Saúde
Publicado em 18/06/2025, às 06h00 - Atualizado às 06h00 Dandara Amorim
Quando o São João se aproxima, o som do forró começa a ocupar todos os espaços — nos fones de ouvido, nas ruas, bares e restaurantes. É quase impossível ouvir o triângulo, a zabumba e a sanfona sem que o corpo balance no compasso do “dois pra lá, dois pra cá”. Mas, para algumas pessoas, não é preciso esperar o mês de junho para cair no arrasta-pé. Elas dançam o ano inteiro, fazendo do forró uma verdadeira terapia, cura e libertação.
Foi assim que o BNEWS conheceu Alana Nascimento, de 37 anos, durante uma aula de forró. Ela começou a dançar há dois anos, após receber um convite de uma amiga. Na época, não imaginava aceitar, pois convivia com Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) — condição que, entre outros desafios, traz dificuldade com o toque físico, algo essencial na dança a dois. Mesmo achando impossível, levou a ideia para sua psicóloga. Para sua surpresa, a profissional não apenas aprovou, como indicou a dança como parte do tratamento.
“Era muito difícil. Eu ficava extremamente rígida e desconfortável. Fazia o que chamamos de freezing, que é quando você congela, fica parado, esperando aquele toque acabar. O forró me expôs a aceitar o toque e continuar. Ele me desafia diariamente a me relacionar melhor com a sociedade, com o mundo, através da dança. Todo dia eu me supero e aceito o forró como um movimento de cura para mim”, contou Alana.
O que antes era barreira, virou abraço. O desconforto e a ansiedade deram lugar ao acolhimento. Para Alana, que atua como executiva de transformação digital, o forró deixou de ser gatilho e passou a ser ponte — uma conexão leve, afetiva e libertadora com o mundo.
De acordo com a psiquiatra Tábata Juliana Mascarenhas, a dança vai muito além da expressão corporal e pode, sim, ser uma ferramenta de tratamento.
“A dança é um instrumento terapêutico que impacta diversas condições de adormecimento mental. Para quem vive em estado pós-traumático, o ato de dançar cria um ambiente oposto ao seu mundo interno. Os estímulos positivos ajudam a ressignificar o estado de alerta físico e emocional”, explicou.
O poder de transformação do forró também chegou à vida de quem enfrenta doenças neurodegenerativas, como o Parkinson. É o caso do irmão de Kris Boesch, diagnosticado em 2020, aos 60 anos. Desde então, a família escolheu enfrentar a doença com passos leves e ritmados, seguindo as recomendações médicas, mas também priorizando a qualidade de vida.
“A gente quer construir a vida com mais sorrisos, risadas, dança, cantos, louvores, fé e amor puro no coração”, relatou Kris.
Segundo a psiquiatra, no caso de pacientes com Parkinson, a dança oferece estímulos que mantêm o cérebro ativo. “Ela estimula atenção, memória e humor. Do ponto de vista motor, melhora a coordenação, o equilíbrio e a força muscular.”
É assim que os irmãos seguem a vida — um passo de cada vez, no compasso do forró, em busca de mais mobilidade e saúde.
As aulas que transformaram a vida de Alana, Kris e seu irmão acontecem na Escola Forró 4º Andar, no centro de Salvador. O espaço, mantido por voluntários apaixonados pela cultura nordestina, virou refúgio tanto para quem dança por prazer quanto para quem dança por saúde.
Igor Carvalho, professor e um dos fundadores do projeto, contou como o Forró 4º Andar nasceu. “Queríamos oferecer aulas acessíveis para os estudantes da Universidade Federal da Bahia (UFBA), e hoje recebemos pessoas de vários lugares. Aqui, a gente cria comunidade, vínculos e afeto por meio da dança.”
Entre o som da zabumba, do triângulo e da sanfona, os encontros se multiplicam. O que era aula vira roda. O que era terapia vira festa. No abraço ritmado do forró, a aproximação é inevitável — e a cura, quase natural.
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