Polícia
O Brasil fechou 2024 com 42.590 homicídios, o que representa uma taxa de 20,1 casos por 100 mil habitantes e uma redução de 7,4% em relação a 2023. É o menor patamar da série histórica iniciada em 2014, segundo o Atlas da Violência 2026, divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).
A queda, no entanto, convive com um alerta central do estudo: o avanço da subnotificação e o aumento das mortes violentas sem causa definida.
Homicídios em queda e série histórica no menor nível
Os dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) e do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), ambos do Ministério da Saúde, mostram uma trajetória de redução da violência letal ao longo da última década.
Em 2024, a taxa de homicídios ficou em 20,1 por 100 mil habitantes, abaixo de todos os anos desde 2014.
A evolução da taxa registrada mostra o movimento:
2014: 30,2
2015: 29,3
2016: 30,8
2017: 32,1
2018: 28,2
2019: 22,0
2020: 23,9
2021: 22,8
2022: 22,1
2023: 21,7
2024: 20,1
O estudo afirma que o país “mantém tendência de redução dos homicídios em comparação aos picos registrados na década passada”.
Subnotificação cresce e altera leitura da violência
Apesar da queda nos indicadores oficiais, o Atlas chama atenção para a deterioração da qualidade da informação.
Em 2024, houve aumento das Mortes Violentas por Causa Indeterminada (MVCI), que chegaram a níveis críticos no sistema de registro. O estudo aponta que esses casos funcionam como um “ponto cego” estatístico na análise da violência.
Entre 2023 e 2024, os chamados homicídios ocultos cresceram 88,6%, passando de 3.755 para 7.083 casos. A taxa subiu de 1,8 para 3,3 por 100 mil habitantes.
No mesmo período:
O Atlas registra: “a piora da qualidade da informação pode estar criando um ‘ponto cego’ estatístico”.
Desigualdade territorial marca mapa da violência
A distribuição dos homicídios no país segue fortemente desigual entre as regiões.
Entre as unidades da federação, os menores índices oficiais foram registrados em São Paulo, Santa Catarina e Distrito Federal. As maiores taxas aparecem em Amapá, Bahia, Pernambuco e Ceará.
No recorte municipal:
O Atlas relaciona essas diferenças a fatores estruturais como desigualdade regional, dinâmica demográfica, capacidade institucional e presença do crime organizado.
Juventude segue como principal alvo da violência letal
A violência letal atinge de forma mais intensa a população jovem. Entre 2014 e 2024, foram registrados 301.825 homicídios de jovens entre 15 e 29 anos, média de cerca de 75 mortes por dia no período.
Em 2024:
O Atlas destaca ainda que, entre adolescentes de 15 a 19 anos, 84,1% dos homicídios foram cometidos com arma de fogo.
Violência contra mulheres, negros e outros grupos
O estudo aponta redução geral de homicídios de mulheres ao longo da década, com queda de 27,7% entre 2014 e 2024. Em 2024, a taxa atingiu o menor nível da série.
Por outro lado, os homicídios dentro de casa permaneceram praticamente estáveis:
O Atlas conclui que isso indica estabilidade em possíveis feminicídios.
Entre mulheres negras, o risco permanece mais elevado: a taxa é 66,7% maior do que entre mulheres não negras.
Na população negra como um todo, os números seguem elevados:
O estudo também registra queda desigual:
Violência doméstica, sexual e subnotificação em grupos vulneráveis
O Atlas indica crescimento expressivo de violências não letais notificadas no sistema de saúde.
Na infância:
Entre idosos, os registros de violência interpessoal cresceram 226,3% em 11 anos, chegando a 30.097 casos anuais.
Populações indígenas e LGBTQIAPN+ enfrentam alta letalidade e subregistro
Entre povos indígenas, a taxa de homicídios em 2024 foi de 24,6 por 100 mil habitantes, acima da média nacional de 20,1.
Em alguns estados:
No caso da população LGBTQIAPN+, o estudo aponta falhas no registro das motivações das violências, o que gera invisibilidade estatística.
Em 2024:
Trânsito e motocicletas ampliam violência letal
O Brasil registrou 37.150 mortes no trânsito em 2024, com forte participação das motocicletas, responsáveis por 41,6% dos óbitos viários.
Entre 2019 e 2024:
O estudo associa esse aumento à expansão da economia de aplicativos e à precarização do trabalho.
Síntese do cenário
O Brasil encerra 2024 com a menor taxa de homicídios da série histórica recente, em 20,1 por 100 mil habitantes, mas o Atlas da Violência 2026 mostra que o cenário é mais complexo do que a queda sugere.
O crescimento das mortes violentas sem causa definida, a desigualdade territorial persistente e a alta letalidade sobre jovens, negros e grupos vulneráveis indicam um quadro em que a violência permanece estruturalmente elevada e estatisticamente menos nítida.
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