Saúde
As chamadas canetas emagrecedoras, conhecidas pelo uso no tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2, estão no centro de pesquisas que investigam uma possível aplicação contra o consumo excessivo de álcool. Estudos com medicamentos como semaglutida e tirzepatida apontam resultados promissores, enquanto alguns médicos já relatam experiências com prescrições fora das indicações aprovadas.
Para explicar o que os dados científicos mostram até agora, o médico Dr. Gabriel Almeida, especialista em medicina do emagrecimento, analisou os resultados e destacou os limites das evidências disponíveis. A possibilidade de utilizar esses medicamentos no tratamento da dependência alcoólica ainda precisa ser investigada em estudos mais amplos.
Uma das hipóteses estudadas envolve a ação dos medicamentos sobre os mecanismos cerebrais relacionados ao prazer e à recompensa. O álcool pode estimular essas áreas do cérebro e favorecer a repetição do consumo. Os pesquisadores investigam se os agonistas do receptor de GLP-1 conseguem diminuir essa resposta.
“Uma das hipóteses é que essas medicações possam reduzir o impulso de continuar consumindo álcool, atuando nos mecanismos cerebrais ligados à recompensa”, explica o Dr. Gabriel Almeida.
O médico destaca que os resultados precisam ser interpretados com cautela, já que ainda não está completamente esclarecido como essas substâncias poderiam influenciar o comportamento relacionado ao consumo de bebidas alcoólicas.
Um dos resultados destacados por Gabriel Almeida envolve uma pesquisa com semaglutida ou liraglutida que identificou uma redução de 68% no consumo de álcool entre os participantes que mais bebiam.
O percentual foi mencionado em comparação com uma redução de 61% observada em estudos separados sobre o nalmefeno, medicamento utilizado para ajudar a reduzir o consumo de álcool. Como os resultados vieram de pesquisas diferentes, não é possível concluir que as canetas sejam mais eficazes que o outro tratamento.
“Um resultado que chamou bastante atenção foi a redução de 68% no consumo de álcool entre os participantes que mais bebiam. Mas é importante lembrar que essa comparação com o nalmefeno envolve estudos diferentes, então não podemos afirmar que um tratamento seja superior ao outro”, ressalta Almeida.
Um estudo publicado em 2024 na revista científica The Lancet acompanhou 108 pessoas com transtorno por uso de álcool de moderado a grave durante 26 semanas.
Os participantes que receberam semaglutida apresentaram uma redução de 41% nos dias de consumo excessivo de álcool. No grupo que recebeu placebo, a diminuição foi de 26%.
Os resultados reforçam o interesse científico sobre o possível efeito dessas medicações, mas ainda não são suficientes para estabelecer a semaglutida como tratamento aprovado para a dependência alcoólica.
Em outra pesquisa, realizada em 2026 com pessoas que tinham obesidade e dependência de álcool, o grupo tratado com semaglutida apresentou uma queda maior nos dias de consumo excessivo em comparação com o grupo placebo. Os participantes dos dois grupos também receberam acompanhamento psicológico.
“Os dados são animadores, mas ainda precisamos de pesquisas mais robustas para entender quem pode se beneficiar, qual seria a melhor estratégia de tratamento e quais são os riscos envolvidos”, afirma o especialista.

Uma pesquisa publicada no British Medical Journal (BMJ) analisou dados de aproximadamente 600 mil veteranos das Forças Armadas dos Estados Unidos com diabetes tipo 2.
O estudo encontrou associação entre o uso de medicamentos mais recentes para diabetes e um menor risco de desenvolver transtornos relacionados ao consumo de álcool, cocaína, nicotina e opioides.
Os resultados ampliaram o interesse dos pesquisadores sobre a possibilidade de que os medicamentos também influenciem comportamentos relacionados ao uso de substâncias. No entanto, uma associação observada em um estudo não comprova, por si só, que a medicação seja responsável pela redução do risco.
O psiquiatra Dartiu Xavier, professor de psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), relatou que já utilizou essas medicações em casos de alcoolismo, abuso de drogas ilícitas, como cocaína, e comportamento sexual compulsivo. Ele ressaltou que a prescrição fora da bula exige seleção criteriosa dos pacientes e avaliação do diagnóstico.
“Há muito uso off-label, mas esse uso tem que ser selecionado, é preciso conhecer o diagnóstico do paciente. E só se usa quando o que tem uso em bula não funciona”, afirmou Dartiu Xavier, em declaração ao O Globo.
O psiquiatra Ronaldo Laranjeira, professor aposentado da Unifesp e ex-coordenador da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas, também relatou experiências com essas substâncias em pacientes com problemas de dependência após cirurgias bariátricas.
“Ainda não tenho, porém, uma convicção formada. Já houve outro medicamento com resposta em pesquisas, mas que nunca chegou a ser usado como a expectativa”, ponderou Laranjeira ao O Globo. Em seguida, acrescentou: “Acho que é promissor”.
A psiquiatra Analice Gigliotti, diretora clínica do Espaço Clif e professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), destacou que já existem medicamentos utilizados há anos para auxiliar no controle da dependência de álcool. Ela considera possível que as canetas sejam avaliadas em situações específicas, mas ressalta que os dados atuais não demonstram que sejam capazes de levar os pacientes à abstinência.
“Muitos pacientes reduzem, outros param (de beber). As evidências neste momento não indicam a capacidade das pessoas chegarem na abstinência”, afirmou Analice Gigliotti ao O Globo.
A especialista também defendeu a realização de pesquisas mais rigorosas para avaliar a eficácia da estratégia. “O futuro requer mais estudos. Se for comprovado com estudos rigorosos duplos-cegos, randomizados [para determinar a eficiência de medicamentos], pode ser revolucionário”, declarou ao jornal.
Anna Lembke, pesquisadora de dependência da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, e autora do livro Nação dopamina, também chamou a atenção para as incertezas sobre o mecanismo de ação dessas substâncias no tratamento de dependências.
“Os cientistas ainda não conhecem o mecanismo exato pelo qual os análogos de GLP-1 ajudam pessoas com dependência, mas um mecanismo possível é a redução da liberação de dopamina na via de recompensa em resposta a estímulos apetitivos”, explicou Lembke ao O Globo.
A especialista também ressaltou que esses medicamentos ainda não foram aprovados para transtornos de dependência e que a decisão de utilizá-los precisa considerar os riscos associados.
Apesar dos resultados iniciais e dos relatos de médicos que já utilizaram essas substâncias em situações específicas, semaglutida e tirzepatida não têm indicação aprovada especificamente para tratar a dependência alcoólica.
“Esses resultados não significam que a pessoa deva começar a usar uma caneta emagrecedora para tentar parar de beber. O tratamento precisa ser individualizado e acompanhado por um profissional de saúde”, orienta Gabriel Almeida.
A investigação sobre os possíveis efeitos desses medicamentos no consumo de álcool continua em andamento, e novas pesquisas deverão ajudar a esclarecer sua eficácia, segurança e eventual aplicação clínica.
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