Política
O advogado Willer Tomaz, amigo do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), movimentou cerca de R$ 5 bilhões em apostas na plataforma Blaze ao longo de 2025, segundo documentos obtidos pelo Uol.
Investigado pela Polícia Federal (PF) por suspeita de lavagem de dinheiro, ele depositou mais de R$ 258 milhões na empresa, controladora do site de apostas, e retirou quase R$ 200 milhões no mesmo período.
As informações foram divulgadas em reportagem de Natália Portinari e Fabio Serapião, publicada nesta terça-feira (20). Uma nota técnica da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), vinculada ao Ministério da Fazenda, aponta que a Blaze não analisou as operações do advogado para prevenir possíveis crimes financeiros, apesar dos valores envolvidos.
A investigação contra Willer tramita no Supremo Tribunal Federal (STF). A suspeita é de que ele seja sócio oculto da Blaze, hipótese que ainda está sob apuração. A defesa nega irregularidades e afirma que os recursos têm origem lícita e são compatíveis com os rendimentos declarados à Receita Federal.
De acordo com a nota técnica, em 30 de outubro de 2025, Willer depositou R$ 7 milhões na plataforma, divididos em 14 transferências de R$ 500 mil. No dia seguinte, retirou R$ 6 milhões em apenas 18 minutos.
Em outra movimentação, registrada em 11 de novembro, o advogado fez 12 apostas em cinco minutos, que somaram mais de R$ 5 milhões. Ao longo do ano, foram contabilizadas 629 apostas individuais de R$ 500 mil ou mais.
O documento da Fazenda questiona se operações dessa magnitude poderiam ser consideradas típicas e aponta que movimentações elevadas podem levantar suspeitas de lavagem de dinheiro mesmo quando o apostador registra perdas.
A secretaria também identificou possíveis sinais de fracionamento de depósitos e saques, além da hipótese de utilização de ferramentas automatizadas para realizar apostas. A defesa de Willer, porém, afirma que ele nunca utilizou sistemas automatizados nem dividiu operações para contornar mecanismos de controle.
A nota técnica indica que a Blaze classificou Willer como cliente de risco médio durante todo o ano de 2025. Segundo a secretaria, os próprios critérios da empresa permitiriam uma classificação de risco mais elevada, inclusive em razão de uma prisão anterior do advogado sob suspeita de corrupção.
Outro ponto levantado pela Fazenda é que a plataforma considerava depósitos superiores a R$ 50 mil um fator de risco. As movimentações de Willer ultrapassaram esse patamar em mais de cinco mil vezes, segundo o documento.
Apesar disso, a Blaze comunicou ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), em 2025, apenas sete operações suspeitas, todas envolvendo apostas inferiores a R$ 1.000. Para a secretaria, as transações milionárias do advogado não foram submetidas à análise necessária.
O órgão também questionou informações fornecidas pela empresa ao regulador. Em março de 2025, a Blaze afirmou que monitorava as operações por meio de ferramentas automatizadas, mas admitiu, em dezembro, que não dispunha desse recurso. A Fazenda ponderou que a informação incorreta pode não ter sido intencional.
A secretaria apontou indícios de culpa ou dolo da empresa e recomendou a abertura de um processo administrativo, com possibilidade de aplicação de multa, além da avaliação de uma suspensão temporária das atividades.
Em nota, a defesa de Willer afirmou que os recursos utilizados nas apostas têm origem lícita, constam da declaração à Receita Federal e são compatíveis com seus rendimentos. Os advogados também argumentaram que o volume total apostado inclui sucessivas reapostas dos mesmos valores, não representando necessariamente dinheiro novo.
A defesa ainda declarou que “causa estranheza que um documento técnico de órgão federal, contendo dados protegidos por sigilo, chegue à imprensa justamente em período eleitoral”.
Willer afirma ser viciado em jogos de azar. Na sexta-feira (16), a Justiça de São Paulo negou o pedido do advogado para recuperar R$ 133,2 milhões que ele disse ter perdido na Blaze.
Na ação, ele se descreveu como “o apostador de maior perda da plataforma” e alegou ter solicitado o bloqueio da própria conta, sem atendimento da empresa.
O juiz considerou contraditório o comportamento do advogado, que havia solicitado à plataforma mesas exclusivas com apostas de até R$ 500 mil.
Willer também acusou a Blaze de ter realizado pagamentos de R$ 6 milhões por meio de 400 transferências de R$ 15 mil. Segundo ele, a divisão dos valores se assemelharia a uma prática utilizada para contornar mecanismos de prevenção à lavagem de dinheiro.
As apostas do advogado incluíam jogos de cassino ao vivo, como bacará e blackjack. Ele chegou a utilizar uma mesa exclusiva de blackjack, chamada Blaze VIP Blackjack.
Além da Blaze, o advogado depositou R$ 1,3 milhão na 7K, marca do grupo Ana Gaming. Na plataforma, apostou R$ 4,8 milhões e sacou R$ 426 mil, conforme os dados obtidos pela reportagem.
A empresa teve R$ 631 milhões em bens bloqueados pela Justiça Federal durante a Operação Narco Bet, que investiga suspeitas de lavagem de dinheiro ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC).
A defesa de Willer afirmou que ele foi cliente da 7K como qualquer outro apostador, sem vínculo societário, comercial ou pessoal com a empresa ou seus controladores. Também declarou que o advogado não é alvo da Operação Narco Bet.
A Ana Gaming informou que não comenta processos sob segredo de Justiça nem se manifesta sobre clientes ou suas operações. A empresa ressaltou que os dados dos apostadores são protegidos por sigilo e pela Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), além de afirmar que atua de acordo com a legislação e as regras do setor.
Deflagrada em outubro de 2025, a Operação Narco Bet resultou na prisão de 11 pessoas suspeitas de lavar dinheiro do tráfico internacional por meio de criptomoedas e plataformas de apostas. Entre os presos estava o influenciador Buzeira, solto em agosto de 2026.
O Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF-3) manteve o bloqueio dos bens do grupo controlado pelo empresário Nickolas Ribeiro, citando fortes indícios de lavagem de dinheiro.
A Polícia Federal também investiga se Flávio Bolsonaro atuou com Willer em um suposto esquema de lavagem de dinheiro. O caso está sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes, no STF. O senador classificou a investigação como “fake news”.
Uma reportagem anterior revelou que os dois chegaram a compartilhar uma conta no banco Santander, conforme e-mails apreendidos pela PF. Em maio de 2025, uma funcionária de Willer pediu que a conta identificada como “Flávio Bolsonaro” fosse desassociada do “usuário master” vinculado ao advogado.
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