New York Times, ela afirmou que a declaração reforça padrões de gênero e enfraquece os esforços para ampliar os direitos das mulheres no Japão.
“Considero profundamente perturbador que a primeira-ministra fale como se essas expectativas específicas em relação à aparência e ao comportamento fossem simplesmente ‘a ordem natural das coisas’, como se fossem premissas imutáveis e fundamentais que não podem ser questionadas”, declarou Kira.
A discussão ocorre em um país onde as mulheres enfrentam cobranças relacionadas à aparência em ambientes profissionais e sociais. O conceito japonês de midashinami, ligado à apresentação pessoal e à aparência considerada adequada em público, inclui expectativas sobre maquiagem, salto alto e vestimentas.
A fala de Takaichi ocorreu durante uma audiência sobre o orçamento, após questionamentos sobre um relatório da NXJI Research que apontou o tempo gasto pelos primeiros-ministros japoneses em procedimentos parlamentares.
De acordo com o levantamento, os líderes do país podem passar até sete horas por dia respondendo a perguntas de parlamentares. O estudo também apontou que o primeiro-ministro deve comparecer a sessões do Parlamento, em média, cerca de 72 dias por ano. No Reino Unido, a média é de 50 dias, enquanto na Alemanha chega a 13 dias.
Ao descrever sua rotina, Takaichi afirmou que tem dificuldade para reservar períodos dedicados à reflexão estratégica sobre os rumos do país. Ela também disse levar para casa uma grande quantidade de documentos diariamente.
A premiê se define como uma pessoa viciada em trabalho e já afirmou dormir de zero a três horas por noite. Segundo ela, sua equipe de assessores, formada exclusivamente por homens, ainda não se adaptou completamente às necessidades de sua agenda, incluindo o tempo necessário para se maquiar antes de aparições na televisão.
“Eles ainda não se acostumaram totalmente ao fato de que sou uma primeira-ministra mulher, e não um primeiro-ministro homem”, afirmou. A declaração provocou risos entre os parlamentares.
A divisão desigual do trabalho doméstico também está no centro da discussão. Algumas estimativas indicam que as mulheres japonesas são responsáveis por mais de três quartos das tarefas domésticas. A situação é agravada pela cultura de longas jornadas de trabalho, com pesquisas recentes apontando até 22 horas extras mensais para muitos trabalhadores.
No caso de Takaichi, a residência oficial não conta com uma equipe ampla de empregados domésticos. Em entrevista publicada neste ano pela revista mensal Bungeishunju, seu marido, Taku Yamamoto, ex-parlamentar, afirmou que uma pessoa responsável pela limpeza vai ao local uma vez por semana, mas não há cozinheiro.
Yamamoto disse que, às vezes, pede pizza por entrega e precisa informar o nome do entregador para que o pedido consiga passar pela segurança da residência.
A contratação de empregados domésticos é relativamente incomum no Japão. Segundo o Ministério da Economia, Comércio e Indústria do país, apenas cerca de 2% dos domicílios empregam profissionais para esse tipo de serviço.
Takaichi frequentemente destaca sua rotina intensa para reforçar a imagem de uma líder dedicada ao trabalho. Ao ser eleita no ano passado, prometeu “trabalhar, trabalhar, trabalhar, trabalhar e trabalhar”.
Em julho, comentários da primeira-ministra sobre sua rotina de sono também provocaram discussões sobre equilíbrio entre vida profissional e pessoal. Na ocasião, ela contou que aproveitou um fim de semana de folga para passar roupas íntimas, costurar saias desgastadas e reforçar botões soltos de casacos.
A premiê também já falou publicamente sobre os cuidados com o marido, que enfrenta problemas de saúde, e sobre cozinhar e limpar a residência.
Takaichi chegou ao poder em um sistema político dominado por homens e adota posições conservadoras em questões relacionadas aos direitos das mulheres. Ela apoiou uma proposta legislativa voltada à preservação da linhagem masculina da família imperial japonesa e se opõe à alteração de uma lei que exige que casais casados compartilhem o mesmo sobrenome.
A repercussão também chegou às ruas de Tóquio. Ouvidas pelo The New York Times nas proximidades de uma estação de metrô, mulheres apresentaram opiniões distintas sobre as declarações da primeira-ministra.
Rina Sumi, de 22 anos, que trabalha em meio período em um café, considerou a fala inadequada.
“Não foi apropriado nos dias de hoje”, afirmou. “Por que trazer o gênero dela à tona dessa maneira, como se fosse uma desculpa?”
Mika Okado, de 27 anos, enfermeira, disse gastar cerca de uma hora por dia se preparando, incluindo o preparo de uma marmita para si mesma. Ela afirmou ter ficado surpresa com o tempo que Takaichi dedica à própria rotina, mas elogiou a franqueza da premiê.
“De certa forma, é realmente revigorante: ela está falando sem pensar demais”, disse Okado. “Há algo de humano no fato de ela não estar calculando cada movimento ou antecipando como ele poderá ser percebido.”
O debate ocorre em meio a mudanças pontuais nas regras de apresentação pessoal no Japão. No ano passado, a Japan Airlines flexibilizou seu código de vestimenta e passou a permitir que comissários de bordo e funcionários de solo usassem tênis no lugar de sapatos de salto alto.
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