Salvador

Nova Cracolândia: “Explosão” do número de pessoas em situação de rua expõe descaso e insegurança em Salvador

Paulo M. Azevedo / BNews
A concentração de moradores de rua na Avenida ACM gera insegurança e risco do surgimento de uma nova cracolândia.  |   Bnews - Divulgação Paulo M. Azevedo / BNews
Thiago Teixeira

por Thiago Teixeira

thiago.teixeira@bnews.com.br

Publicado em 17/04/2025, às 08h30 - Atualizado às 12h15



Salvador é a quinta capital com o maior número de pessoas em situação de rua no Brasil. Ao todo, mais de 10 mil soteropolitanos estão nesse estado, de acordo com dados de uma pesquisa divulgada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) na última segunda-feira (14).

Esse cenário brutal pode ser observado em vários pontos espalhados pela capital baiana, como nas imediações do BRT Cidadela, às margens da Avenida Antônio Carlos Magalhães (ACM). O BNews foi até o local em dias e horários alternados para observar a quantidade de moradores de rua na localidade — e a situação é preocupante.

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A alta concentração de moradores de rua, muitos deles também usuários de drogas, tem gerado insegurança aos trabalhadores que circulam diariamente pelo cruzamento das avenidas ACM e Paulo XI, no bairro do Itaigara, nos últimos seis meses — que temem que a região vire uma nova Cracolândia.

Cracolândia
Usuários de drogas próximo ao BRT | Foto: Paulo M. Azevedo / BNews

O fluxo costuma se intensificar principalmente à noite, chegando a ultrapassar 30 pessoas. A situação também tem aumentado a incidência de assaltos — cada vez mais frequentes na região.

A localidade possui diversos prédios empresariais. Um deles, o Edifício Duarte da Costa, estava sendo utilizado como “abrigo” pelos moradores de rua. Devido a isso, a administração precisou instalar tapumes para impedir a “estadia” dos moradores de rua.

Teve um período em que o Duarte [da Costa] estava aberto ali, sem os tapumes, e houve uma grande frequência de usuários aqui na região. Mas eles fecharam ali e agora a gente já não vê mais essa frequência, porque veio o pessoal da prefeitura e da polícia civil e tirou eles do prédio”, afirmou uma mulher que teve a identidade preservada.
Posto
Posto de combustível que tem sido afetado pela presença de usuários | Foto: Devid Santana

Pela manhã, o local registra um fluxo menor de moradores de rua, que termina se intensificando à noite. Em conversas com transeuntes, a reportagem recebeu relatos de assaltos, importunações, uso de drogas e até relações sexuais feitas a céu aberto pelo moradores de rua.

Alguns funcionários do edifício empresarial Thomé de Souza, que fica ao lado do Duarte da Costa, relataram que já escaparam de assaltos na região em diversas oportunidades. 

De acordo com relatos, alguns viciados têm utilizado, inclusive, um posto de combustível que fica nas imediações do local para fazer necessidades fisiológicas e, em alguns casos, praticar assaltos e relações sexuais. Ou seja, a atuação dos grupos têm gerado problemas de segurança e saúde pública.

O número deles [moradores de rua] está aumentando. Enchem o posto [de combustível]. Eles têm incomodado o pessoal que vem almoçar aí por causa do fedor do cigarro. Também já foi pego um casal fazendo sexo no banheiro. Já teve assaltos também. Uma vez, veio um grupo de garotos. Os sacizeiros (sic) viram e  abordaram eles com facas e tomaram o celular”, afirmou um funcionário do posto que também teve a identidade preservada pela reportagem.

Os dados da pesquisa da UFMG mostram que 81% dos moradores de rua dispõem de menos de R$ 110 por mês. Além disso, cerca de 90% estão na fase mais produtiva da vida, entre 18 e 59 anos. Destes, sete em cada dez são negros — e mais da metade sequer terminou o ensino fundamental. 

A situação também se repete em Salvador em regiões movimentadas, como o Largo Dois Leões, na Avenida Contorno, em trechos da Praça Dois de Julho e o Campo Grande, além de diversas outras áreas da capital com grande movimentação de pessoas. 

Nas imagens registradas pela nossa equipe de reportagem, a maioria esmagadora do grupo de usuários é composto por pessoas negras. No local, pela noite, flagramos diversos momentos em que os moradores de rua, já em maior número, se reuniaram para usar entropecentes.

Cracolândia
Usuários de drogas próximo ao BRT | Foto: Paulo M. Azevedo / BNews

O que dizem as autoridades

O BNews tentou contato com a Polícia Civil para saber se houve um aumento nos registros de assaltos ou relatos de outros crimes na região. No entanto, não houve retorno. Ao procurar a Polícia Militar da Bahia (PM-BA), a corporação informou, ao BNews, que o policiamento na Avenida ACM é realizado pela 35ª CIPM, que diariamente faz rondas e abordagens para prevenir o cometimento de delitos na região. 

A reportagem também tentou contato com a prefeitura de Salvador, por meio da Secretaria de Promoção Social, Combate à Pobreza, Esportes e Lazer, para saber as ações que têm sido feitas para ajudar os maoradores de rua da localidade. Por meio de nota, a Sempre destacou que a equipe do Serviço Especializado em Abordagem Social (Seas) realiza diariamente o monitoramento da cidade, afim de ofertar os serviços socioassistenciais disponibilizados pelo município.

Ainda de acordo com a nota, o objetivo é fornecer opções para que as pessoas em situações de rua deixem a condição de vulnerabilidade social. A pasta destacou ao BNews que ssim que assim que tomou conhecimento da situação na passarela do BRT Cidadela, técnicos foram encaminhados para o local. 

Na localidade, a equipe identificou que os assistidos estavam em uso de substâncias psicoativas e com o não houve resistência ao diálogo, realizou o trabalho de escuta qualificada com sensibilização sobre a permanência naquele território, porém nenhum deles aceitou o serviço de acolhimento institucional, afirmou a prefeitura, por meio da Sempre.

A secretaria ainda destacou que, entre os serviços ofertados pelo município, estão 1.490 vagas em  Unidades de Acolhimento Institucional em 19 unidades, além de Acolhimento Residencial Transitório e Moradia Assistida — sendo estes dois últimos, direcionados à população em situação de rua e em uso abusivo de substâncias psicoativas.

De acordo com a Sempre, alguns encaminhamentos para atendimentos em órgãos do sistema de garantia de direitos já foram realizados. A pasta informou ao BNews que vai retornar ao local para continuar o trabalho de monitoramento e sensibilização dos assistidos.

Os demais encaminhamentos que visam a transformação de vida e reestabelecimento de convívios sociais, familiares e comunitários. A pasta reitera que não realiza acolhimento de forma compulsória, e que existe não legislação que obrigue as pessoas deixar a condição de rua, informou a Sempre ao BNews.

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