Política
O advogado, jornalista e mestre em ciência política Murillo Aragão, comentou sobre as narrativas políticas em um artigo publicado na Revista Conjuntura Econômica da Fundação Getúlio Vargas. Na ocasião, o especialista usa a teoria da “Janela de Overton”, criada pelo cientista político Joseph Paul Overton, para explicar sua análise, já que essa ferramenta serve para descrever “como ideias transitam de impensáveis a amplamente aceitas, influenciando o debate público e a elaboração de políticas e, finalmente, serem transformadas em políticas públicas amplamente aceitas”.
“A dinâmica da Janela de Overton no Brasil também reflete como partidos políticos se posicionam para permanecerem relevantes. A fim de se manterem na vanguarda do poder, evoluindo em sintonia com os anseios da sociedade, as legendas enfrentam inúmeros obstáculos. No entanto, interpretar corretamente os desejos do público é um desafio, especialmente em tempos de polarização e amplificação de discursos extremistas. No contexto atual, parte das elites políticas, académicas (...) e midiáticas parece desconectada das aspirações do eleitorado. Enquanto a sociedade busca soluções pragmáticas, muitas dessas elites permanecem presas a narrativas anacrónicas que já se revelaram ineficazes. O descompasso abre espaço para lideranças populistas que prometem respostas fáceis a problemas complexos, em geral exacerbando a desconfiança nas instituições democráticas”, analisa Aragão.
“Na esquerda, os tradicionais difusores do pensamento dito "progressista" perderam parte significativa de sua relevância social. A Teologia da Libertação na Igreja Católica, que influenciava movimentos sociais e pautas políticas, praticamente desapareceu. As universidades públicas, antes centros de produção intelectual e formação das elites, foram gradualmente abandonadas pelos setores mais prestigiados da sociedade, que buscam excelência de ensino em instituições privadas ou no exterior. A imprensa tradicional, por sua vez, viu sua relevância encolher diante da ascensão das mídias digitais e das redes sociais. Já o meio cultural, antes hegemonizado por uma elite intelectual, passou a ser protagonizado por narrativas emergentes das comunidades, refletindo novas dinâmicas sociais que escapam ao controle centralizado de outrora”, explica o advogado.
“Pelo seu lado, a direita enfrenta problema semelhante. Parcela significativa desse campo político se deixou levar por pensamentos golpistas e antidemocráticos, desconectando-se das expectativas da sociedade contemporânea. Como a esquerda, a direita parece presa a uma visão anacrónica do mundo, incapaz de se ajustar as novas realidades e de apresentar soluções concretas que dialoguem com um público de tendência pragmática e plural. Tanto a esquerda, com suas narrativas intervencionistas e centralizadoras, quanto a direita, com seus discursos autoritários e saudosistas (...) É urgente que ambos os polos deixem de pensar de forma analógica, insistindo em modelos que já se mostraram inadequados para os desafios do presente”, alerta o especialista.
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