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Ilhéus: Polícia indicia profissionais de colégio por morte de estudante que sofria bullying, constrangimento e discriminação

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A Polícia Civil da Bahia (PC) indiciou três pessoas ligadas à gestão de um colégio particular de Ilhéus  |   Bnews - Divulgação Foto / Divulgação
Leonardo Oliveira

por Leonardo Oliveira

Publicado em 05/03/2026, às 05h00



A Polícia Civil da Bahia (PC) indiciou três pessoas ligadas à gestão de um colégio particular de Ilhéus, no sul da Bahia, relacionadas à investigação da morte de uma adolescente de 14 anos, que tirou a própria vida, em 2025.

Depois da realização de perícias técnicas, coleta de dados digitais e a oitiva de dezenas de pessoas, três profissionais da instituição onde a jovem estudava foram indiciadas. Tratam-se da diretora e proprietária do Colégio Status, Gildelina Reis, a coordenadora pedagógica, Deborah Tavares, e a psicóloga do colégio, Silvania dos Santos. O inquérito tramita sob a presidência do delegado Luiz Henrique Machado de Paula, responsável pela condução das investigações, com despacho de indiciamento efetuado desde o final de janeiro.

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Entenda o caso 

De acordo com o despacho, existem indícios de que a adolescente teria sido submetida a um ambiente escolar descrito como hostil, com práticas recorrentes de bullying, constrangimento e discriminação. Os relatos colhidos durante a investigação revelam a ocorrência de episódios de racismo, tratamento vexatório e sofrimento psicológico, que teriam contribuído de forma relevante para a morte da adolescente. Ao todo, foram 49 depoimentos contra a escola.

A investigação ainda aponta a possibilidade de enquadramento dos fatos em crimes previstos no Código Penal, como indução, instigação ou auxílio ao suicídio, quando praticados contra menor de 14 anos, além de lesão corporal de natureza gravíssima.

O despacho também menciona indícios de crimes previstos na Lei nº 7.716 de 1989, ligados à injúria racial e à discriminação por raça, cor, etnia ou procedência nacional. Tais condutas teriam criado um ambiente ou pressão psicológica que levaram a adolescente ao episódio fatal.

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A polícia também aponta que, durante a apuração, surgiram ainda relatos de possíveis constrangimentos ilegais contra alunos e adolescentes, cobranças consideradas vexatórias de mensalidades em atraso e indícios de irregularidades administrativas no ambiente escolar, que estão sob análise da Polícia Civil.

A investigação permanece em curso, com observação aos limites legais impostos à proteção de menores e ao devido processo legal. O indiciamento marca o início da responsabilização criminal na fase investigativa, indicando a apuração de indícios de autoria e materialidade pela autoridade policial. A investigação segue em andamento, com posterior análise pelos órgãos competentes, nos termos do devido processo legal.

Indiciamento ocorre após ação de mãe da vítima

Geanne Suzarte, mãe da adolescente, sempre descreveu a filha como estudiosa, inteligente e sem sinais visíveis de sofrimento. Ela descobriu os problemas, ao acessar as redes sociais da menina, no qual áudios e cartas revelaram depressão silenciosa causada por assédio sexual de um aluno de 17 anos na escola, em março, quando a garota ainda tinha 13 anos.

Segundo a mãe, tudo começou em março de 2025, quando a filha contou que estava sendo importunada por um colega de 17 anos dentro da escola. A adolescente reagiu enviando mensagens de repúdio ao Instagram do suposto agressor, ainda no início das importunações. O pai do garoto imprimiu essas mensagens e levou à direção, exigindo providências contra a adolescente, invertendo a posição de vítima e agressor.

"Ao buscarmos esclarecimentos junto à instituição, fomos orientados pela própria a ‘ficar tranquilos’, sob a justificativa de que o agressor seria autista e utilizaria fraldas, informação que posteriormente se mostrou inverídica, pois ele já foi depor (nunca foi autista, não tem laudo) tudo constatadas na cadeia de custódia de provas”, relata.

Depois disso, o quadro se agravou. A mãe afirma que a filha passou a ser ameaçada, silenciada e humilhada publicamente dentro da escola. A adolescente teria sido chamada de “sedutora”, “vulgar” e “v*dia”, ouvindo que só era assediada “porque era uma p*ta”, na frente de colegas. Ainda assim, relata que a diretora constrangeu a menina a pedir perdão ao suposto agressor, o que teria sido confirmado pelo próprio estudante em depoimento.

"Sentindo-se protegido pela diretora, o agressor tentou quebrar o braço da minha filha e, em outra ocasião, tentou arrombar a porta do banheiro para alcançá-la. Esses atos só não se consumaram porque um colega interveio para protegê-la. Quando esse estudante solicitou providências à direção, foi orientado a ‘não se meter’", diz Geanne.

Laços de Esperança

A mãe relatou que criou o Instagram "Laços de Esperança" para alertar sobre depressão silenciosa e bullying, o que incentivou dezenas de vítimas, ex-funcionários e relatos de racismo, homofobia e lesões no colégio. Ela enfatiza que escolas devem acolher e proteger, não abafar crimes, e usa sua dor para prevenir casos semelhantes, destacando que violência psicológica é tão letal quanto a física.

“Após a perda da minha filha, fundei o Laços de Esperança, iniciativa voltada ao enfrentamento da depressão silenciosa. Ao entrar em suas redes sociais, algo que achávamos que não havia necessidade, nos deparamos com um cenário devastador, um filme de terror. Passei então a tornar públicos os abusos sofridos por minha filha no ambiente escolar”, conta ao BNews.

A partir dessas publicações, outras vítimas começaram a procurar contato, quebrando o silêncio e formalizando denúncias. "Os relatos são chocantes e revelam um padrão sistemático de violência que acontece há décadas. Há adolescentes que relataram automutilação decorrente de racismo e homofobia praticados no ambiente escolar, inclusive atribuídos à própria proprietária da instituição. As denúncias revelam uma verdadeira engrenagem criminosa", relata.

“Consta ainda que uma psicóloga, atualmente indiciada, realizava escutas e atendimentos terapêuticos sem o consentimento formal dos responsáveis legais, o que configura violação grave do Estatuto da Criança e do Adolescente e das normas do Conselho Federal de Psicologia. As informações obtidas nesses atendimentos eram repassadas à direção da escola e utilizadas contra os próprios alunos”, acrescenta.

O que diz a defesa do Colégio e das indiciadas

Em nota enviada ao BNews, a defesa do Colégio Status e das indiciadas informou que a instituição, proprietária, familiares, professores e psicóloga estão sendo alvo de "diversas injúrias, difamações e calúnias através de discursos de ódio" e que a morte da aluna foi um episódio trágico que comoveu a todos devido a perda tão prematura de uma garota com uma vida inteira pela frente. 

"Nós temos colaborado com as investigações da Polícia Civil que tenta esclarecer os fatos. Estamos contribuindo com a juntada de documentos e fornecendo depoimentos de pessoas que tanto tiveram convivência com a jovem, bem como conhecem o seu histórico de problemas os quais existiam antes mesmo de estudar em nosso colégio", afirmou em nota. 

Segundo a defesa, a sociedade precisa saber que a jovem era uma garota amada e querida por todos os profissionais da escola, mas carregava uma lacuna muito grande de amor, sentimento que nunca pode ser preenchido porque a ausência dele estava em seu lar.

A jovem foi vítima de uma negligência familiar muito grande, de pais que NUNCA compareceram a uma reunião escolar, pais que NUNCA participaram dos eventos da escola com os alunos, pais que NUNCA atenderam às nossas solicitações de comparecimento ao estabelecimento para tratar do comportamento da filha, pais que NUNCA sequer mandaram uma mensagem para saber 'como estava a sua filha na escola', os mesmos pais que hoje buscam transferir a culpa para nós com a perspectiva de um refúgio para se sentirem inocentes perante todos que perguntam 'cadê a mãe e o pai que nunca perceberam nada na criança?'. De fato eles não estavam lá quando a aluna precisou, não estavam lá quando a escola tentou avisar e ajudar, apareceram tão somente agora tentando incriminar quem, ao contrário deles, tentou se fazer presente na vida da garota, jovem que quando saía do colégio perambulava pela cidade ao invés de ir para casa, talvez porque seu lar não lhe fosse tão acolhedor", afirmou a defesa do Colégio.

A defesa ainda destaca que em uma das conversas mais chocantes do tempo da aluna no colégio aconteceu quando informaram à mãe da menina de que ela queria ir embora para casa pois não se sentia bem naquele dia. "A resposta que nos foi dada: 'Ela não vai embora coisa nenhuma. Ela gosta de se aparecer e chamar atenção. Diga a ela pra esperar o pai ir buscá-la no horário da saída'", afirmou em nota.

Por fim, a defesa afirma que a instituição e profissionais são inocentes das imputações que vêm sendo alvo por parte especialmente da mãe da jovem. "Temos uma história de trinta anos construída com muita dedicação e zelo aos nossos alunos, em que nunca fomos denunciados por nenhum crime e temos a certeza que a verdade e a justiça prevalecerá comprovando a nossa inocência", relata. 

"Renovamos nosso compromisso com a educação, a verdade e, acima de tudo a justiça para que possamos todos continuar de mãos dadas entre família, escola e sociedade como um todo buscando tornar o mundo um lugar com mais amor, afeto e com menor ódio e hipocrisia", finaliza. 

Próximas etapas

O delegado decidiu pelo indiciamento das funcionárias e vai ouvi-las antes de remeter o inquérito para o Ministério Público, que é o órgão responsável por denunciar e dar início à fase processual.

De acordo com o advogado de Geanne Suzarte, Jefferson Araújo, o conjunto probatório reunido até o momento foi considerado robusto, convergente e suficiente para fundamentar o indiciamento, independentemente dos interrogatórios. 

O que diz a Polícia Civil

A Polícia Civil afirmou que o inquérito policial foi instaurado e segue em curso para apurar as circunstâncias da morte da adolescente de 14 anos, observando todos os procedimentos investigativos previstos. Diligências e oitivas seguem em curso para esclarecer o caso.

"A 1ª Delegacia Territorial de Ilhéus realiza diligências para concluir o Inquérito Policial, ainda em curso. Mais detalhes não serão mencionados para não intervir no trabalho da Polícia Judiciária", finalizou em nota ao BNews.

Classificação Indicativa: Livre

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