Saúde

Internação compulsória é limpeza social, diz titular do Cetad

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Antônio Nery Filho diz que dependente tem discernimento sobre sua necessidade de tratamento

Publicado em 25/01/2013, às 20h35    Google    Lucas Esteves (Twitter: @lucasesteves)

A polêmica da internação compulsória de usuários de crack, da maneira que vem sendo desenvolvida nos estados de Rio de Janeiro e São Paulo, vem sendo debatida em todo o país e, por enquanto, a Bahia não tem nenhum plano institucional para desenvolver política semelhante. O psicólogo Antônio Nery Filho, coordenador-geral do Centro de Estudos e Terapia de Abuso de Drogas, comemora o fato de o governo recusar este remédio amargo e diz que, em última análise, a internação contra a vontade do usuário se trata de um método de “limpeza social”.
De acordo com o especialista, diferente da internação involuntária, quando um doente corre risco de vida, a internação compulsória de dependentes químicos ocorre para que os usuários sejam retirados da visibilidade do público. Nery Filho explica que este tipo de internação é arbitrado pela Justiça, que determina quanto tempo o viciado ficará recluso, o que o torna incapaz de decidir quando poderá retornar ao convício social. No caso da internação involuntária, assim que se sente melhor o doente tem a opção de deixar o tratamento ou continua-lo.
Nery declara ser formalmente contra a internação e diz que a missão de cuidar dos usuários é de um corpo médico e não da Justiça. “Considero que o Estado não tem o direito de intervir na vida de pessoas, definindo o que é melhor para elas. No caso de São Paulo e Rio de Janeiro, as ações foram desenvolvidas por pessoal policial sob o argumento do risco e da violência dos pacientes. Nestes casos, se se trata de doentes, cabe mais ainda a intervenção da saúde de acordo com os princípios éticos apoiados na autonomia dos pacientes”, argumenta.
Do ponto de vista médico, o psicólogo sustenta que o dependente químico raramente está fora de si o suficiente para ser declarado incapaz de tomar as próprias decisões, o que reforça a ideia de que a internação compulsória se trata de uma maneira de afastar o doente da sociedade. Ele conta que nas cidades que têm executado a política, muitas pessoas estão sendo levadas a clínicas sem nenhuma estrutura ou ainda são abandonados em cidades distantes à própria sorte. 
Antônio Nery Filho comemorou o fato de o Governo da Bahia e a Prefeitura de Salvador trabalharem em parceria com o Cetad e utilizarem a experiência do centro para auxiliar nas políticas públicas e tratamento dos dependentes. O centro tem mais de 30 anos de atuação e já exportou para outros estados métodos de tratamento. Entretanto, ainda há questões a resolver. “A dificuldade está na continuidade pós-desintoxicação pela carência de equipamentos, como as Casas de Acolhimento Transitório”.

Postada às 10h35 do dia 25/01.

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