Polícia
A condenação do ex-dono de um cartório de Feira de Santana, Éden Márcio Lima de Almeida, e da amante dele, Anna Carolina Lacerda Dantas, pela morte da bancária Selma Regina Vieira Almeida reacendeu a dor da família da vítima.
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Embora a Justiça tenha reconhecido a responsabilidade do casal e aplicado pena de cinco anos e quatro meses de reclusão, em regime semiaberto, um familiar de Selma afirma que o desfecho do processo está longe de representar justiça.
Em entrevista exclusiva ao BNews, o parente, que pediu para não ser identificado, classificou a pena como insuficiente diante da gravidade do crime e afirmou que a decisão reforça o sentimento de impunidade vivido pela família desde a morte da bancária, em abril de 2019.
O sentimento da família é de injustiça. Um crime bárbaro. Os índices de feminicídio no país só aumentando e uma condenação dessa reflete toda a impunidade. É o sentimento que a família tem, impunidade. Uma pena branda, uma pena que nos seus efeitos realmente não vai trazer a sensação de justiça. Porque a única que está aprisionada e essa nunca mais vai voltar é Selma Regina e os danos que as duas filhas dela sofreram", iniciou.
O familiar também demonstra preocupação com a situação das duas filhas de Selma, que continuam sob a guarda do pai, condenado pela morte da mãe. Segundo o entrevistado, antes do crime, ele e a esposa exerciam papel fundamental na criação das meninas. O vínculo foi interrompido de forma abrupta após a morte de Selma.
Imagine duas crianças sendo obrigadas a ser criadas pelo pai assassino e a amante assassina da própria mãe. Ele tem um poder de persuasão muito grande. Ninguém sabe que tipo de lavagem cerebral fez na cabeça dessas crianças. Eu tenho vídeos, fotos, de como nós cuidávamos dela quando eles estavam ausentes. E não era raro, era sempre que eles estavam ausentes", explicou.
Visivelmente emocionado, o denunciante também relata que a família tentou manter contato com as crianças, mas encontrou obstáculos. Ainda segundo o familiar, a proximidade entre eles era construída no cotidiano, muito antes do crime.
E fui arrancado brutalmente da convivência com elas. Ele colocou seguranças na época, ele tem muito poder financeiro, e nós não tínhamos condições de poder, além de ser parentes de terceiro grau, porque eu sou primo da vítima, e não tínhamos a ascendência direta com ela. Não éramos tios, éramos primos. E sempre encontrava barreiras para que pudéssemos entrar com qualquer tipo de guarda", desabafou.
Ao explicar o motivo de ter não revelado sua identidade, o entrevistado afirmou que teme comprometer uma possível reaproximação com as adolescentes no futuro. Segundo o entrevistado, o principal objetivo da família é preservar a saúde emocional das filhas de Selma.
Não quero estar relacionado a nenhum tipo de vinculação à acusação do pai porque a gente não sabe realmente nesse intervalo de tempo que elas hoje já são adolescentes, o que ele passou de nós para elas. Então gostaríamos de nos precaver em relação ao sentimento das meninas, que é o desejo nosso realmente de um dia poder nos encontrar, de poder um dia voltar à convivência com elas, que para nós, que sou primo, mas tio de fato, eu tenho um vídeo ela me chamando que ela tem dois pais, eu e o pai dela, então é muito duro para a gente e a minha preocupação, a minha única preocupação é preservar o emocional dessas crianças", afirmou.
O familiar afirma ainda que as adolescentes enfrentam dificuldades decorrentes da repercussão do caso: "Porque sabemos relatos que essas crianças vêm sofrendo bullying nas escolas, quando são confrontadas com outras crianças, elas falam pesquisas sobre seu pai na internet e é duro para a gente não poder fazer nada a respeito disso", detalhou.
O entrevistado também relembrou os últimos momentos de vida da prima. Emocionado, contou que estava no hospital quando os aparelhos que mantinham Selma viva foram desligados. Além disso, o familiar recorda que Selma passou parte da infância em sua casa e que havia tentado alertá-la sobre o relacionamento.
Eu estava presente quando desligaram os aparelhos dela e segurando na mão dela, porque eu prometi, em vida, que eu estaria do lado dela até o fim da vida. Ela morava comigo quando era criança. Meus pais ajudaram a criar ela. Eu sempre prometi a ela, antes das coisas virem à tona, eu chamei ela: 'Selma, pelo amor de Deus, você tem duas filhas, Selminha. Veja a vida que você está levando com esse camarada. Você acha que se você morrer, com quem essas crianças vão ser cuidadas? É isso que você quer? Mas eu lhe prometo uma coisa, que até o final da vida eu estarei do seu lado'."
Ao encerrar seu desabafo e sentimento de injustiça com o caso, o familiar não poupou palavras e também afirmou não compreender como Éden Márcio continua com a guarda das duas filhas mesmo após a condenação.
É uma dúvida essa é uma pergunta que todos nós gostaríamos que fosse respondida como o então suspeito hoje condenado tem a guarda dessas crianças imagine essas crianças sendo criadas pelos autores do assassinato da própria mãe", completou.
Éden Márcio Lima de Almeida e Anna Carolina Lacerda Dantas foram condenados pela Justiça da Bahia pela morte da bancária Selma Regina Vieira Almeida. O casal recebeu pena de cinco anos e quatro meses de prisão, em regime semiaberto, pelo crime de lesão corporal seguida de morte.
De acordo com a sentença, na noite de 14 de abril de 2019, os três retornaram de uma festa em Salvador após consumirem drogas. Uma discussão teria evoluído para agressões físicas contra Selma.
Mesmo ferida, a bancária conseguiu deixar a residência dirigindo até um posto de combustíveis, onde pediu ajuda a funcionários e foi atendida por uma equipe do Samu. A vítima também telefonou para o cunhado antes de ser levada ao hospital. Selma morreu três dias depois, em 17 de abril de 2019.
O laudo necroscópico apontou hemorragia intracraniana provocada por trauma cranioencefálico contundente, além de diversas equimoses espalhadas pelo corpo. A perícia descartou as teses apresentadas pela defesa, que atribuía a morte ao consumo de drogas ou a causas naturais.
Durante o processo, familiares e pessoas próximas relataram que Selma já havia comentado sobre agressões sofridas dentro do relacionamento e que frequentemente apresentava hematomas pelo corpo.
Além da condenação criminal, Éden Márcio perdeu definitivamente a delegação do Tabelionato de Protesto de Títulos de Feira de Santana. O afastamento foi confirmado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), encerrando sua atuação à frente da serventia extrajudicial.
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