Polícia

A sangue-frio: relembre o assassinato de pediatra dentro de consultório que chocou a Bahia

Foto: Arquivo Pessoal
Assassinato do pediatra Júlio César chocou a cidade de Barra e levantou questões sobre a motivação do crime  |   Bnews - Divulgação Foto: Arquivo Pessoal
Cauan Borges

por Cauan Borges

borgesjornalismo2023@gmail.com

Publicado em 16/09/2026, às 06h00



O assassinato do pediatra Júlio César de Queiroz Teixeira, morto a tiros dentro do próprio consultório enquanto atendia uma criança, completa mais um capítulo na história recente do município de Barra, no oeste da Bahia.

O crime aconteceu em 23 de setembro de 2021 e provocou comoção na cidade. Quase quatro anos depois, em agosto de 2025, os cinco acusados de envolvimento na morte foram condenados pelo Tribunal do Júri, mas as defesas recorreram das decisões.

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Júlio César tinha 44 anos quando foi assassinado, e deixou a esposa, Daniela Cunha, e dois filhos, que tinham 5 e 8 anos à época.

O pediatra era o caçula de três irmãos, nasceu em Xique-Xique, no norte da Bahia, estudou em Salvador e se formou em Medicina em Maceió, Alagoas. Reconhecido profissionalmente na região, atendia pacientes em pelo menos cinco cidades do oeste baiano, além de trabalhar no Hospital Roberto Santos, em Salvador.

23 de setembro de 2021 e o assassinato

Na manhã daquele dia, Júlio César estava no consultório particular onde trabalhava, em Barra, atendendo uma criança. Por volta das 8h30, um homem entrou na sala e efetuou os disparos. A criança que recebia atendimento, a mãe dela e dois funcionários da clínica presenciaram a execução. Entre eles estava a esposa do médico, que também trabalhava na unidade como enfermeira.

Parte da ação foi registrada pelas câmeras de segurança da clínica. As imagens mostraram o momento em que pacientes que aguardavam na recepção ouviram os tiros e também registraram o suspeito deixando a sala de atendimento.

O crime provocou forte comoção na cidade baiana, conhecida nacionalmente por ficar na foz do Rio Grande com o Rio São Francisco, e deu início a uma investigação para identificar não apenas quem executou o pediatra, mas também quem teria planejado e financiado a morte do médico.

Novembro de 2021 e as cinco prisões

Dois meses após o assassinato, a Justiça decretou a prisão preventiva de cinco suspeitos. O acusados passaram a responder pelo homicídio qualificado de Júlio César. Entre os presos estavam:

  • Diego Santos Silva, conhecido como “Cigano”, apontado pela investigação como mandante do crime;
  • Jefferson Ferreira Gomes da Silva foi acusado de ser o executor;
  • Ranieri Magalhães Bonfim Borges teria atuado como piloto do veículo utilizado para levar o atirador;
  • Adeilton de Souza Borges e Fernanda Lima da Silva foram apontados como olheiros que estavam na clínica para acompanhar a movimentação e vigiar o pediatra.

Família questiona investigação

Dez meses após o assassinato, em julho de 2022, o caso ainda provocava questionamentos entre os familiares de Júlio César. Naquele período, o inquérito policial já havia sido concluído e encaminhado ao Ministério Público da Bahia (MP-BA), que denunciou os cinco investigados.

Entretanto, a família contestava a versão apresentada para a motivação do crime. Segundo os familiares, a morte estaria relacionada a uma disputa médica em Barra e teria sido encomendada. Geraldino Gustavo, irmão de Júlio César, afirmou na época que a hipótese apresentada pela investigação não explicava completamente o assassinato.

Os suspeitos que estão presos fazem parte de um grupo de extermínio, que atua há muitos anos em Barra e Ibotirama. A impunidade em relação a esses crimes fez chegar ao crime contra Júlio César”, disse o irmão do médico ao g1.

Naquele momento, Geraldino também esperava que o processo judicial pudesse esclarecer quem estaria por trás da morte: “A gente espera que essa ação criminal, em curso, nos revele quem está por trás da morte de Júlio César, quem contratou esses indivíduos para fazer esse crime bárbaro e covarde”, prosseguiu.

No período, a Polícia Civil da Bahia (PC-BA) afirmou que não comentava as argumentações apresentadas pelos familiares das vítimas.

Enquanto a investigação avançava, a família tentava lidar com a ausência do médico. Júlio César era lembrado como um profissional dedicado e alguém muito ligado aos familiares, apesar da rotina de trabalho. A família também ressaltava a importância da fé e do apoio recebido desde o assassinato.

Não merecia passar por essa tamanha covardia. Hoje a gente convive com a saudade, fortalecidos pela fé em Deus e pelo apoio da família, dos amigos e da comunidade de Barra. Isso nos faz seguir e enfrentar essa situação trágica”, concluiu Geraldino Gustavo.

Julgamento começa em Xique-Xique

O julgamento dos cinco acusados começou em 26 de agosto de 2025, no Fórum de Xique-Xique, também no norte da Bahia. O júri popular se estendeu por dois dias e contou com a presença dos réus, advogados, jurados e familiares de Júlio César.

No primeiro dia, foram ouvidas testemunhas que tiveram contato direto ou indireto com o caso. Entre elas estavam o delegado de Barra, Jenivaldo Rodrigues; a esposa de Ranieri Magalhães; a mãe da criança que era atendida pelo pediatra no momento da execução; a ex-esposa de Diego “Cigano”; uma funcionária da clínica que presenciou o assassinato; e a viúva do médico, Daniela Cunha.

No segundo dia, os cinco réus foram interrogados. Depois dos depoimentos, tiveram início os debates entre acusação e defesa. O Ministério Público da Bahia pediu a condenação dos acusados e também se posicionou contra o reconhecimento da atenuante de confissão para Jefferson Ferreira Gomes da Silva.

27 de agosto de 2025 e as cinco condenações

Após dois dias de julgamento, os cinco réus foram condenados pela participação no assassinato de Júlio César. As decisões ainda cabem recurso, e as defesas dos condenados afirmaram à época que iriam recorrer. Confira as sentenças:

  • Diego Santos Silva, apontado como mandante, recebeu a maior pena: 31 anos e 4 meses de prisão;
  • Jefferson Ferreira Gomes da Silva, acusado de executar o pediatra, foi condenado a 26 anos e 4 meses;
  • Ranieri Magalhães Bonfim Borges, apontado como responsável por conduzir o veículo usado na ação, recebeu pena de 20 anos;
  • Adeilton de Souza Borges e Fernanda Lima da Silva, acusados de atuar como olheiros na clínica, foram condenados, cada um, a 21 anos de prisão.

“Sem o peso da impunidade”

A condenação encerrou uma espera de quase quatro anos para a família, mas não apagou a perda. Em entrevista ao g1, Geraldino Gustavo afirmou que o resultado do júri trouxe uma sensação de alívio depois de anos acompanhando o processo.

Hoje a gente amanheceu mais leve, sem o peso da impunidade. Tiraram uma carga pesada que a gente carregava há quase quatro anos”, comentou o engenheiro agrônomo e advogado.

O cirurgião-dentista Lula Teixeira, outro irmão de Júlio César, também falou sobre o resultado. Para o médico, a condenação representa uma resposta possível diante de uma perda que a família jamais desejou enfrentar: "O que nós queríamos era ter nosso irmão vivo. Era não ter passado por isso, mas diante do acontecido, a gente agradece a Justiça, a Deus e as pessoas que nos fortaleceram desde os primeiros dias”, disse.

Quase cinco anos após aquela manhã de setembro de 2021, a história de Júlio César permanece marcada pela violência que interrompeu sua trajetória profissional e familiar. Para os parentes, a condenação dos cinco envolvidos representa um passo para encerrar um dos capítulos mais dolorosos da família, embora o processo ainda possa seguir nos tribunais por causa dos recursos.

Que a gente consiga essas respostas para a gente seguir com mais leveza após essa situação”, concluiu Geraldino Gustavo.

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