Saúde
A transição entre o verão e o outono em Salvador tem revelado um problema que vai além da estética e já preocupa especialistas: o aumento expressivo de casos de manchas na pele, especialmente entre pessoas negras. Conhecido por dermatologistas como uma espécie de “epidemia das manchas”, o fenômeno envolve condições como melasma, hiperpigmentação pós-inflamatória e foliculite.
O cenário ganha ainda mais relevância na capital baiana, onde, segundo dados do IBGE, mais de 80% da população se autodeclara preta ou parda. Esse grupo é justamente o mais vulnerável a esse tipo de alteração cutânea, devido à maior atividade dos melanócitos — células responsáveis pela pigmentação da pele.
Calor, luz e radiação seguem ativos mesmo sem sol forte
Mesmo com a redução aparente da intensidade do sol, especialistas alertam que a radiação continua atuando de forma silenciosa. A combinação de calor, luz visível e radiação UVA mantém o estímulo à produção de melanina, favorecendo o surgimento e agravamento das manchas.
Para a médica Danìelà Hermes, que atua há mais de 20 anos com foco em peles negras e mestiças, o problema está diretamente ligado à falsa sensação de segurança. “Muita gente relaxa nos cuidados com a pele nessa época do ano, acreditando que o risco diminui. Mas o mormaço continua e a pele segue sendo estimulada a produzir pigmento”, explica.
Manchas podem esconder doenças mais graves
Além do impacto estético, o avanço das manchas pode esconder problemas mais sérios. Dados da Secretaria de Saúde da Bahia apontam que o diagnóstico tardio de doenças de pele ainda é um desafio, especialmente na população negra.
Isso porque alterações na pigmentação podem dificultar a identificação de lesões suspeitas. Em alguns casos, sinais aparentemente comuns podem evoluir sem o devido acompanhamento médico.
O que observar na pele e quando buscar ajuda
Especialistas recomendam atenção a mudanças no formato, na cor e no tamanho das manchas. Sintomas como coceira, sangramento ou crescimento progressivo também são sinais de alerta.
Outro ponto importante é que, em pessoas negras, o câncer de pele pode surgir em áreas menos expostas ao sol, como palmas das mãos, plantas dos pés e unhas — o que torna o acompanhamento ainda mais essencial.
Pele negra não é imune aos danos solares
Ainda persiste o mito de que a pele negra não sofre com os efeitos do sol. Embora a melanina ofereça uma proteção natural maior, ela não impede danos.
Na prática, a maior reatividade da pele pode provocar o efeito contrário: qualquer estímulo — como calor, inflamações ou atrito — pode desencadear uma produção excessiva de pigmento, agravando manchas já existentes.
Prevenção exige rotina e não apenas cuidado pontual
Dados da Sociedade Brasileira de Dermatologia indicam que o melasma afeta uma parcela significativa da população, com maior intensidade em pessoas de fototipos mais altos, comuns na Bahia.
A recomendação é manter o uso contínuo de protetor solar, preferencialmente com cor, além de investir em antioxidantes. Homens também devem redobrar a atenção, principalmente por conta da foliculite, que pode deixar marcas persistentes na pele.
Tecnologia avança, mas diagnóstico ainda é chave
Procedimentos estéticos evoluíram e hoje oferecem opções mais seguras para peles negras, como peelings superficiais, microagulhamento e lasers específicos, que reduzem o risco de efeito rebote.
Ainda assim, especialistas reforçam que nenhum tratamento substitui o diagnóstico precoce e o acompanhamento profissional adequado.
Para Danìelà Hermes, o maior desafio continua sendo a conscientização. “O cuidado com a pele precisa ser contínuo. Não é estética, é saúde”, afirma.
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