Polícia
"Eu sou uma lenda viva". Era assim que Raimundo Alves de Souza, o Ravengar, se definia. O homem que consolidou um "império" no Morro da Águia, no bairro de São Gonçalo do Retiro, em Salvador, se manteve durante boa parte das décadas de 1990 e início dos anos 2000 à frente do tráfico de drogas em Salvador.
Toda "lenda" tem um começo, mas, sobretudo, um fim — e no caso de Ravengar não foi diferente. O BNews consultou entrevistas com o próprio Ravengar, além de policiais, moradores e documentos judiciais para traçar a linha do tempo do homem que se colocou acima da lei — e que, apesar de "viver pela espada", não morreu por ela.
Em vida, Raimundo Alves tinha uma grande preocupação com sua imagem. Foi ele mesmo quem propagou o apelido Ravengar, que lhe foi dado numa associação ao personagem feiticeiro vivido por Antônio Abujamra na novela "Que Rei Sou Eu?", transmitida pela Globo em 1989.
O apelido nasceu de uma alusão à "habilidade" de Raimundo de ganhar dinheiro rápido, como se o fizesse aparecer num passe de mágica. E não era exagero. Antes mesmo das facções criminosas como Comando Vermelho (CV), Bonde do Maluco (BDM), Katiara e Tropa do A, Ravengar construiu do zero uma das mais sofisticadas estruturas criminosas já registradas na Bahia.
Para isso, Raimundo mantinha laços com políticos e forte esquema de proteção com policiais. Mais do que controlar a venda de cocaína e maconha, ele consolidou um sistema próprio de regras, vigilância e assistência à comunidade que, por muitos anos, substituiu a presença do Estado em uma das áreas mais pobres da capital baiana — criando seu próprio "Estado paralelo".
Raimundo Alves de Souza nasceu em Salvador, em 1953, e teve uma trajetória marcada por ocupações informais antes de ingressar definitivamente no crime. Trabalhou com o jogo do bicho, foi taxista e viveu uma rotina comum, assim como milhares de moradores de Salvador. Mas tudo mudou quando ele encontrou no comércio de drogas uma oportunidade de ascensão financeira.
O BNews identificou diferentes versões para a entrada de Ravengar no tráfico. A mais aceita por investigadores e reproduzida, inclusive, por pesquisadores da Universidade Federal da Bahia (UFBA), aponta que Ravengar começou vendendo pequenas quantidades de maconha comercializadas pela primeira esposa Edna, conhecida como "Neguinha".
Outra versão sustenta que ele atuava inicialmente como intermediário para traficantes já estabelecidos, até assumir posição de liderança após o enfraquecimento de antigos fornecedores da capital.
Independentemente da origem, o fato é que, ao longo dos anos 1980, Raimundão, como também era conhecido, deixou de ser apenas mais um vendedor de drogas para se tornar o principal articulador de uma rede que dominaria o varejo de entorpecentes em Salvador.
O cenário encontrado por Ravengar favorecia essa expansão. São Gonçalo do Retiro fazia parte da região conhecida como "miolo" de Salvador: uma área pobre, com população de baixa renda — a maioria preta — com baixa escolaridade e exercendo atividades informais ou trabalhando em subempregos.
Crescimento desordenado da população, baixa renda, infraestrutura precária e poucas oportunidades de trabalho. Esse é o cenário perfeito para as organizações criminosas ocuparem espaços deixados pelo poder público. E foi nesse contexto que o Morro da Águia se transformou no coração do império de Ravengar.
De acordo com o informações da Polícia Civil, no início dos anos 2000, o esquema funcionava quase como uma empresa. Haviam gerentes responsáveis pelas bocas de fumo, "olheiros" distribuídos nos acessos da comunidade, "aviões" encarregados do transporte da droga, "jóqueis" que faziam as entregas e uma rede de comunicação baseada em rádios transmissores.
Quando um veículo subia em direção ao Morro, sua aproximação era imediatamente comunicada. Os integrantes identificavam se a "ocorrência" era um cliente habitual ou de uma possível operação policial. Dependendo da situação, toda a estrutura podia ser desmontada em poucos minutos, dificultando flagrantes.
As investigações apontaram que o Morro da Águia havia se transformado em um dos principais pontos de venda de drogas da cidade. Durante dois meses, policiais realizaram tocaias na região e registraram intenso fluxo de consumidores — a maioria, inclusive, vindos de bairros de classe média e alta.
Em depoimentos colhidos pela polícia, usuários compararam o local a um "shopping de drogas a céu aberto", onde a compra era rápida, organizada e previsível. A operação resultou na oitiva de cerca de 90 consumidores, cujos relatos reforçaram a acusação de que Ravengar comandava o esquema.
Enquanto consolidava seu domínio sobre o tráfico, Ravengar também investia na construção de uma imagem de líder comunitário. Uma reportagem da Veja, em 8 de novembro de 2000, relatou que o traficante financiou obras, ajudou moradores com alimentos, medicamentos e botijões de gás.
Na época, Ravengar chegou até a sustentar um time de futebol, além de grupos culturais, cursos profissionalizantes e até iniciativas de segurança local. Na cabeça de muitos, Ravengar era o Estado, afinal, ele exercia funções típicas do poder público.
Em troca da proteção oferecida aos moradores, estabelecia regras rígidas dentro da comunidade. Assaltos, estupros, homicídios e conflitos internos eram reprimidos para evitar que o Morro da Águia chamasse atenção das autoridades e para garantir segurança aos consumidores que chegavam diariamente ao ponto de venda.
A ordem interna era mantida pelos próprios integrantes da organização criminosa — e qualquer punição dependia da autorização do líder. Esse modelo alimentou o mito em torno de Ravengar. Ele era visto como alguém que proporcionava ordem onde o Estado era ausente.
No auge, Ravengar controlava aproximadamente 15 pontos de distribuição de drogas espalhados por Salvador. A movimentação financeira atribuída ao grupo chegaria a cerca de R$ 100 mil por dia.
A prisão definitiva de Ravengar, em fevereiro de 2004, marcou o fim de um ciclo, mas não o eliminou — do contrário, até na prisão ele mandava e desmandava. Seu "reino" não era mais o Morro da Águia, mas sim a Penitenciária Lemos Brito (PLB), no Complexo da Mata Escura.
Ele foi condenado, em 2006, a 25 anos e seis meses de prisão — pena que depois mudou para 22 anos e seis meses —, por tráfico de drogas, refino de entorpecentes, associação criminosa e corrupção ativa.
Porém, foi na cadeia que Ravengar criou sua cartilha, conhecida como o Código Ravengar ou Estatuto do Crime, que estabelecia um conjunto de regras de conduta. O documento continha normas de convivência, deveres e punições para detentos dentro do sistema prisional baiano.
Digitada, impressa e encadernada, a cartilha reuniu 14 "obediências", como se fossem artigos de uma lei. Com a mesma linguagem, citando princípios do direito e artigos da Constituição, o manuscrito foi dividido em três capítulos: "Da Infâmia", "Da Extorsão"e "Do Crime de Lesa-Majestade".
Ravengar teve sua prisão flexibilizada para o regime semiaberto, que foi concedido em 2012, sendo transferido para o Presídio de Lauro de Freitas. No ano seguinte, em 2013, ele foi solto após receber liberdade condicional. Porém, voltou a ser preso em 16 de fevereiro de 2017, durante a Operação Petros, junto com os familiares:
Por violar os termos da condicional, ele voltou à Penitenciária Lemos Brito. Apesar de ter voltado ao mundo do crime após a segunda prisão, sua morte, como já dito, não veio pela "espada". Na verdade, ocorreu num embate com um inimigo silencioso: a diabetes.
O ponto final da história do maior traficante de drogas da história da Bahia ocorreu no dia 8 de junho de 2023. Ravengar morreu aos 70 anos, após não resistir à complicações decorrentes da doença.
À época, ele ficou internado por cerca de duas semanas na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Ernesto Simões Filho e chegou a sofrer um Acidente Vascular Cerebral (AVC), além de ter uma perna amputada.
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