Salvador

Câmera registra agressão a militante negro; dono de bar nega acusação de racismo

Reprodução
Vídeo contraria versão do proprietário do Cabral 500  |   Bnews - Divulgação Reprodução

Publicado em 16/11/2019, às 19h09   Henrique Brinco



O proprietário do bar Cabral 500, Odilon Cabral, se posicionou em entrevista ao BNews a respeito das acusações de agressão racista contra Roque Peixoto, militante do PT e do movimento negro, na madrugada do último dia 13 de novembro. No entanto, ele deu uma versão que contraria as imagens registradas pelas câmeras de segurança próximas ao estabelecimento (assista abaixo). Na semana passada, políticos e entidades divulgaram notas de repúdio em defesa do homem, que também é assessor do deputado estadual Jacó (PT). Um protesto organizado por entidades em defesa do movimento negro também foi realizado em frente ao local.

Nas redes sociais, no dia seguinte ao ocorrido, Roque relatou que foi ao bar após a mulher dele, Isabelle Lamenha, pedir para usar o banheiro. "Ontem a noite, por volta das 23 horas, saí do Boteco do França e fui com Isabelle Lamenha rumo ao ponto de ônibus no Largo da Mariquita. Ao chegar no largo, Belle pediu para usar o banheiro do bar 'BAR DO CABRAL' e eu fiquei esperando. Ao ouvir piadas das mais escrotas e olhares daqueles que qualquer preta ou preto sabe do que se trata, questionei. Resultado: fui agredido pelas costas de forma covarde, boca quebrada em três lugares, mão esquerda com escoriações mão direita com dores, joelho deslocado e muita violência ao ponto de quando Belle saiu do banheiro, os garçons a agarraram para que ela não pudesse separar tamanha violência que sofri", escreveu ele, nas redes sociais.

Siga o BNews no Google e receba as principais notícias no seu celular

Google News Bnews

Já o dono do bar conta outra versão. Em entrevista ao BNews por telefone, Cabral diz que Roque teria tentado agredir uma de suas funcionárias. "Esse senhor chegou aqui e os funcionários estavam recolhendo o material, mesas, cadeiras e tal. O barman estava lavando o bar e o chão estava todo molhado. Nem por isso ele ia deixar de entrar no sanitário. Aí era opção dele. Apesar de ser uma pessoa estranha, já tínhamos encerrado o expediente, mas mesmo assim a gente deixa entrar qualquer pessoa. O segurança estava aqui", declarou. "Nesse momento em que estava quase tudo encerrado, estava eu e minha sobrinha... Por sinal, ele está falando só em discriminação. Isso não é verdade. Nenhum momento ninguém e nem eu falei no nome desse homem, que não deu 'boa noite'. Ele já chegou agredindo. Ele chegou na porta e disse 'ela quer mijar', mas naquele tom de deboche. Ninguém entendeu nada, né. Se tratava de uma pessoa estranha. Pensaram até que fosse louco. Depois, ele repetiu a mesma frase".

Odilon disse que naquele momento ele estava no caixa e os funcionários disseram para Roque "falar com o dono".  "Olhei o rosto para ver de quem se tratava. Aí ele deu as costas e saiu xingando. Ele disse 'não quero mais, não. Meta no seu...' E saiu xingando. Foi no outro lado, deixou a mulher e voltou sozinho. Quando ele voltou, já chegou veio agredindo com palavras a garçonete e me xingando também.  Eu nem abri a boca para esse cidadão", relata. O dono do estabelecimento diz que Roque "veio para cima para dar um murro na garçonete". "Obviamente ela tem que se defender. Ela pegou uma cadeira e arremessou nele. Se tratava de um elemento agressivo, não é. Ela também não é branca, é negra, e ele partiu dessa forma. E aí a vizinhança viu isso e foi para cima dele também, entendeu. Nesse meio tempo, eu fui em direção e pedi que parassem com aquilo, com aquela situação. Ele veio e me deu um soco no meu rosto. Graças a Deus não pegou em cheio, pegou de raspão. Fez um corte superficial. Fiz o exame de corpo de delito, dei queixa-crime e vou entrar com um processo contra ele, porque ele está denegrindo a imagem do meu estabelecimento, colocando coisas absurdas na internet".

Odilon reafirmou ainda que "ninguém agrediu ele" e que "as meninas reagiram a agressão que ele causou nelas". "Ninguém e nenhum momento fez nenhum gracejo com esse rapaz. Mas por ser uma pessoa de cor, rasta... [neste momento, uma mulher interrompe a ligação]. Eu fiquei transtornado com essa situação, muito abalado e até hoje estou com meu psicológico afetado".

Vídeo contraria versão de proprietário do Cabral 500
Os responsáveis pelo Cabral 500 também divulgaram nas redes sociais dois vídeos que registram o ocorrido. As imagens contrariam a versão apresentada por Odilon Carbal. A briga começa às 1h24 da madrugada do dia 13 de novembro.

O primeiro vídeo mostra Roque chegando ao local com a esposa e saindo logo em seguida. Na gravação, não é possível identificar qual foi o diálogo entre ele e os funcionários. Segundos depois, ele retorna e é possível ver uma nova discussão entre ele e os funcionários. 

Já o segundo vídeo mostra que os funcionários se juntam, seguem Roque e uma mulher que estava varrendo a calçada faz a primeira agressão contra ele com um cabo de vassoura. Roque se defende e, então, a confusão começa. Um grupo de homens se junta para agredir o militante. Um dos homens chega a jogar uma cadeira contra a vítima.

Políticos baianos repudiam agressão
O deputado estadual Jacó afirmou por meio de nota pública "que repudia e está indignado com o ato de violência e racismo" sofrido pelo militante do movimento negro. Disse também que pretende acionar o Ministério Público e demais autoridades competentes para que responsabilizem os agressores. "Racismo é crime, racismo mata!", declarou. Os vereadores também repercutiram o caso na Câmara Municipal. “Temos que dar resposta boicotando esse bar, porque não podemos admitir uma atitude dessa em uma cidade de maioria negra”, sugeriu Sílvio Humberto (PSB).

Moisés Rocha (PT) completou citando dois casos de racismo e intolerância religiosa envolvendo motoristas de aplicativo nos últimos dias. “Ontem (terça) a vítima foi Negra Fran, que estava com vestes brancas por questão religiosa. O que mostra que foi acertada a decisão desta Casa em manter o veto à foto do passageiro nas plataformas de aplicativos. Se na presença da pessoa estão se recusando a conduzir, quanto mais visualizando a foto antes de aceitar a corrida”. O vereador Joceval Rodrigues (Cidadania) propôs que o presidente Geraldo Júnior “lidere uma corrente contra o preconceito racial em nossa cidade”.

Militante se recupera de lesões
Na última quinta-feira (14), Roque voltou a se manifestar sobre o caso nas redes sociais. "Já foi diagnosticado uma lesão no nervo suborbital direito o que está causando, somada as lesões, uma paralisia facial no lado direito do meu rosto. Meu joelho tem torção e precisarei imobilizar e andar temporariamente de muletas. E o meu emocional que está extremamente abalado. Mas vamos superar mais essa", escreveu o militante, no Facebook.

Classificação Indicativa: Livre

Facebook Twitter WhatsApp


Cadastre-se na Newsletter do Bnews (Beta)