Polícia
por Leonardo Oliveira
Publicado em 23/09/2026, às 06h00
Um caso marcado por condenação, trauma e cobrança por segurança. A chacina da Mata Escura, em Salvador, prestes a completar sete anos, chocou a capital baiana e contou com um desfecho judicial, sobrevivente traumatizado e um debate que continua vivo sobre a segurança dos motoristas de aplicativo.
O crime aconteceu em 13 de dezembro de 2019. O que parecia mais um trabalho para os motoristas por aplicativo terminou como uma emboscada brutal na localidade conhecida como Paz e Vida, na Mata Escura. Os cinco trabalhadores foram atraídos por corridas, no qual quatro deles foram mortos e um escapou após a reação de uma das vítimas e conseguiu levar a denúncia à polícia.
De acordo com a PM, equipes da 48ª Companhia Independente da Polícia Militar (CIPM/Sussuarana) foram acionadas por um motorista por aplicativo, vítima de assalto, que foi rendido por bandidos e levado para a região da comunidade Paz e Vida, na entrada de Santo Inácio.
A vítima que conseguiu fugir encontrou policiais do Batalhão de Guardas (BG) do Presídio da Mata Escura e informou que o veículo ficou no local. O motorista contou que outras quatro pessoas estavam presas na casa e que os suspeitos queriam dinheiro das vítimas. Ao chegar ao local, os policiais encontraram os corpos dentro de sacos plásticos em uma área de matagal, além de dois carros abandonados. As vítimas foram:
A brutalidade do caso gerou forte comoção e exigiu respostas imediatas do poder público. Dias após o crime, o então governador da Bahia, Rui Costa, afirmou em coletiva de imprensa que a chacina foi motivada por vingança. Segundo ele, o mandante do crime, o traficante Jeferson Palmeira Soares Santos (conhecido como "Jel"), ordenou as execuções porque um motorista de aplicativo havia cancelado uma corrida solicitada pela mãe do criminoso.
"O traficante mandou matar as pessoas porque foi cancelada uma chamada. Porque a mãe dele chamou, e o Uber cancelou a chamada. E ele mandou executar as pessoas", declarou Rui Costa na época.
No entanto, a conclusão do inquérito conduzido pela Polícia Civil apontou outra direção. O delegado Odair Carneiro, responsável pelo caso, descartou a hipótese de vingança. A investigação concluiu que os criminosos atraíram as vítimas com o objetivo exclusivo de roubar dinheiro e os veículos.
Um dos suspeitos, Jeferson Palmeira, foi encontrado morto dois dias após a chacina, antes de ser julgado. Outros dois suspeitos morreram em confronto com a Polícia Militar no mesmo dia do crime. A única acusada viva levada a júri, Amanda Santos, foi condenada em abril de 2023 após um julgamento que durou mais de 10 horas. Sua pena foi de 63 anos e oito meses de prisão pelo envolvimento na execução dos quatro profissionais.
Na época do crime, motoristas fizeram protestos e cobraram reforço na segurança em Salvador. Depois, o caso virou símbolo do medo da categoria: em 2020, motoristas ainda relatavam evitar áreas consideradas de risco, e em 2024 o sobrevivente dizia continuar vivendo com as marcas psicológicas da chacina, um dos episódios mais brutais envolvendo transporte por aplicativo na capital baiana.
O caso segue tratado como o estopim para que a categoria passasse a evitar sumariamente diversas áreas de risco na capital baiana.
Anos após o crime, ainda há um cenário de insegurança vivido de forma constante pelos motoristas. Dados já divulgados por sindicatos da categoria mostram que a violência não é novidade. Em estudo realizado no ano de 2022, foram registrados sete latrocínios e cerca de 600 roubos ou furtos contra motoristas de aplicativo na Bahia entre janeiro e agosto, segundo levantamento. Já em 2023, a entidade da categoria informou 267 motoristas vítimas de roubo ou assalto até o fim de agosto, além de três latrocínios e outros episódios de violência na capital e na Região Metropolitana.
No início de 2024, o sindicato voltou a alertar para o problema ao apontar 39 furtos e roubos nos quatro primeiros meses do ano, número que ainda mostra a exposição dos trabalhadores. Em paralelo, novos episódios seguem sendo registrados em Salvador ao decorrer dos últimos anos.
Um outro levantamento mais recente, realizado em setembro de 2025 pela startup GigU, em parceria com a Jangada Consultoria de Comunicação, aponta que, no Brasil, 59,1% (cerca de seis a cada dez motoristas), já sofreram algum tipo de violência ou assédio durante o exercício da atividade. Além disso, 32,8% afirmam se sentir inseguros na maior parte do tempo, enquanto apenas 3,4% declaram estar “totalmente seguros”.
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Em entrevista à TV Bahia realizado há quase dois anos, o único sobrevivente comentou do trauma. Escondido em um endereço mantido sob sigilo até mesmo de familiares, ele seguiu tratamento psiquiátrico, e não conseguiu voltar a rotina.
"Eu vivo todos os dias essa ferida, que me corrói. Hoje, eu sobrevivo. Não só sou sobrevivente da chacina, como também sou sobrevivente da vida", afirmou o homem, que preferiu não se identificar.
As dificuldades se estendem também à esposa e os dois filhos do ex-motorista por aplicativo, que convivem com ele. "A rotina dos meus filhos de lazer é quando eu vou para o médico. Aí, a gente reúne a família para poder fazer uma coisa só", disse naquela época.
À época, 99 afirmou que lamentava o crime, que nem todos os motoristas mortos estavam cadastrados na plataforma e que oferecia apoio às famílias, inclusive com seguro pessoal. A Uber também declarou lamento e disse manter contato com as autoridades para colaborar com a investigação. Nos anos seguintes, as duas plataformas passaram a destacar com mais força seus recursos de proteção.
Atualmente, representadas pela Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec), as plataformas passaram a comunicar e implementar recursos que, até então, eram básicos ou inexistentes. As principais medidas de proteção adotadas ao longo dos últimos anos incluem:
Em 2024 e 2025, por exemplo, a 99 passou a comunicar publicamente novas camadas de proteção, incluindo validação de identidade, checagens, monitoramento e ferramentas voltadas ao combate a fraudes e a situações de risco.
A Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec) afirmou que a segurança de motoristas e usuários é uma prioridade para as plataformas. Segundo a entidade, as empresas associadas investem continuamente em ferramentas tecnológicas de proteção, que atuam antes, durante e depois das viagens. Entre os recursos citados estão o compartilhamento da localização com contatos de segurança e a gravação de áudio durante as corridas.
“As empresas associadas à Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec) ressaltam que a segurança de motoristas e usuários é uma prioridade em suas operações. Nesse sentido, as plataformas investem e trabalham continuamente para buscar cada vez mais proteção nas milhões de viagens que ocorrem diariamente por meio de ferramentas tecnológicas que atuam antes, durante e depois de cada corrida, como compartilhamentos de localização com contatos de segurança e gravação de áudio”, afirmou em nota ao BNews.
A Amobitec também afirmou manter diálogo constante com o poder público para contribuir com iniciativas voltadas à segurança de motoristas e passageiros. De acordo com a associação, as plataformas possuem equipes especializadas para colaborar com as autoridades no fornecimento de dados, sempre respeitando a legislação relacionada à privacidade.
“Há um diálogo constante com o Poder Público, de forma transparente e colaborativa, nos quais as plataformas colocam-se à disposição para contribuir com iniciativas que busquem avanços na segurança para os motoristas dos aplicativos e usuários. Inclusive, plataformas possuem equipes especializadas para colaborar com as autoridades nas solicitações de dados, respeitando-se a legislação relativa à privacidade”, afirmou.
A entidade informou ainda que, em alguns estados, existe integração entre as plataformas e o sistema 190. “Em alguns Estados, existe a integração das plataformas com o sistema 190, que permite ao motorista acionar uma ferramenta de emergência que envia os dados da viagem em tempo real para as centrais de atendimento da Polícia Militar”, informou.
“Em relação aos motoristas parceiros, as empresas associadas atuam com transparência sobre os dados das viagens e verificação de passageiros, além de disponibilizar seguro contra acidentes pessoais durante as viagens para os motoristas e os usuários. Em caso de alguma ocorrência, profissionais ou usuários devem reportar o ocorrido para as plataformas”, finalizou em nota.
Atualmente, o uso dos equipamentos como instalação de câmeras de segurança no interior dos veículos é opcional. A 99 disponibiliza câmeras por meio de aluguel aos condutores. Já a Uber dá a possibilidade de o motorista utilizar o próprio celular para gravar as viagens, com integração ao aplicativo, porém, sem acesso direto às imagens registradas. Há ainda dispositivos que captam imagens externas, com recursos como visão noturna e sensores de movimento, mas a utilização de tais ferramentas ainda acontece de forma distinta no país.
Salvador foi a primeira capital brasileira a tornar a instalação obrigatória, que determinou a gravação integral das viagens e estabeleceu a previsão de reembolso caso o motorista arque com os custos do equipamento. No Distrito Federal, uma proposta parecida estabelece que as gravações sejam armazenadas por 30 dias, com acesso restrito pelas autoridades como polícia e Ministério Público. Outros estados também estudam regulamentações próprias.
Apesar das mudanças nos aplicativos, motoristas seguem cobrando medidas mais efetivas de prevenção. Representantes da categoria afirmam que os recursos digitais ajudam, mas não eliminam o risco enfrentado em áreas mais vulneráveis, sobretudo em corridas noturnas, deslocamentos para regiões periféricas e embarques com passageiros desconhecidos.
Além disso, há queixas de como as plataformas não trazem mais medidas. Eles já pediram algumas medidas como o usuário, o cliente que chama a corrida, não poder ser alguém com antecedentes criminais; eles terem informações do passageiro e o que estão levando; aplicação de câmeras no carro, entre outros. As plataformas ainda não disponibilizam tais recursos
Outras reivindicações estão na maior integração com as forças de segurança, canais de resposta mais rápidos, rastreamento eficiente de suspeitos e punição mais rigorosa para agressores e criminosos que agem durante as corridas.
Em contato com a Secretaria de Segurança Pública da Bahia (SSP-BA), foi informado ao BNews que há um diálogo constante com a categoria para garantir maior proteção.
“A Secretaria da Segurança Pública ressalta que as Polícias Militar e Civil, através do Batalhão Apolo e da DRFRV, mantém contato direto com representantes das categorias, garantindo mais celeridade nas ações ostensivas e investigativas para proteção dos motoristas. Destaca ainda que as ocorrências enviadas através do 190 ou registradas em unidades policiais são tratadas com prioridade pelas equipes. Por fim, a SSP reitera a importância do diálogo permanente, visando a qualificação do serviço prestado”, explicou em nota.
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