Saúde
por Leonardo Oliveira
Publicado em 03/11/2025, às 11h34
O uso de betabloqueadores voltou a ganhar destaque nas redes sociais, sobretudo por influenciadores, após serem utilizados para controlar sintomas físicos de ansiedade.
"Os betabloqueadores foram desenvolvidos para tratar condições cardíacas", explica o cardiologista Fernando Ribas, da BP - A Beneficência Portuguesa de São Paulo, ao UOL.
"Eles inibem receptores específicos de adrenalina no organismo, os betarreceptores, o que reduz efeitos típicos da ansiedade no sistema cardiovascular, como taquicardia, hipertensão e tremores. Esses sintomas, quando controlados, podem fazer a pessoa se sentir melhor durante uma crise de ansiedade", afirma.
No entanto, esses remédios acendem um alerta para os médicos, que explicam sobre os riscos e a falta de tratamento da causa emocional. A medicação não é um tratamento para a causa dos sintomas. "Ele não trata a sensação de medo, a preocupação ou a tensão antecipatória. Atua apenas no corpo, e não na mente”, explica a médica psiquiatra Danielle Admoni, supervisora na residência de psiquiatria da Unifesp e especialista pela ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria).
Riscos
A utilização sem supervisão médica pode trazer consequências sérias. Fernando Ribas destaca que os betabloqueadores podem causar crises de asma, bronquite, queda de pressão, desmaios e redução importante da frequência cardíaca.
Além disso, o uso indevido pode mascarar sintomas de doenças cardíacas, como arritmias, atrasando diagnósticos e o tratamento adequados.
Na psiquiatria, o indicado é apenas utilizar pontualmente, por exemplo, antes de uma prova, palestra ou exposição pública. "Para quem tem ansiedade de desempenho, pode ser uma ferramenta válida, desde que associada a um acompanhamento psicológico. A ansiedade precisa ser tratada em sua origem, não apenas controlada nos sintomas", diz Danielle Admoni.
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Segundo os especialistas, o principal risco do uso fora de indicação é transformar o remédio em um apoio constante. "Não há dependência física comprovada do propranolol", explica Luiz Scocca, médico psiquiatra pelo Hospital das Clínicas da USP, membro da ABP e da APA (Associação Americana de Psiquiatria).
"Mas há risco de dependência psicológica, ou seja, a pessoa acreditar que só consegue enfrentar situações desafiadoras se tomar o medicamento antes. E isso impede o desenvolvimento natural da autoconfiança."
Com isso, é importante destacar, segundo os especialistas, que o betabloqueador não é uma solução para a ansiedade, e sim uma ferramenta pontual para controlar manifestações físicas.
"É um medicamento para o coração, não para o medo", reforça Scocca. "O uso responsável exige triagem médica e consciência de que a ansiedade precisa ser cuidada de forma integral, com terapia, acompanhamento psiquiátrico e, quando necessário, antidepressivos”, finaliza.
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