Colunas / Na Sombra do Poder
Sobre drogas, playboys e tijolos
Na cidade que mistura espigão com sobrenome, o trono mais discreto está à disposição de um playboy: o Rei do Tráfico. Filho de milionário de construtora, herdeiro de laje e de agenda, ele transitou do camarote para um mercado que a coluna só nomeia em voz baixa. O discurso público é obra, viaduto, entrega. O corredor da orla conta outra engenharia, a que mistura concreto e mundo negro das drogas de luxo, a que faz a logística da noite parecer mais eficiente do que a da empreiteira que assina o tapume. Não é o tráfico da crônica policial de esquina. É o de condomínio, de sobrenome, de turminha bem vestida. Vitória, Horto, Pituba, Alphaville: o mapa da ostentação vira mapa de circulação. O menino desenvolve o grupo com a mesma desenvoltura com que a família desenvolve o terreno. Quem vê o capacete não vê o outro canteiro. Quem vê o jantar gourmet não pergunta de onde veio o apetite. A cidade, anestesiada de tanto escândalo, prefere o eufemismo. Construtora é construtora. Playboy é playboy. Até a hora em que a ponte e o prédio pesam demais para o balanço que a Receita e a polícia já aprenderam a ler. O rapaz é um gourmet das drogas.
Bom Preço e Mau Preço
O preço baixo na gôndola convive há décadas com o mau preço pago ao Estado, ao fornecedor e ao trabalhador que carrega a caixa. Não é loja tal ou rede qual. É o método que atravessa as marcas, muda de logomarca e conserva o estoque. O modus operandi clássico das antigas redes de supermercado não foi para o arquivo morto. Continua o uso de laranja para abrir distribuidora de fachada, empresa que compra e vende para o próprio varejo e deixa a dívida fiscal no nome de quem não existe no camarote. Continua o trânsito de mercadoria ao sabor de liminar suspeita, juiz de plantão, ICMS que não entra e bem que o Fisco já tinha bloqueado. Continua o lobby que trata tribunal como depósito de decisão urgente. A Operação Caixa Vazio, deflagrada pela Polícia Civil da Bahia, escancarou o outro lado do mesmo balcão: fraude organizada contra o varejo no interior, bloqueio de milhões, arma, carro e ostentação, prova de que o supermercado, quando grande, atrai desvio interno com a mesma força com que já atraiu sonegação e concorrência desleal nas forças-tarefas da Sefaz e do Ministério Público. Há ainda a conta que não cabe no cupom fiscal. Outra controladora condenada, em 2026, a indenizar por condição de trabalho que a Justiça do Trabalho chamou pelo nome. O varejo que se vende como economia popular acumula processo como acumula estoque. O mesmo desenho que os anos 90 e 2000 já conheciam segue nas centrais de distribuição de agora. E há, em curso, uma operação policial para desbaratar uma grande rede de supermercados envolvida em fraudes. Não tem promoção de graça: ou tem Bom Preço ou Mau Preço.

O Velho Shopping
Há na orla um centro de compras que já foi cartão-postal de cidade em expansão e hoje coleciona autos como coleciona vitrine. A luz da fachada não envelheceu. Envelheceu o pacto com a regra. Em agosto de 2026, o Ministério Público da Bahia abriu inquérito civil para apurar cobrança abusiva e elevação de tarifa no estacionamento, em tese incompatível com o Código de Defesa do Consumidor. A administração saiu a público sob o guarda-chuva da livre iniciativa e do direito de propriedade, linguagem de quem trata o pátio como feudo e o consumidor como pedágio. No piso de serviço, o histórico é outro e é antigo. O Ministério Público do Trabalho ajuizou ação civil pública com base no artigo 389 da CLT, apontando a ausência de local adequado para amamentação e assistência aos filhos em estabelecimento com mais de trinta mulheres. A 10ª Vara do Trabalho de Salvador condenou. O TRT-5 manteve. O TST, no recurso, entendeu que a obrigação recai sobre cada lojista e não sobre o condomínio, e reverteu. O acórdão privilegiou a pessoa jurídica. As trabalhadoras permaneceram sem o espaço que a lei descreve com clareza. Em paralelo, dezenas de reclamações na Justiça do Trabalho da Bahia cobram verba rescisória, hora extra e responsabilidade subsidiária da administradora quando a terceirizada de segurança ou de limpeza quebra. A fiscalização do Ministério do Trabalho já conhece o endereço de inspeção: saúde, segurança, cota de PCD, jovem aprendiz. O que chega agora à coluna é o capítulo que a diretoria preferiria manter no consultório interno. Denúncias descrevem embate com o departamento médico, segurança do trabalho tratada como despesa evitável e descumprimento de Normas Regulamentadoras com conhecimento e respaldo da cúpula, em prejuízo direto à saúde de quem abre a malha antes do primeiro cliente e fecha depois da última sessão. Adoecimento que não cabe no folder nem no comunicado sobre o preço da vaga.
A Brilhantina Branca
Houve um Rio Vermelho em que contracultura e futilidade dividiam a mesma calçada sem pedir licença uma à outra. O Moby Dick funcionava como templo da orla: carro na porta, ócio ostentado como currículo, uma juventude que atravessou o fim dos anos 80 no auge e renovou a fila na década seguinte como quem recusa o fim da festa. Poucos metros adiante, o Cine Equador puxava o fio underground e o circuito adulto, a noite que existia sem camarote e sem champanhe, enquanto ensaio de bloco, pop rock e uma eletrônica ainda titubeante organizavam as tribos na pista. A brilhantina branca ungia o ego em dose dupla. Servia à estética do playboy, o cabelo imaculado, a marca à mostra, a pose de quem atravessa a rua como se atravessasse o corredor de um hospital, e servia, na linguagem velada da crônica da época, à outra aceleração, aquela que a coluna só nomeava por metáfora: o pó que inflava o peito e fazia a endorfina parecer mérito. O desfecho é o que a cidade finge não encadear. Aqueles glebers envelheceram de terno e hoje assinam como médicos, magistrados, advogados e empresários, inclusive do show business, que vendem o camarote que um dia imploraram para entrar. A fama que atualmente os persegue não deixa morrer os tempos da brilhantina branca.

A Última Batida
Nos anos 90, a noite de Salvador não acabava quando a boate acendia as luzes. Aquilo era apenas o aviso para mudar de endereço. Quem saía do Moby Dick, do Le Zodiaque, das festas da Barra, dos bares do próprio Rio Vermelho ou de alguma farra que já tinha perdido nome e hora sabia que ainda faltava uma escala antes de casa: o Mercado do Peixe. O mercadinho do Rio Vermelho era a alfândega da madrugada. Ali desembarcavam playboys, artistas, músicos, jornalistas, universitários, garçons depois do expediente, namorados recém-formados e casais que provavelmente não sobreviveriam ao café da manhã. A essa altura, desaparecia o filtro da porta da boate. A camisa já estava para fora, o salto na mão, a maquiagem vencida e a pose social em franca liquidação. A cidade que passara a noite selecionando quem entrava terminava democraticamente sentada à mesma mesa, diante de um prato capaz de ressuscitar os excessos e de mais uma bebida que ninguém precisava, mas quase todos aceitavam. E nessa geografia da saideira havia um nome acima dos outros: Diolino. Sua batida já era instituição muito antes de bartender virar profissão de celebridade. Diolino Gomes havia começado no Rio Vermelho em 1968 e transformado cachaça, limão-galego, açúcar e mel em patrimônio líquido da boemia. Quando as mulheres de uma Salvador ainda provinciana evitavam aparecer bebendo no balcão, ele mandou o garçom até o carro e inventou, sem chamar assim, o drive-thru etílico da cidade. Em 1989, foi parar no novo Mercado Municipal e chegou aos anos 90 como parte do rito. Não se ia apenas ao Mercado. Ia-se terminar a noite com uma batida de Diolino. Limão, coco, maracujá: o sabor era quase detalhe. O importante era aquele copo na mão quando o relógio já não tinha autoridade e o céu começava a clarear sobre o Rio Vermelho. A batida fazia a ponte entre a farra e o amanhecer, entre a valentia alcoólica das quatro e a verdade física das seis. Jorge Amado, Carybé, Vinicius, Pelé e outros nomes famosos passaram pelo balcão, mas a verdadeira celebridade era o ritual. Salvador podia ter boate seletiva, camarote, carro importado, brilhantina branca e ego engomado. No fim, a madrugada nivelava todo mundo no Mercado. Alguns iam comer. Outros, prolongar o romance. Muitos simplesmente recusavam a ideia de que a festa tivesse acabado. E Diolino estava lá para fornecer o argumento líquido. O sol nascia, o mercado fervia e alguém ainda pedia outra. Nos anos 90, muita gente voltava para casa depois da farra. Os profissionais da noite só voltavam depois da última batida.

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