Polícia

Atlas da Violência 2026: Brasil registra queda de homicídios, mas subnotificação e mortes violentas seguem altas; veja números

Tomaz Silva/Agência Brasil
17,2 mil mortes violentas sem causa definida levantam alerta sobre qualidade dos dados  |   Bnews - Divulgação Tomaz Silva/Agência Brasil
Redação Bnews

por Redação Bnews

redacao@bnews.com.br

Publicado em 26/05/2026, às 10h51



O Brasil fechou 2024 com 42.590 homicídios, o que representa uma taxa de 20,1 casos por 100 mil habitantes e uma redução de 7,4% em relação a 2023. É o menor patamar da série histórica iniciada em 2014, segundo o Atlas da Violência 2026, divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).

A queda, no entanto, convive com um alerta central do estudo: o avanço da subnotificação e o aumento das mortes violentas sem causa definida.

Homicídios em queda e série histórica no menor nível
Os dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) e do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), ambos do Ministério da Saúde, mostram uma trajetória de redução da violência letal ao longo da última década.

Em 2024, a taxa de homicídios ficou em 20,1 por 100 mil habitantes, abaixo de todos os anos desde 2014.

A evolução da taxa registrada mostra o movimento:

2014: 30,2
2015: 29,3
2016: 30,8
2017: 32,1
2018: 28,2
2019: 22,0
2020: 23,9
2021: 22,8
2022: 22,1
2023: 21,7
2024: 20,1

O estudo afirma que o país “mantém tendência de redução dos homicídios em comparação aos picos registrados na década passada”.

Subnotificação cresce e altera leitura da violência
Apesar da queda nos indicadores oficiais, o Atlas chama atenção para a deterioração da qualidade da informação.

Em 2024, houve aumento das Mortes Violentas por Causa Indeterminada (MVCI), que chegaram a níveis críticos no sistema de registro. O estudo aponta que esses casos funcionam como um “ponto cego” estatístico na análise da violência.

Entre 2023 e 2024, os chamados homicídios ocultos cresceram 88,6%, passando de 3.755 para 7.083 casos. A taxa subiu de 1,8 para 3,3 por 100 mil habitantes.

No mesmo período:

  • participação dos homicídios ocultos nos homicídios estimados passou de 7,6% para 14,3%
  • média histórica entre 2014 e 2024 foi de 5.019 casos por ano
  • total acumulado no período: aproximadamente 55.212 homicídios ocultos

O Atlas registra: “a piora da qualidade da informação pode estar criando um ‘ponto cego’ estatístico”.

Desigualdade territorial marca mapa da violência
A distribuição dos homicídios no país segue fortemente desigual entre as regiões.

Entre as unidades da federação, os menores índices oficiais foram registrados em São Paulo, Santa Catarina e Distrito Federal. As maiores taxas aparecem em Amapá, Bahia, Pernambuco e Ceará.

No recorte municipal:

  • 17 dos 20 municípios mais violentos (com mais de 100 mil habitantes) estão no Nordeste
  • as 20 cidades menos violentas estão concentradas no Sul e Sudeste

O Atlas relaciona essas diferenças a fatores estruturais como desigualdade regional, dinâmica demográfica, capacidade institucional e presença do crime organizado.

Juventude segue como principal alvo da violência letal
A violência letal atinge de forma mais intensa a população jovem. Entre 2014 e 2024, foram registrados 301.825 homicídios de jovens entre 15 e 29 anos, média de cerca de 75 mortes por dia no período.

Em 2024:

  • 19.801 jovens foram assassinados
  • taxa de homicídios entre jovens: 42,2 por 100 mil habitantes
  • entre homens jovens: 78,0 por 100 mil
  • Do total de vítimas jovens no ano, 18.545 eram homens.

O Atlas destaca ainda que, entre adolescentes de 15 a 19 anos, 84,1% dos homicídios foram cometidos com arma de fogo.

Violência contra mulheres, negros e outros grupos
O estudo aponta redução geral de homicídios de mulheres ao longo da década, com queda de 27,7% entre 2014 e 2024. Em 2024, a taxa atingiu o menor nível da série.

Por outro lado, os homicídios dentro de casa permaneceram praticamente estáveis:

  • 2014: 1,25 por 100 mil
  • 2024: 1,18 por 100 mil

O Atlas conclui que isso indica estabilidade em possíveis feminicídios.

Entre mulheres negras, o risco permanece mais elevado: a taxa é 66,7% maior do que entre mulheres não negras.

Na população negra como um todo, os números seguem elevados:

  • 32.820 homicídios de pessoas negras em 2024
  • taxa 170,3% superior à de não negros
  • risco de homicídio 2,7 vezes maior

O estudo também registra queda desigual:

  • homicídios de não negros caíram 38,9% em 11 anos
  • homicídios de pessoas negras caíram 21,7%

Violência doméstica, sexual e subnotificação em grupos vulneráveis
O Atlas indica crescimento expressivo de violências não letais notificadas no sistema de saúde.

Na infância:

  • violência sexual (0 a 4 anos): de 1.671 (2014) para 7.845 (2024)
  • violência sexual (5 a 14 anos): de 6.594 para 29.135
  • Cerca de 79,9% dos casos em crianças até 4 anos ocorrem dentro de casa.

Entre idosos, os registros de violência interpessoal cresceram 226,3% em 11 anos, chegando a 30.097 casos anuais.

Populações indígenas e LGBTQIAPN+ enfrentam alta letalidade e subregistro
Entre povos indígenas, a taxa de homicídios em 2024 foi de 24,6 por 100 mil habitantes, acima da média nacional de 20,1.

Em alguns estados:

  • Amazonas: homicídios indígenas passaram de 36 (2023) para 73 (2024), aumento de 123,4%
  • Bahia: crescimento de 84,6% no período

No caso da população LGBTQIAPN+, o estudo aponta falhas no registro das motivações das violências, o que gera invisibilidade estatística.

Em 2024:

  • 10.250 casos de violência contra homossexuais e bissexuais (+5,5%)
  • 5.575 casos contra pessoas trans e travestis (+2,5%)

Trânsito e motocicletas ampliam violência letal
O Brasil registrou 37.150 mortes no trânsito em 2024, com forte participação das motocicletas, responsáveis por 41,6% dos óbitos viários.

Entre 2019 e 2024:

  • mortes com motocicletas cresceram 38%
  • passaram de 11.182 para 15.459 óbitos

O estudo associa esse aumento à expansão da economia de aplicativos e à precarização do trabalho.

Síntese do cenário
O Brasil encerra 2024 com a menor taxa de homicídios da série histórica recente, em 20,1 por 100 mil habitantes, mas o Atlas da Violência 2026 mostra que o cenário é mais complexo do que a queda sugere.

O crescimento das mortes violentas sem causa definida, a desigualdade territorial persistente e a alta letalidade sobre jovens, negros e grupos vulneráveis indicam um quadro em que a violência permanece estruturalmente elevada e estatisticamente menos nítida.

Classificação Indicativa: Livre

Facebook Twitter WhatsApp Google News Bnews


Cadastre-se na Newsletter do Bnews (Beta)