Polícia

O crime que a Bahia nunca esqueceu: 16 anos depois, duplo homicídio de Paulo Colombiano e Catarina Galindo permanece sem solução

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Paulo Colombiano havia identificado irregularidades milionárias no plano de saúde dos rodoviários antes de ser morto ao lado da esposa  |   Bnews - Divulgação Reprodução/Redes Sociais
Antonio Dilson Neto

por Antonio Dilson Neto

Publicado em 15/07/2026, às 05h00



Era noite de terça-feira em Salvador quando Paulo Colombiano e Catarina Galindo seguiam o último trajeto do dia em direção a casa, no bairro de Brotas. Ele não percebeu que estava sendo seguido desde o começo da tarde — e que aquele seria o último trajeto que faria.

Já perto da residência do casal, o Sportage prata de Colombiano foi interceptado por uma moto com dois homens. Um deles atirou contra o carro. Três disparos atingiram Paulo. Um acertou Catarina. Os dois morreram no local.

Era 29 de junho de 2010. Nos dias anteriores, Paulo havia intensificado suas cobranças sobre o que acreditava ser um esquema de irregularidades na gestão do plano de saúde dos trabalhadores rodoviários, categoria que representava como tesoureiro do Sindicato dos Rodoviários da Bahia.

Segundo o Ministério Público da Bahia, essa postura custou a vida dele — e da esposa que estava ao seu lado naquela noite.

Dezesseis anos depois, nenhum dos cinco acusados foi levado ao Tribunal do Júri. Todos respondem ao processo em liberdade.

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Catarina e ppaulo
Reprodução

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Descobertas perigosas

Nos meses que antecederam o crime, Paulo Colombiano debruçou-se sobre os contratos firmados entre o sindicato e a Mastermed, empresa responsável pela administração do plano de saúde dos rodoviários, e o que encontrou eram números que simplesmente não fechavam. As investigações da Polícia Civil concluíram que a Mastermed recebeu, entre 2005 e 2010, mais de R$ 106 milhões do sindicato — sendo cerca de R$ 34 milhões destinados exclusivamente ao pagamento de taxas administrativas, o equivalente a 32% do total repassado.

Colombiano entendia que aquela taxa era desproporcional e estava disposto a buscar outra administradora caso a Mastermed não cedesse nas negociações. O problema, segundo o MP, é que o sindicato era o único cliente da empresa, fundada apenas seis meses antes de assinar o contrato com a entidade, em 2002, o que tornava qualquer mudança nessa relação comercial uma ameaça existencial para os donos da Mastermed.

Paulo também havia identificado pendências envolvendo INSS, FGTS e Receita Federal, além de outras despesas atribuídas à administração do sindicato que, na sua avaliação, exigiam explicação.

Para o Ministério Público, a disposição de Paulo em mudar essa realidade foi o estopim do que viria a seguir.

Execução planejada

Segundo as investigações e as confissões colhidas pela Polícia Civil, os donos da Mastermed — que também eram proprietários do Atacadão Centro Sul — recrutaram dois funcionários de confiança do supermercado e um terceiro da própria administradora para executar Paulo Colombiano. O veículo usado pelo grupo foi um Fiat Palio branco adquirido pelo próprio empresário mandante especificamente para esse fim.

Durante três dias, o grupo acompanhou a rotina de Colombiano no período da tarde para identificar o momento mais adequado para agir. No primeiro dia, o Palio saiu diretamente da residência do empresário no Corredor da Vitória em direção ao sindicato. No segundo, um engarrafamento no Dique do Tororó fez os criminosos perderem o carro de Paulo de vista. No terceiro, conseguiram acompanhá-lo — e dessa vez Catarina Galindo estava no carro junto com o marido.

Naquele dia, por volta das 13h, dois dos executores posicionaram o Palio branco na porta do Sindicato dos Rodoviários e permaneceram no carro por horas, enquanto um deles mantinha contato por telefone com o terceiro comparsa. Quando recebeu a informação de que Colombiano estava saindo, o carona disse ao motorista: "Vamos, que o carro vai sair."

O último dia de Paulo Colombiano

Um dos assuntos discutidos naquele reunião de Paulo no Sindicato foi, justamente a segurança dele e do presidente do sindicato. Colombiano chegou a falar da necessidade de trocar o carro do presidente por um modelo mais potente, e alguns presentes comentaram que ele próprio deveria andar com seguranças, especialmente depois das descobertas sobre o plano de saúde. Paulo desconversou.

Depois da reunião, pegou o Sportage prata, passou pelo Tororó e pela Estação da Lapa em direção à sede do PCdoB nos Barris, onde concluiu suas atividades do dia. De lá, saiu com Catarina para casa. O Palio branco estava atrás durante todo esse percurso, e o carona não parava de ligar para o terceiro comparsa, passando a posição do Sportage em tempo real.

Ao passar pelo IPERBA, já próximo à residência do casal, o carona identificou o carro de Colombiano pelo retrovisor e informou ao telefone: "O carro é o segundo atrás do meu."

Instantes depois, a moto com dois ocupantes parou ao lado do Sportage e os disparos foram efetuados.

Carro de paulo colombiano
Reprodução

Provas e informações

Em dois anos de trabalho nas operações batizadas de Colômbia e Colômbia 2, a Polícia Civil da Bahia conseguiu reunir praticamente todas as provas que fundamentaram a prisão temporária dos cinco envolvidos, em 2012. Os mandantes, no entanto, ficaram presos por menos de 15 dias.

Conforme a denúncia apresentada pelo Ministério Público, os empresários Claudemiro César Ferreira Santana e Cássio Antônio Santana são acusados de encomendar o duplo homicídio, enquanto Edilson Duarte de Araújo, Adailton de Jesus e Wagner Luiz Lopes foram denunciados como executores. Todos foram presos em algum momento durante as investigações. Todos respondem ao processo em liberdade.

O processo acumulou, ao longo dos anos, 42 volumes, 18 apensos e 42 anexos — cada volume com cerca de 200 páginas, num total de milhares de documentos.

Quando os primeiros recursos dos réus chegaram ao Tribunal de Justiça da Bahia, em 2015, dois desembargadores se declararam suspeitos — um deles havia sido o mesmo que concedeu habeas corpus a alguns dos acusados três anos antes. Os recursos foram redistribuídos para outros dois desembargadores, que levaram dois anos para julgar.

Em 2017, o TJ anulou a decisão que determinou o júri popular dos réus, sob a alegação de que a sentença original reunia "excesso de linguagem”.

O processo voltou à primeira instância e não avançou desde então.

Dezesseis anos sem respostas

O caso Paulo Colombiano e Catarina Galindo tornou-se, ao longo dos anos, um dos símbolos mais citados pelo movimento sindical baiano quando o assunto é impunidade e morosidade judicial e não pela falta de investigação, já que o inquérito foi concluído e os acusados foram identificados e denunciados, mas pela ausência do desfecho que o processo ainda não produziu.

Desde 2010, o caso tramita na Justiça baiana sem que nenhum dos cinco denunciados tenha sido submetido ao Tribunal do Júri, instância competente para julgar crimes dolosos contra a vida. A cada aniversário do assassinato, familiares, amigos e representantes sindicais voltam às ruas para cobrar uma resposta que segue sem prazo definido.

Na manhã do dia 29 de junho, o grupo se reuniu novamente em frente ao Fórum Ruy Barbosa, em Salvador, para marcar mais um ano desde o crime e renovar o apelo por um desfecho no processo.

Procura-se

Para a produção desta reportagem, o BNews procurou o Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA), para apurar a situação atual do processo e quais são os próximos passos do caso.

Até a publicação, não houve retorno.

O Sindicato dos Rodoviários também foi procurado para falar sobre o caso e entender os desdobramentos do caso e das investigações. Também não houve resposta.

O espaço permanece aberto.

Classificação Indicativa: Livre

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