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Sombra Retrô: Alô, ACM?

Geraldo Magela / Agência Senado
Os bastidores do passado da sociedade baiana  |   Bnews - Divulgação Geraldo Magela / Agência Senado
Redação BNews

por Redação BNews

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Publicado em 02/10/2026, às 06h00 - Atualizado às 06h20



Alô, ACM?
Antes dos aplicativos de mensagem e das redes sociais, a política baiana já tinha seus próprios mecanismos de “monitoramento”. Em 2003, o Senado investigou suspeitas de envolvimento de Antonio Carlos Magalhães em escutas telefônicas ilegais na Bahia. O caso ganhou tanta repercussão que uma notícia-crime chegou a ser encaminhada ao Supremo Tribunal Federal. Na época, ACM negou envolvimento e aliados também contestaram as acusações. Mas, para quem viveu os tempos do carlismo, fica a lembrança: naquele período, falar ao telefone na Bahia parecia exigir mais confiança do que hoje. Afinal, nunca se sabia quem estava do outro lado da linha... e muito menos quem poderia estar ouvindo.

Torre Pituba
A Torre Pituba, em Salvador, foi planejada para ser a sede da Petrobras na Bahia, mas acabou virando um dos capítulos baianos da Lava Jato. O empreendimento, inicialmente estimado em cerca de R$ 320 milhões, chegou a superar R$ 1,3 bilhão após contratos e aditivos. Segundo o MPF, as investigações apontaram contratações fraudulentas e pagamentos de vantagens indevidas, com mais de R$ 67 milhões em propinas rastreados. O órgão também denunciou pessoas ligadas à Petrobras, à Petros, às empreiteiras e ao PT. A obra ainda ganhou direito a heliponto, 2.600 vagas de garagem e 22 elevadores. Para uma torre que começou custando R$ 320 milhões, não faltou espaço para subir.

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A Chapa do Japa
Nos anos 2000, no meio de uma ladeira que Salvador já conhecia de nome e de fila, surgiu uma culinária japonesa que não pedia silêncio. A chapa fervia, o grelhado estalava, a fumaça tomava o salão e o balcão virava confessionário entre um drinque e outro. Quem sentava ali não ia só pelo peixe. Ia porque o sushiman ouvia mais do que servia, enquanto a sociedade baiana, de advogados a dondocas, passando por figurões, médicos, empreiteiros e lobistas, tratava a fumaça como cortina. Foi justamente esse arquivo auricular que abriu as portas da sociedade, que até hoje rende um bom cardápio alimentar e de fofocas soteropolitanas.

O Marchand do Amor
No início dos anos 90, quando a sociedade baiana ainda media afeto em presente e não em extrato, um vendedor de quadros conhecido da praça arrebatou o coração de uma dondoca casada com um figurão da política local. O marido dava de tudo: joias, viagens e os gestos que a coluna social registrava. Faltava, porém, aquilo que a época ainda não tinha nome de máquina. Não havia azulzinha. O dinheiro vivo não acompanhava o romance oficial, e a carência, de caixa e de atenção, ficou à mostra entre uma vernissage e outra. O marchand soube ler o vazio. Entre quadros e pinturas, o pincel de ouro desenhou a dondoca diversas vezes no ateliê, modelo e musa de um cenário inimaginável para o figurão. A azulzinha chegou depois, democratizou o desejo e deixou a dondoca ressentida até hoje com o atraso farmacêutico.

Cumprimento de Ouro
Houve um tempo, na década passada, em que o poder na Bahia ainda se media pelo lugar da mesa. Um ex-presidente do Tribunal de Justiça, popular o bastante para lotar antecâmara e poderoso o bastante para que a agenda valesse fortuna, não era afeito ao celular. Deixava com a secretária o mapa do dia: onde almoçava, onde jantava, em que salão ainda podia ser encontrado. Quem quisesse audiência precisava primeiro de quem soubesse o endereço. Advogados de trânsito fino aprenderam o ofício. Localizavam o restaurante, reservavam a mesa ao lado e conduziam o empresário iludido como quem conduz cliente a um leilão. O cumprimento era formal, breve, de quem apenas passa. Do outro lado da toalha, porém, aquele aceno se vendia a preço de ouro: a ilusão de proximidade, o “eu o conheço”, o contrato que o empresário imaginava nascer do acaso. O Príncipe, muitas vezes, nem chegava a saber o nome de quem pagara o espetáculo. O advogado saía com o honorário. O empresário saía com a foto mental de um aperto de mão que não comprava sentença nenhuma. A pergunta que sobra é antiga: quem almoça de verdade e quem, até hoje, ainda paga ouro por um cumprimento?

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