Política
Brasil e Estados Unidos retomaram oficialmente, nesta segunda-feira (31), as negociações comerciais interrompidas após o tarifaço imposto pelo governo norte-americano em julho. A reunião virtual não terminou com avanços concretos sobre tarifas ou concessões, mas, segundo o ministro Márcio Elias Rosa, da Indústria, os dois países reconheceram que as conversas agora ocorrem sob novas condições. “Reconhecemos, ambos, que estamos diante de um novo cenário, de novas bases para trabalharmos para esse acordo”, afirmou.
O encontro reuniu Elias Rosa, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, e o representante de Comércio dos Estados Unidos, Jamieson Greer. De acordo com o ministro brasileiro, Greer informou que recebeu uma determinação direta de Donald Trump para buscar um entendimento com o governo Lula. “Ele nos disse: o presidente Trump orientou e ordenou que dialogássemos para um acordo”, relatou. Elias Rosa atribuiu a mudança à conversa telefônica entre Lula e Trump e destacou que os americanos retornaram à mesa sem uma nova contrapartida brasileira.
O governo brasileiro argumentou que a imposição das novas tarifas modificou as bases das tratativas. Antes de julho, as negociações buscavam impedir a entrada em vigor das sobretaxas; agora, Brasília pretende reduzir o que considera um desequilíbrio comercial provocado pelas medidas. “Com a aplicação dos 37,5%, nós temos um desequilíbrio ainda maior em favor deles. Qualquer concessão da parte do Brasil só aumentará o déficit para o Brasil”, declarou Elias Rosa. Equipes técnicas dos dois países deverão realizar novas rodadas nos próximos dias, seguidas de reuniões ministeriais presenciais ou virtuais.
Temas incluídos pelos Estados Unidos na investigação da Seção 301 também foram abordados, entre eles o Pix e a política ambiental brasileira. O ministro descartou qualquer mudança no sistema brasileiro de pagamentos como parte de um eventual acordo. “O Pix é um patrimônio do Brasil, mais de 80% dos brasileiros utilizam, e não há possibilidade de negociarmos o funcionamento do Pix”, afirmou. A delegação brasileira também apresentou dados sobre a redução do desmatamento e defendeu que assuntos sem natureza econômica ou comercial sejam excluídos das tratativas.
Em nota conjunta, o Itamaraty e o Ministério da Indústria informaram que o governo brasileiro reiterou sua oposição às medidas unilaterais adotadas por Washington, consideradas incompatíveis com as regras multilaterais de comércio. Apesar das divergências, os dois lados concordaram em manter as negociações e realizar um novo encontro em nível ministerial para avaliar os resultados das discussões técnicas. Sobre a possibilidade de retirada das tarifas, Elias Rosa evitou antecipar um desfecho: “Até onde vai a concessão da parte deles e até onde vai a concessão da parte do Brasil, o tempo dirá, as conversas, as rodadas dirão”.
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