Polícia
por Cibele Gentil
Publicado em 27/09/2026, às 09h37
A morte da estudante de direito Isabelle Caracristi, de 22 anos, continua com importantes lacunas que ainda seguem sem respostas. A perícia aponta para uma “queda voluntária” do 23º andar, mas o namorado da jovem, João Munhoz Neto, de 34 anos, permanece preso suspeito de induzi-la ao suicídio.
Uma das maiores dificuldades para elucidar todas as circunstâncias é o fato de que não há câmeras no local do ocorrido. Além disso, áudios que Isabelle enviou antes de sua morte mantêm dúvidas sobre o caso.
Pouco antes da tragédia, na noite de 13 de setembro, Isabelle enviou algumas mensagens a um familiar. Em uma delas, por áudio, a jovem chama o namorado de “louco” e fala de comportamentos abusivos que ele teria manifestado durante o relacionamento.
O delegado-geral da Polícia Civil do Ceará (PCCE), Márcio Gutiérrez, informou que o teor completo das comunicações de Isabelle naquela noite e o momento em que ela demonstrou aflição estão sob análise minuciosa. A declaração foi dada durante coletiva de imprensa na última quarta-feira (23).
Segundo Gutiérrez, a jovem passou “um bom tempo” se comunicando antes da morte. O delegado-geral informou que, no entanto, o áudio não seria divulgado de forma oficial para “não comprometer as investigações”.
Isabelle Caracristi foi encontrada morta no pátio do Condomínio La Piazza, um edifício residencial de apartamentos, em Fortaleza, Ceará, em 13 de setembro. A mãe da estudante de direito, Isorlanda Caracristi, começou a suspeitar da situação quando a jovem não respondeu as mensagens e não atendeu as ligações após aquela noite. A última mensagem trocada com Isabelle teria acontecido no dia anterior à tragédia.
Ela, então, junto com seu irmão, tio de Isabelle, foram até o condomínio onde o casal morava. Ao ameaçarem chamar a polícia na portaria, os dois foram encaminhados à sala da síndica, que confirmou que Isabelle havia morrido e que o corpo já estava no Instituto Médico Legal (IML).
João Munhoz Neto, namorado de Isabelle, foi preso preventivamente pela PCCE na manhã de terça-feira (22). A prisão foi determinada para garantir a instrução criminal e a aplicação da lei penal. Ele havia prestado depoimento na noite anterior e voltou a ser ouvido após a prisão. O celular dele foi apreendido e está sendo analisado pelos investigadores.
Outras 15 pessoas já prestaram depoimento sobre o caso, incluindo a mãe, o tio e um amigo do namorado de Isabelle. Também foram ouvidas uma amiga da estudante, a síndica e uma moradora do edifício.
Além de João, outras quinze pessoas já prestaram depoimento. Depuseram a mãe, o irmão, a namorada deste e um amigo de João Munhoz Neto, de 34 anos, namorado da estudante. Além deles, prestaram depoimento uma amiga de Isabelle, uma moradora e a síndica do prédio. Novos depoimentos estão previstos para os próximos dias.
Outra questão analisada pelos investigadores é a existência ou não de câmeras no local da queda. A Polícia Civil, porém, informou que não havia câmeras no rooftop. Ao todo, mais de 700 vídeos de câmeras de segurança do condomínio estão sendo analisados.
A ausência de imagens do terraço faz com que outras provas tenham mais peso na reconstrução dos momentos que antecederam a queda. Estão sendo analisados os vídeos de áreas próximas, depoimentos, mensagens e aparelhos eletrônicos.
Uma publicação do site Metrópolis trouxe uma análise do advogado criminalista especializado em Direito Penal, Joaquim Pedro de Medeiros Rodrigues. Para ele, os áudios de Isabelle e as conversas de texto são peças centrais para caracterizar se houve pressão mental intencional por parte do namorado.
O advogado afirmou que “a investigação de crimes como violência psicológica ou indução ao suicídio dentro de relacionamentos exige provar que a conduta do suspeito levou a vítima a um limite extremo. Mensagens de texto, áudios e relatos de abusos servem exatamente para desenhar o histórico desse enquadramento, mostrando o impacto direto das ações dele no estado emocional dela”.
Segundo a PCCE, João “constrangia” Isabelle, a impedia de tomar decisões sobre a própria vida e, muitas vezes, a isolava no apartamento. Delegados da corporação afirmaram que há chance de João ser indiciado por violência psicológica.
Uma das principais frentes da investigação é entender se houve influência de João no estado emocional de Isabelle. A apuração busca verificar se comportamentos atribuídos ao namorado podem ter contribuído para a decisão da estudante.
A Polícia Civil apura a possibilidade de indução ao suicídio, além das denúncias relacionadas a violência psicológica no relacionamento. Os investigadores analisam, além das circunstâncias da queda, o histórico da relação entre os dois. Áudios, mensagens de texto, depoimentos, além do celular apreendido com João, podem ajudar a esclarecer se havia um contexto de pressão, controle ou outras formas de violência.
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