Polícia
por Alex Torres
Publicado em 31/07/2026, às 04h00
Em agosto de 2015, o bairro de Itapuã foi palco de um dos crimes que mais abalaram a população da localidade na última década. O pequeno Marcos Vinícius de Carvalho dos Santos, de apenas 2 anos, morreu e teve o corpo enterrado dentro de um cooler no areal da região. O principal envolvido no caso foi o cabeleireiro Rafael Pinheiro, que na época tinha 28 anos e era considerado como 'padrinho' da criança.
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Toda a situação teria tido origem no dia 14 do respectivo mês. Na ocasião, Rafael Pinheiro alegou que Marcos Vinícius sumiu enquanto ele estava na Feira de Itapuã. A versão inicial indicava que os dois teriam chegado ao local e estavam fazendo compras. No entanto, em um momento de descuido, o cabeleireiro teria se virado para conversar com um feirante e, quando percebeu, o menino não estava mais lá.
Ele contou que chegou à feira (de Itapuã) com o menino nos braços, mas que o colocou no chão enquanto escolhia umas verduras e que, quando procurou novamente, o menino havia sumido", reforçou, na ocasião, a delegada Heloísa Simões, então titular da Delegacia de Proteção à Pessoa (DPP).
Rafael e a mãe, identificada como Anira Freire Pinheiro, iniciaram uma falsa procura pela então criança desaparecida, chegando a dizer, inclusive, que pessoas relataram terem visto um menino parecido com Marcos Vinícius sendo levado por um casal que estaria em um veículo, modelo Toyota Corolla, na cor preta. Ele e Anira ainda procuraram a delegacia de polícia e informaram supostas testemunhas que não existiam para tentar sustentar a versão.
"Meu filho está abalado porque foi muito rápido. Ele estava fazendo a feirinha dele [da criança] e, quando virou para pegar uma fruta, verdura, o menino desapareceu. Com certeza alguém chamou Marcos, fez algum gesto para atraí-lo, porque ele é uma criança que não sai sem avisar", disse Anira.
Com a repercussão do caso, amigos e familiares fizeram um protesto, no dia 16, na Avenida Dorival Caymmi, em busca de respostas sobre o paradeiro do menino. A mãe biológica de Marcos Vinícius, Fabiana Pereira de Carvalho, que na época tinha apenas 18 anos, também teria participado das buscas. Ela tinha um relacionamento de poucos meses com o cabeleireiro, mas havia entregue o filho a Rafael por não ter condições financeiras e estruturais para cuidar da criança.
Reviravolta no caso
A verdade sobre o caso, entretanto, veio à tona três dias depois, em 19 de agosto. Na ocasião, Rafael compareceu à delegacia acompanhado de um advogado e mudou a versão apresentada inicialmente. Ele contou que Marcos teria se engasgado enquanto tomava um mingau em sua casa, no bairro de Areia Branca, em Lauro de Freitas, na Região Metropolitana de Salvador (RMS).
Vale ressaltar que o menino tinha diabetes, além de um problema no pâncreas e também possuía uma forte intolerância à lactose. O padrinho conta que tentou reanimar a criança, mas não obteve sucesso. Desesperado e com receio de ser responsabilizado pela morte, o cabeleireiro decidiu esconder o corpo, ao invés de acionar o socorro médico.
No mesmo dia, a polícia iniciou as buscas com base no local indicado pelo então suspeito e encontrou o corpo de Marcos Vinícius enterrado dentro de um cooler no areal do bairro de Itapuã. Sob gritos de "assassino" por parte da população, Rafael Pinheiro foi autuado em flagrante por homicídio e ocultação de cadáver, sendo apresentado na sede da Polícia Civil, no bairro da Piedade, e encaminhado posteriormente para a cadeia pública de Salvador.
Culpa dos envolvidos
Uma coletiva foi marcada no dia 20 de agosto para apresentar todas as informações e detalhes da investigação. Na ocasião, a Polícia Civil falou sobre também indiciar Anira Pinheiro, por acreditar que ela teria tentado "induzir a polícia ao erro" com a sustentação da versão apresentada pelo filho. No entanto, o inquérito concluiu que ela não tinha conhecimento da morte de Marcos e realmente havia acreditado na história contada por Rafael.
Fabiana de Carvalho, mãe de Marcos Vinícius, também chegou a ser indiciada no artigo 245 do Código Penal por ter entregado o filho a uma "pessoa estranha e inidônea". A polícia concluiu que ela e Rafael Pinheiro eram usuários de drogas e tinham uma relação de poucos meses para que o rapaz 'adotasse' a criança. O indiciamento, entretanto, também não foi para a frente, porque Fabiana seria menor de idade no momento em que entregou o filho ao cabeleireiro.
Após exame de DNA, concluído depois de quase uma semana, foi confirmado que o corpo encontrado no cooler se tratava realmente de Marcos Vinícius de Carvalho, sendo liberado do Instituto Médico Legal (IML) na manhã do dia seguinte. O enterro aconteceu em 27 de agosto, no Cemitério Municipal de Areia Branca, em Lauro de Freitas, na Região Metropolitana de Salvador (RMS).
De acordo com a Secretaria de Administração Penitenciária e Ressocialização (Seap), o cabeleireiro foi liberado do Complexo de Mata Escura após ter o pedido de relaxamento da prisão concedido pela Justiça, passando a responder ao processo em liberdade.
Mais de 10 anos depois, entretanto, o caso parece não ter tido nenhuma definição. A equipe de reportagem do BNews tentou contato com o Tribunal de Justiça do Estado da Bahia (TJ-BA), com a finalidade de obter alguma atualização acerca da situação de Rafael Pinheiro de Jesus. No entanto, até o momento do fechamento desta matéria, ainda não houve um retorno.
LINHA CRONOLÓGICA DO CASO MARCOS VINÍCIUS:
14/08/2015 - Criança é considerada "desaparecida" e Rafael Pinheiro, junto com a mãe Anira, aciona a polícia e inicia as buscas. Ele alegava que Marcos Vinícius estava com ele e sumiu repentinamente na feira do bairro de Itapuã. Ele e a mãe afirmavam terem sido informados que um casal em um Corolla Preto havia levado a criança.
15/08/2015 - O padrinho prestou depoimento na sede do Departamento de Homicídio e Proteção à Pessoa (DHPP), ratificando a versão apresentada no dia anterior. Um feirante também foi ouvido e disse que Rafael não estava com nenhuma criança, mas que estava com a mãe. Anira disse à polícia ter sido informada sobre o casal no Corolla Preto, mas a versão não se confirmou.
16/08/2015 - Amigos e familiares fazem protesto pelo desaparecimento da criança, de 10h às 12h30, na Avenida Dorival Caymmi até o Acarajé da Cira. Mãe do garoto, Fabiana de Carvalho, deixou o filho com Rafael Pinheiro porque trabalhava como garçonete durante a noite e não tinha condições de cuidar de Marcos Vinícius.
19/08/2015 - Rafael comparece na delegacia na presença de um advogado e muda a versão inicial. Ele afirma que a criança teve um mal súbito na noite do dia 13, após ingerir leite de soja. O padrinho revelou que teria ficado desesperado e enterrou o corpo no bairro de Itapuã. Corpo de Marcos Vinícius é encontrado e Rafael é levado para a sede da Polícia Civil, no bairro da Piedade e encaminhado posteriormente para a cadeia pública de Salvador.
20/08/2015 - Polícia informa em coletiva que o corpo foi encontrado dentro de um cooler, em um areal de Itapuã. Delegado contou que Rafael e a mãe da Criança, Fabiana de Carvalho, se conheciam há poucos meses e ambos eram usuários de drogas. Ele disse ainda que a mãe do suspeito e mãe da criança seriam indiciadas por induzir a polícia ao erro e por negligência, respectivamente.
26/08/2015 - Exame de DNA confirma que o corpo realmente pertencia ao garoto Marcos Vinícius, segundo o Departamento de Polícia Técnica (DPT). Corpo é liberado do Instituto Médico Legal (IML) na manhã do dia seguinte.
27/08/2015 - Polícia Civil informa que Fabiana de Carvalho não será mais indiciada. Na ocasião do crime, ela tinha 18 anos, mas tinha apenas 17 quando entregou Marcos para Rafael. Dessa forma, ela era considerada menor de idade. A mãe de Rafael também não foi indiciada, porque a polícia revelou que ela não tinha conhecimento do crime cometido pelo filho. Corpo de Marcos é enterrado no Cemitério de Areia Branca, em Lauro de Freitas.
08/09/2015 - Rafael é solto após a Justiça revogar a prisão por "ausência dos laudos periciais necessários ao esclarecimento da morte do menor de idade" e deixa o Complexo de Mata Escura.
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