Política
por Daniel Serrano
Publicado em 19/04/2026, às 10h43 - Atualizado às 10h43
Mensagens encontradas nos celulares de Daniel Vorcaro e Augusto Lima, ex-sócios do Banco Master, revelam detalhes de como eles tentaram salvar a instituição financeira com a ajuda do Banco de Brasília (BRB), o que levou a Polícia Federal (PF) a deflagrar a Operação Compliance Zero e à prisão dos presidentes dos dois bancos. As informações são da coluna de Fabio Serapião, no portal UOL.
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A prisão do ex-presidente do BRB aconteceu na última quinta-feira (16). Paulo Henrique Costa é suspeito de receber R$ 140 milhões para favorecer o grupo de Vorcaro. O dono do Master está preso desde março e negocia um acordo de delação premiada.
De acordo com a publicação, uma troca de mensagens entre Vorcaro e Lima mostra que a ideia era criar carteiras de crédito oferecidas ao BRB no valor de R$ 7,2 bilhões. As tratativas entre os bancos começaram em maio de 2024.
As mensagens reforçam a tese da PF de que as cúpulas dos dois bancos sabiam que a situação do Master era delicada e que Vorcaro e sua equipe tentaram tentavam das uma aparência de legalidade e saúde financeira enquanto eram cometidos os crimes.
Em novembro de 2024, Vorcaro enviou uma mensagem para Lima falando sobre visitas de pessoas do BRB a imóveis. Um dos motivos para a PF ter prendido o ex-presidente do BRB foi o recebimento de imóveis de alto padrão. "Precisa liberar a turma do BRB para visitar o imóvel", diz Vorcaro a Augusto Lima.
Além de detalhes das negociações com o BRB, as conversas também revelam o desespero entre sócios e funcionários do Master para evitar que as movimentações se tornassem públicas. "Irmão, se não mandarmos essas CCBs [cédulas de crédito bancário] até meio-dia, não vamos ter opções mais", diz Vorcaro, em mensagem a Augusto Lima, em 5 de maio de 2025.
No início de setembro daquele ano, quando o Banco Central barra o negócio e a PF começa a investigar o caso, uma conversa entre Augusto Lima e sua companheira, Flávia Péres (PL), ex-ministra do governo de Jair Bolsonaro e ex-deputada federal, fez um alerta sobre a situação do banco: "Não tem como ficar em pé", disse Flávia Péres.
A situação financeira ficou complicada no início de 2024. O Índice de Basileia, que mede a saúde financeira do banco, fechou o ano anterior em 11,5%, contra 12,3% em 2022. No Brasil, o mínimo aceito pelo Banco Central é 11%. Diante deste cenário, a saída encontrada foi a liquidação.
Buscando recursos para aliviar o caixa, Vorcaro passou a utilizar as relações políticas que tinha para tentar captar recursos. Nessa época, o ex-banqueiro ajudava em previdências estaduais, como no caso da RioPrevidência e da Amprev (Amapá), e na tentativa de vender R$ 500 milhões em letras financeiras para a Caixa. Essas instituições são controladas por políticos do centrão.
Enquanto isso, o Master buscava negócios com o Banco de Brasília. Uma conversa entre Augusto Lima e Alberto Félix Neto, da diretoria financeira do Master, em maio de 2024, mostra como a instituição financeira já buscava apoio do BRB.
Em 6 de maio daquele ano, Félix diz estar conversando com um representante do Banco de Brasília, mas que a estratégia prevista não daria certo. "Vou ver se temos algum crédito além do consignado que daria pra fazer", diz em mensagem para Augusto Lima
No dia 22 de agosto de 2024, Augusto Lima e Vorcaro voltam a falar do BRB. No dia 22, Vorcaro pede "notícia do BRB" a Augusto Lima e diz: "Apertei hoje e disseram que está travado na taxa. Que precisa ser maior".
Na semana seguinte, Vorcaro novamente manda: "Dá carga no BRB que é CCB importante sair hoje!". Horas depois, Lima respondeu que cobrou cedo e que o BRB estava pronto: "Vendo só documentação".
No entanto, no dia 31 de agosto, Vorcaro pergunta se o sócio sabe que "deu merda no BRB". "Não liquidou e parece que não vai", afirma o banqueiro.
Segundo as trocas de mensagem, Lima era, naquele momento, o principal interlocutor de Vorcaro no BRB. No dia 3 de setembro de 2024, Vorcaro perguntou se "eles vão fazer ou não". "Já tem 15 dias esse negócio de CCB. Se for agarrar e não sair agora, preciso saber, depois te explico", envia Vorcaro.
"Falei hoje, disseram que iria. Estão trabalhando nisso. Está agarrado no risco", responde Augusto Lima.
No dia 16 de outubro, Vorcaro diz: "Acho que resolvi o BRB. Dei uma batida forte demais. PQP. E vc deve ter empurrado aí tb". Lima respondeu: "Exatamente!! Falei até com FDP hoje".
Em março de 2025, quando as negociações entre Master pelo BRB estavam em andamento, Vorcaro e Augusto Lima falam das carteiras de crédito repassadas ao banco público. De acordo com a PF, as carteiras de mais de R$ 12 bilhões não possuíam qualquer valor real. A suspeita é que foram fabricadas por meio do uso das empresas de pessoas ligadas a pessoas do Master.
Em abril, Alberto Félix diz a Augusto Lima que "DV [Daniel Vorcaro] pediu para mandar mais uma carteira ao BRB" e informa que o BRB havia comprado mais "750mm" [R$ 750 milhões] em carteiras.
Dias depois, Vorcaro informa a Augusto Lima que duas pessoas do BRB iriam ao Master "ver a conciliação dos financeiros" para "tentar apurar as diferenças".
"Irmão, BRB vai fazer 750 mais troca de carteira. Pode ir pra cima esse tema?", manda Vorcaro manda para Augusto Lima, dias antes da formalização da intenção do BRB de comprar o Master
"Estou com ele aqui agora e com Ângelo [funcionário da área financeira do Master] tratando exatamente isso", responde Augusto Lima
As mensagens apontam ainda que, em maio, as fragilidades das carteiras de crédito começaram a surgir. "Precisamos falar das operações Tirreno", manda Félix para Lima
Em 5 de maio, Vorcaro conversa com o sócio sobre o tema. "Turma no estress pq nem contrato Tirreno não apareceu. Já estão criando teorias. Precisamos mandar imediatamente", diz. "Irmão, se não mandarmos essas CCBs e os contratos até meio-dia, não vamos ter mais opções. Contratos Tirreno", insiste o dono do Master.
As mensagens mostram que Vorcaro ordenava a criação dos créditos, que ficaram sob a tutela de Alberto Félix. Em junho, o Master ainda não havia provado a origem e a veracidade das carteiras de crédito.
No dia 13, Alberto Félix manda para Vorcaro um print com um suposto CCB "com código da operação e, na sequência, documentos com o mesmo código de operação". "Envia urgente aí", responde o banqueiro.
Em 22 de junho, em uma conversa sobre o tema em um grupo do qual Vorcaro participava, Alberto Félix diz que enviaria, no final do dia, 1.785 amostras sobre os cadastros das carteiras. "Estamos na reta final nessas duas próximas semanas. E esse trabalho de hoje da turma será vital", escreveu o dono do Master.
Para os investigadores, a troca de mensagens comprovam a tentativa de produzir R$ 7,2 bilhões em carteiras de crédito falsas para garantir que o Banco Central liquidasse o Master, o que viria a acontecer em novembro de 2025.
No entanto, sem conseguir provar a existência das carteiras, a situação do Master tornou-se insustentável. Em julho de 2025, dois meses antes de o BC travar os negócios entre os bancos, Vorcaro recebe uma mensagem de Alberto Félix, responde com "pqp" e ordena: "Vai ter que segurar tudo, Alberto. Despesa. Câmbio. Imposto. Não dá para pagar nada. Senão vamos sucumbir. Não é pra liberar NADA mais."
Em outubro de 2025, quando o Banco Central já havia barrado a compra do Master e a PF já tinha iniciado as investigações contra a operação, Augusto Lima conversa com Flávia Péres.
Após receber uma mensagem de Flávia, Augusto Lima comenta um pagamento a vencer do Master de R$ 100 milhões. "É brincadeira. Não tem a menor condição de ficar de pé", diz o ex-sócio de Vorcaro.
Flávia então pergunta: "E como pagou isso hoje?". O ex-sócio do Master responde: "BRB".
Naquele momento, BRB continuava na operação para salvamento do banco de Vorcaro mesmo com o BC já tendo negado a compra.
Flávia se mostrou preocupada com a resposta de Augusto Lima e completa: "Tem coisa aí mesmo, viu". Sem dar detalhes sobre o caso, Augusto Lima reforça a frase da mulher: "Bote coisa nisso".
"Eles estão muito mais ligados do que qualquer um pode imaginar", diz Flávia, sem explicar quem são essas pessoas.
Procurada, a defesa de Vorcaro e a de Flávia não se manifestaram. Já os advogados de Augusto Lima dizem que não teve acesso aos dados extraídos de celulares e não reconhece as mensagens atribuídas a ele.
"De todo modo, os relatos investigativos só corroboram o que a defesa vem sustentando desde o início: Augusto Lima não participou das operações financeiras investigadas e não teve qualquer tratativa com a cúpula do BRB. As operações investigadas são posteriores à sua saída do banco, ocorrida em maio de 2024", diz a nota.
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