Salvador

A Lavagem do Bonfim que adota corações: Como uma não baiana foi movida pela celebração que ocorre há 281 anos

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A Lavagem do Bonfim marca a devoção ao Senhor do Bonfim com marca histórica no sincretismo religioso  |   Bnews - Divulgação Foto / Divulgação
Leonardo Oliveira

por Leonardo Oliveira

Publicado em 15/01/2026, às 05h00 - Atualizado às 05h43



Uma das maiores festas de rua da cidade chega à 281ª edição, mantendo sua tradição, fé e cultura. Com relatos que remontam ao século XVIII, a Lavagem do Bonfim marca a devoção ao padroeiro da capital baiana e se trata de uma marca histórica no sincretismo religioso, com a junção de características do catolicismo e do candomblé.

Breve histórico

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Segundo relatos, a história começa no século XVIII, quando o capitão português Teodósio Rodrigues de Faria, depois de sobreviver a uma tempestade no mar, prometeu erguer uma igreja em homenagem ao Senhor do Bonfim.

A imagem trazida de Portugal foi instalada em 1745, originando à devoção que logo se espalhou entre os baianos. Com o tempo, a pequena capela virou igreja, e os escravizados passaram a lavá-la às quintas-feiras, antes das missas

O que se iniciou como uma atividade se fortaleceu espiritualmente tornando-se símbolo de purificação, gratidão e fé. O primeiro registro oficial da festa data de 1804. A tradição sobreviveu às tentativas de proibição pela Igreja, que via nos rituais elementos do candomblé.

A partir daí, a fusão entre o catolicismo e as religiões de matriz africana moldou a festa. O Senhor do Bonfim é celebrado dentro da igreja, enquanto do lado de fora reina a alegria das baianas com seus potes de água de cheiro, o samba de roda, a capoeira e os cânticos de louvor a Oxalá, o orixá da paz e da purificação.

Outro símbolo marcante é a fitinha do Bonfim, criada no início do século XIX, no qual, ao amarrar a fita no pulso, o fiel faz três pedidos, esperando que se realizem quando ela se romper naturalmente.

Atualmente, a celebração representa mais do que um evento religioso. Trata-se de um encontro de culturas, de um ato de resistência e um retrato vivo da alma baiana. A cada janeiro, milhares de pessoas percorrem o cortejo, transformando as ruas em um rio de devoção, perfume e alegria.

Como é a procissão 

Os fiéis iniciam uma procissão com saída da Basílica de Nossa Senhora da Conceição da Praia antes das oito horas da manhã. É neste horário que acontece a realização do ato ecumênico, que conta com a presença de autoridades políticas locais, líderes e representantes de diversas correntes religiosas, que saúdam os milhares de presentes unidos em uma só corrente. Múltiplas manifestações de fé engrandecem os 8 quilômetros de cortejo entre os bairros do Comércio e do Bonfim até a Colina Sagrada. 

Devoção não baiana

Para quem participa da Lavagem do Bonfim, o ritual vai muito além da fé. Trata-se de um encontro entre emoção, pertencimento e identidade que ultrapassa o limite geográfico. É o caso da jornalista, empresária e autora pernambucana Jullie Dutra, que externalizou esse sentimento. “A Lavagem se tornou um dos meus rituais afetivos na Bahia. Eu costumo dizer que Salvador me adotou por afeto”, contou em entrevista ao BNews.

A relação dela com o Bonfim nasceu em um momento especial. Jullie ficou conhecida nacionalmente por ter sido a única campeã do quadro “Quem Quer Ser um Milionário?”, do Domingão da TV Globo, conquistando o prêmio de R$ 1 milhão. Segundo ela, a fé teve papel fundamental nessa conquista.

“Antes de ganhar o prêmio no programa, e me tornar a primeira e única campeã do jogo no Brasil, eu fui à Sala dos Milagres, dentro da Basílica do Bonfim, para agradecer e pedir força. Uma semana depois, ganhei o prêmio. Não sei se é coincidência ou destino, mas guardo esse episódio como um sinal bonito”, conta.

A jornalista passou a viver em Salvador desde 2021, e afirma que retorna todos os anos ao cortejo. “A Lavagem organiza o ano e também o espírito”, diz. Para ela, a celebração representa um rito de renovação. “Começa caminhando, termina agradecendo. A Bahia tem essa capacidade de transformar fé em celebração e celebração em pertencimento”, resume.

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Jullie explica que viver o evento exige preparo e entrega. “A Lavagem do Bonfim é o encontro entre o sagrado e o profano, algo que só a Bahia consegue fazer com tanta naturalidade. É um cortejo que atravessa a cidade e a história, unindo catolicismo, matriz africana, samba, política e povo. Não é apenas um evento, é um pertencimento compartilhado, uma espécie de ‘assinatura cultural’ da Bahia”, define.

Jullie na Lavagem do Bonfim
Reprodução / Arquivo Pessoal

Ela ainda destaca que ainda não é uma festa para “passar”, mas para vivenciar intensamente. “É uma celebração que nos envolve por inteiro. Eu organizo minha rotina para acompanhar o trajeto do começo ao fim, com calma e consciência.”

Com o tempo, o ritual também se transformou em um laço de amizades e continuidade. “A Lavagem faz a gente criar vínculos que não são só sociais, são afetivos. Todo ano reencontro amigos que conheci no Bonfim, e isso já virou tradição. É como se a Bahia te adotasse um pouco a cada janeiro”, finaliza Jullie.

Classificação Indicativa: Livre

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