Política
O ex-banqueiro Daniel Vorcaro teria relatado, em uma proposta de colaboração premiada que acabou rejeitada pelas autoridades, a existência de supostos pagamentos de R$ 3 milhões por mês a pessoas que, segundo sua versão, estariam ligadas ao grupo político do senador Jaques Wagner (PT-BA). As informações são de Natalia Portinari, do Uol.
O documento não comprova que Wagner tenha recebido os valores. A defesa do senador nega as acusações e afirma que as declarações são falsas e foram feitas para interferir nas eleições.
A proposta foi analisada pela Polícia Federal (PF) e pela Procuradoria-Geral da República (PGR), mas não avançou. A PF deixou as negociações duas vezes, enquanto a PGR recusou o acordo por considerar que os relatos não estavam acompanhados de elementos suficientes de corroboração. A própria defesa de Vorcaro também afirmou não reconhecer a autenticidade e a integridade do material divulgado.
Segundo o documento atribuído a Vorcaro, os supostos R$ 3 milhões mensais seriam divididos em duas parcelas. Cerca de R$ 2 milhões seriam pagos pelo Banco Master à PKL One ou a prestadores indicados pelos controladores da empresa. Outros R$ 1 milhão seriam pagos em espécie.
A PKL One tinha os direitos de exploração do Credcesta, cartão de crédito consignado destinado a servidores públicos da Bahia.
O contrato entre a PKL One e o Banco Master apresentado na proposta prevê pagamentos mensais de aproximadamente R$ 2 milhões classificados como “despesas operacionais”. O documento, porém, não identifica Wagner nem outro político como beneficiário desses recursos e, por si só, não demonstra que o dinheiro tenha sido utilizado para pagamento de propina.
Vorcaro também teria relatado que havia outras formas de repasse, como distribuição de lucros e dividendos da PKL One e contratos que ele classificou como fictícios.
A proposta também menciona uma parcela de R$ 1 milhão mensal em espécie que, segundo o relato atribuído a Vorcaro, teria sido destinada a Guilherme Henrique Sodré Martins, conhecido como Guiga.
O documento afirma que os recursos em espécie eram entregues ao motorista de Vorcaro, que posteriormente os repassaria a Vorcaro ou a Augusto Lima.
O caminho desse dinheiro, porém, não é esclarecido. A proposta não descreve como os valores teriam chegado a Wagner ou a integrantes de seu grupo político.
O texto também cita empresas como Blue Pay e The Pay em operações que, segundo o relato, teriam sido utilizadas para produzir dinheiro em espécie. O material apresentado não demonstra, contudo, que esses recursos tenham sido entregues ao senador.
Segundo o relato atribuído a Vorcaro, o suposto acordo teria ocorrido em 2018, quando o Banco Master comprou participação na empresa responsável pela operação do Credcesta, produto criado no âmbito da Empresa Baiana de Alimentos (Ebal).
A Ebal foi vendida em um leilão no qual a PF apura suspeitas de fraude e direcionamento à empresa de Augusto Lima. Na época, Wagner era secretário de governo da Bahia durante a gestão de Rui Costa (PT).
A NGV Empreendimentos venceu o leilão por R$ 15 milhões. Segundo o relato de Vorcaro, Augusto Lima seria o dono de fato da empresa, embora ela estivesse formalmente em nome do investidor espanhol Ignácio Morales.
Dezesseis dias após o leilão, dois decretos assinados por Rui Costa ampliaram as possibilidades de exploração do Credcesta e modificaram seu enquadramento no regime de consignações. Posteriormente, os direitos de exploração do cartão foram transferidos para a PKL One.
A proposta de delação afirma que Guilherme Sodré representaria Wagner na estrutura societária da PKL. Documentos sobre os fundos, porém, confirmam apenas que Sodré tinha participação no fundo Gardênia, que possuía participação indireta na PKL One. Os documentos não demonstram que ele representasse Wagner nessa participação.
O documento menciona o “grupo de Jaques Wagner e Rui Costa”, mas não atribui diretamente a Rui Costa nenhum dos supostos pagamentos descritos.
O ex-governador aparece relacionado ao caso por ter assinado os decretos que alteraram as regras de exploração do Credcesta e também é citado em outros trechos do relato. A proposta, porém, não aponta valor, intermediário ou contrato atribuído diretamente a Costa.
Também não é esclarecido qual teria sido o ato concreto praticado por Wagner em troca dos supostos pagamentos ou de que maneira o senador teria interferido no processo de venda da Ebal.
A própria documentação apresentada na proposta estabelece limites para as acusações.
O contrato de aproximadamente R$ 2 milhões mensais entre o Master e a PKL One não identifica Wagner como destinatário. Os documentos sobre a estrutura dos fundos confirmam a participação de Guilherme Sodré, mas não demonstram que ele atuasse em nome do senador.
No caso dos pagamentos em espécie, também não há documentação mostrando que o dinheiro tenha chegado a Wagner.
A proposta ainda menciona um contrato envolvendo uma filha do senador e uma empresa offshore ligada a João Carlos Falbo Mansur. O trecho divulgado, porém, não informa o nome da filha, o valor, a data, o objeto ou os serviços envolvidos. Essas informações estariam em um anexo ao qual o Uol não teve acesso.
A proposta de colaboração premiada não foi aceita. Segundo o Uol, a PF deixou as negociações duas vezes e a PGR recusou o acordo por entender que os relatos não apresentavam elementos suficientes de corroboração.
Vorcaro também afirma, segundo o documento, que não teria presenciado o suposto acerto. O ex-banqueiro teria tomado conhecimento da negociação por meio de Augusto Lima, que nega ter feito o relato atribuído a ele.
A proposta não apresenta um cálculo consolidado de quanto teria sido pago ao longo do período, nem uma relação completa de parcelas, datas e destinatários. A distribuição de lucros e dividendos mencionada no documento também não tem valor, data ou beneficiário individualizado.
A defesa do senador Jaques Wagner afirmou que “tais declarações são completamente falsas e oportunistas, criadas para interferir nas eleições”.
“Reafirma também que ele não tem conhecimento sobre contratos fictícios da PKL One e nunca teve nenhuma relação com essa empresa.”
“Além disso, a mentira vem de uma pessoa que está presa, criando factoides na tentativa de ter de volta a sua liberdade.”
“Vale reforçar, ainda, que o senador nunca teve qualquer vínculo com Daniel Vorcaro, nunca atuou em favor das pautas do Banco Master no Congresso Nacional e sempre votou contra os interesses do banco.”
A defesa de Daniel Vorcaro afirmou que “repudia a divulgação de supostos anexos que estariam relacionados a tratativas de colaboração premiada que não foi celebrada”.
“A defesa não confirma o conteúdo do material divulgado, cuja origem, autenticidade e integridade não são reconhecidas.”
“O material preliminar da colaboração foi disponibilizado a um número restrito de autoridades que possuem dever legal de confidencialidade. A defesa reafirma que Daniel Vorcaro possui informações personalíssimas e relevantes para o caso e segue disponível para contribuir com as autoridades.”
A defesa de Augusto Lima também negou as acusações e classificou o conteúdo como “um completo absurdo, mentirosas, desconexas da realidade e delirantes”. Segundo os advogados, o contrato entre a PKL e o Banco Master teve serviços efetivamente prestados e não houve ilicitude.
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