Política

Cidade baiana gasta fortuna em shows de sertanejo mesmo com a prefeitura quebrada e salários atrasados

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Levantamento revela que municípios brasileiros gastaram bilhões com cachês, mesmo enfrentando crises financeiras, dívidas e salários atrasados  |   Bnews - Divulgação Divulgação
Thiago Teixeira

por Thiago Teixeira

thiago.teixeira@bnews.com.br

Publicado em 21/03/2026, às 12h28 - Atualizado às 12h38



Municípios brasileiros em situação financeira delicada gastaram ao menos R$ 2,1 bilhões com cachês de artistas nos últimos dois anos. Um dos casos emblemáticos é o de Quijingue, no Nordeste baiano, que decretou situação de emergência administrativa, citando descontrole fiscal, salários atrasados e dívidas com fornecedores em janeiro de 2025.

Apesar disso, o município ampliou investimentos em festas, quadruplicando os gastos com o São João e contratando atrações como a dupla Zé Neto & Cristiano por R$ 854 mil, durante a festa de São Sebastião em 2026. 

O dado faz parte de um levantamento realizado pelo Uol com base no Portal Nacional de Contratações Públicas (PNCP) e considera 1.074 cidades com baixa capacidade de pagamento, segundo classificação do Tesouro Nacional.

A cidade, que figura entre os piores PIBs per capita do país, também reduziu serviços básicos, como o número de médicos e o horário de funcionamento de unidades de saúde, além de enfrentar falta de medicamentos. Servidores públicos chegaram a realizar protestos diante dos atrasos salariais.

A situação de Quijingue não é isolada. Segundo o levantamento, cidades com classificação C ou D na Capacidade de Pagamento (Capag) — indicador que mede a saúde fiscal — concentram gastos expressivos com eventos, mesmo com limitações orçamentárias.

Representantes de trabalhadores também criticam a prática. Em Quijingue, o sindicato dos servidores afirma que, mesmo após cerca de R$ 10 milhões gastos com shows desde 2025, parte do funcionalismo segue sem receber salários. A categoria cobra os pagamentos na Justiça.

Casos se repetem pelo país

Na cidade de Santa Bárbara do Tugúrio, em Minas Gerais, com cerca de 4 mil habitantes, o cenário é semelhante. Vereadores denunciam dívidas com fornecedores e obras paralisadas, como uma unidade básica de saúde e projetos de captação de água. Ainda assim, a prefeitura manteve contratos elevados com artistas.

Entre os nomes contratados estão Calcinha Preta (R$ 600 mil), João Gomes (R$ 500 mil), Zezé Di Camargo (R$ 480 mil) e Amado Batista (R$ 390 mil). O município também foi alvo de questionamentos judiciais por tentativas de contratação da cantora Joelma por valores que chegaram a R$ 550 mil, posteriormente barradas pela Justiça.

O Ministério Público de Minas Gerais chegou a acionar a Justiça alegando que os gastos com shows cresceram ao mesmo tempo em que houve cortes nas áreas de saúde e educação. Em resposta, a prefeitura afirmou que eventos culturais fazem parte da identidade local e que parte dos recursos conta com patrocínio.

Órgãos de controle têm intensificado a fiscalização dessas contratações. Um dos focos é a variação significativa nos cachês pagos a um mesmo artista em diferentes cidades, o que pode indicar superfaturamento.

O cantor Gusttavo Lima, por exemplo, recebeu R$ 900 mil em um show em Petrolina, em junho de 2024, e R$ 1,2 milhão no dia seguinte, em Maceió. Já o artista Pablo teve cachê de R$ 220 mil em Paratinga, mas chegou a R$ 900 mil em evento realizado em Boa Vista.

Na capital de Roraima, o Réveillon de 2026 teve o maior cachê registrado no período: R$ 2,3 milhões pagos ao cantor Leonardo. O valor supera, em muito, a média de apresentações anteriores do artista.

Classificação Indicativa: Livre

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