Polícia

Moacir Moreno: Relembre o assassinato do ator que parou a Bahia há 30 anos

Reprodução/Redes sociais
Vítima de uma emboscada em seu próprio apartamento em Salvador, artista nascido em Maragogipe deixou marcas no teatro baiano  |   Bnews - Divulgação Reprodução/Redes sociais
Antonio Dilson Neto

por Antonio Dilson Neto

Publicado em 06/06/2026, às 04h00



Em outubro de 1994, a alegria que dá identidade a Salvador silenciou diante de uma das maiores tragédias de sua história cultural. Moacir Cruz da Conceição, que ganhou projeção nacional sob o nome artístico de Moacir Moreno, foi encontrado morto, aos 37 anos, em seu apartamento na Barra. Amarrado, amordaçado e golpeado no pescoço, o artista foi vítima de um crime brutal que misturou sedução, roubo e violência extrema.

O caso movimentou a polícia baiana, revelou uma emboscada armada no centro da noite soteropolitana e expôs as fragilidades do sistema prisional que já eram evidentes à época.

Siga o BNews no Google e receba as principais notícias no seu celular

Google News Bnews

📲 Mantenha-se informado! Siga o CANAL DO BNEWS NO WHATSAPP e receba as principais notícias diretamente no seu dispositivo. Clique e não perca nada!

Sonhos em Maragogipe 

Nascido em 1957, no Recôncavo Baiano, na cidade de Maragogipe, o jovem Moacir alimentava desde cedo o sonho de trilhar o caminho das artes como dançarino ou ator. Determinado a mudar de vida, deixou a sua terra natal rumo a Salvador. Na capital, enquanto a consagração não vinha, dividiu-se entre a rotina burocrática como bancário e as salas de aula de uma academia local, onde trabalhava como professor de dança.

O divisor de águas de sua trajetória aconteceu quando ingressou no extinto Curso Livre do Teatro Castro Alves (TCA). Foi ali que diretores e colegas perceberam que a comédia era, definitivamente, a sua praia. Moacir não demorou a se tornar um dos criadores e pilares da festejada Companhia Baiana de Patifaria, grupo que revolucionou o humor baiano e transformou o teatro local em um fenômeno de bilheteria arrastando multidões em Salvador, no Rio de Janeiro e em São Paulo.

As noviças
Reprodução

Na Cia., Moacir brilhou intensamente em montagens marcantes como Abafa Banca e Noviças Rebeldes. Mas foi em A Bofetada — considerada o maior sucesso da história do teatro baiano — que ele imortalizou o seu talento. Dando vida a tipos inesquecíveis como Araci, Paloma, a adolescente Camila e a ácida crítica cultural Vânia Leão, o ator ajudou a ditar jargões e a popularizar expressões tipicamente baianas, como o "oxente", nos palcos do Sul e Sudeste.

A emboscada na Barra

Toda a alegria e o magnetismo de Moacir Moreno foram encerrados no primeiro fim de semana de outubro de 1994. Após mais um dia de trabalho nos palcos, o ator decidiu dar um passeio na Rua Carlos Gomes, no centro de Salvador, local que, à época, despontava como o point mais badalado e efervescente da vida noturna LGBT da capital.

Nos bares da região, Moacir conheceu dois homens. Após conversas e interações na noite, o artista convidou a dupla para estender o encontro em seu apartamento, localizado no Edifício Barra Sol, na Rua Miguel Bournier — a poucos metros da orla da Barra. Como a irmã com quem dividia o imóvel havia viajado naquele fim de semana, o local acabou se tornando o cenário de uma emboscada.

Ao retornar no início da semana, a irmã do ator deparou-se com uma cena de horror. Segundo registros da edição de 6 de outubro de 1994 do jornal Folha de S.Paulo, Moacir Moreno foi brutalmente assassinado. Os criminosos amarraram seus pés e mãos, amordaçaram sua boca para impedir pedidos de socorro e cravaram uma faca em seu pescoço, na região da traqueia. Do imóvel, os assassinos fugiram levando o carro do artista (um Fiat Uno), joias personalizadas, um aparelho de som e um videocassete.

Folha de s paulo
Reprodução/Folha de S. Paulo

Os 'Dois Paulos' 

As investigações lideradas pelo delegado Euplio Lyra, então titular da 1ª DP (Barris), ganharam tração assim que o Fiat Uno de Moacir foi localizado abandonado e depenado no bairro de Brotas. Puxando o fio das pistas, a polícia civil identificou e prendeu os executores: Paulo Sérgio Carvalho Moreira, o "Paulo Bomba", e Paulo Moreira Argolo, conhecido como "Paulo de Elói". Diante das evidências, ambos confessaram o latrocínio.

os dois paulos
Reprodução

A confissão

Segundo a confissão dos assassinos, o trio teria saído de um pagode em Cosme de Farias e “combinaram de procurar um homossexual para ganhar algum dinheiro”. Foi neste momento e, à porta de uma boate na Carlos Gomes, que encontraram Moacir. Paulo Bomba dirigiu-se ao ator fazendo um acerto e a vítima os convidou para a sua casa.

O restante do relato transcrevo na íntegra (registrada nos jornais Bahia Hoje e A Tarde da época): "… ao chegar ao apartamento Moacyr os pediu que tomassem banho. No chuveiro, os dois homicidas combinaram que iriam “fazer uma limpa” no apartamento. O ator abriu uma champagne e enquanto isso Paulo Eloy foi até a cozinha e pegou uma faca tipo serra e voltou ao quarto da vítima, onde iniciaram a orgia. Moacir Moreno foi amarrado com um lençol rasgado em tiras, sendo amordaçado, depois de perguntar aos criminosos, o que eles queriam e passar a gritar por socorro.

Em meio à resistência, Moacir foi esfaqueado no pescoço e como ainda dava sinais de vida, foi finalmente sufocado com um travesseiro.

Levados ao banco dos réus, Paulo Bomba foi condenado a 23 anos de reclusão e Paulo de Elói pegou 21 anos.

Contudo, a sensação de justiça durou pouco. De acordo com informações divulgadas pela imprensa à época, em 24 de julho de 1995 — apenas um ano após o crime —, Paulo Bomba protagonizou uma fuga de extrema facilidade do complexo penitenciário de Salvador.

Quatro anos depois, em 1999, foi a vez de Paulo de Elói também escapar das grades. A sua jornada de deboche terminou no ano 2000, quando policiais o localizaram curtindo tranquilamente o meio da multidão em uma micareta no interior da Bahia, na cidade de Curaçá. 

Onde estão os dados?

Para a produção desta reportagem, o BNews procurou a Polícia Civil, o Tribunal de Justiça da Bahia e a Secretaria de Administração Penitenciária (SEAP).

A PC informou que concluiu o inquérito policial, apresentando os suspeitos ao Ministério Público para as acusações formais. Embora haja farto material de cobertura dos jornais e TV à época sobre o caso, o Tribunal de Justiça informou, em nota, que como o processo data de 1994, os arquivos são físicos e não foram digitalizados e, portanto, não constam nos sistemas digitais do órgão. Assim, o TJ orientou à reportagem que questionasse a SEAP sobre as questões relacionadas à prisão dos condenados e tempo de sentença cumprido.

Por sua vez, a SEAP informou que, por conta da Lei Geral de Proteção de Dados não pode informar quando um interno é preso ou solto. Segundo a SEAP, a secretaria é apenas cumpridora — e é o Judiciário quem determina as inclusões e exclusões no Sistema Penitenciário, e seria, portanto, quem poderia ceder as informações sobre as prisões e tempo de sentença cumpridos pelos assassinos de Moacir.

Por fim, a SEAP orientou à reportagem que pedisse as mesmas informações ao TJ e que apenas poderia informar se os condenados estão ou não no Sistema Prisional. A reportagem ainda aguarda estes dados.

Ao fim e ao cabo, depois de quase um mês de consulta às Secretarias (a produção começou no dia 12 de maio), a reportagem permanece sem nenhum dado oficial sobre o o cumprimento (ou não) das sentenças.

Projeção nacional 

O tamanho da barbárie e a relevância de Moacir Moreno fizeram com que o crime ganhasse projeção em todo o território nacional. Anos mais tarde, o caso foi recontado em detalhes no programa Linha Direta, da Rede Globo.

Na reconstituição televisiva, grandes estrelas do cenário artístico brasileiro, como Marcelo Serrado e os saudosos Marília Pêra, Tônia Carrero e José Wilker, vieram a público comentar com profunda tristeza a passagem trágica do colega de profissão.

"O teatro baiano perde parte de sua alegria", resumiu o caderno ilustrado da Folha de S.Paulo na semana do crime, ecoando o luto de parceiros de cena como Lelo Filho e Frank Menezes.

Moacir Moreno foi enterrado sob forte comoção popular em Maragogipe, fechando o ciclo do jovem que saiu do Recôncavo para fazer história. Mais de três décadas depois, o brutal assassinato do artista ainda permanece como uma ferida aberta no coração de amigos, familiares, admiradores e no teatro baiano, que guarda na memória o eco das gargalhadas que ele espalhou pelo Brasil.

No dia em que o ator completaria 67 anos, a CIA publicou um vídeo em seu Instagram em homenagem ao ator. Com um texto repleto de saudade e carinho, Lelo Filho relembrou o sócio e amigo:

Fomos privados do prazer de dividir a nossa vida e o palco com ele. Mas, há algo que jamais vai poder ser apagado: a memória de um dos melhores artistas que a Bahia já criou".

Classificação Indicativa: Livre

Facebook Twitter WhatsApp


Cadastre-se na Newsletter do Bnews (Beta)