Política
Em tempos de política nacional marcada por gritaria, tretas no 'zap zap' da família e até gente tomando detergente, a cena registrada em um jantar realizado nesta semana, em Salvador, chamou atenção justamente pela simplicidade. O senador Jaques Wagner, um dos principais nomes do PT no país, deixou sua mesa para cumprimentar ACM Neto, João Roma e Angelo Coronel, todos ligados a ao campo da oposição.
O gesto pode parecer pequeno diante da temperatura do debate político brasileiro, mas diz muito sobre a tradição da política baiana. Enquanto Brasília virou palco de uma guerra quase ininterrupta entre lulistas e bolsonaristas, a Bahia ainda preserva uma característica rara: os adversários seguem conversando nos bastidores.
Isso não significa ausência de disputa. Pelo contrário. ACM Neto e Wagner deverão estar em lados opostos na eleição de 2026. Ainda assim, existe uma fronteira que, na Bahia, nem sempre é atravessada: a da ruptura pessoal absoluta.
A política baiana sempre teve forte componente de convivência. Rivais se enfrentam em palanques, trocam críticas públicas duras, disputam espaços de poder, mas continuam frequentando os mesmos eventos, mantendo canais abertos e preservando relações institucionais.
Em muitos casos, até amizades pessoais sobrevivem às campanhas eleitorais. João Roma rompeu politicamente com Neto após anos de aliança. Agora, voltou para o ninho. Rui Costa também subiu ao palanque recentemente com João Leão, seu antigo vice-governador e atual adversário.
O episódio do jantar promovido pelo jornal A Tarde e pela Associação Comercial da Bahia expôs exatamente isso. Não houve aliança. Houve apenas um cumprimento cordial. E, ainda assim, a cena virou assunto porque o Brasil de hoje transformou a convivência democrática em algo quase exótico.
A polarização nacional contaminou parte do ambiente político brasileiro com a lógica do inimigo permanente. Divergir passou a significar romper completamente. O debate público foi tomado pela ideia de que conversar com o adversário é sinal de fraqueza ou traição. Na terra de Jorge Amado, apesar das tensões naturais da disputa eleitoral, essa cultura ainda não se consolidou completamente.
Talvez porque a política baiana seja mais pragmática. Talvez porque os grupos locais se conheçam há décadas. Ou talvez porque exista compreensão de que eleição acaba, mas a convivência institucional permanece. É um raro lembrete de normalidade em tempos de radicalização. E isso, hoje, já parece muita coisa.
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