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Publicado em 13/04/2020, às 05h08 Victor Pinto
Vira e mexe o novo coronavírus é suscitado no aspecto eleitoral. Não deveria, pois estamos em um momento - ou dever ser - de expectativa de unidade dos polos políticos dos mais diversos em prol do povo. Pelo lógica cronológica, o primeiro passo é resolver a questão da saúde e, somente depois, a ressaca social e econômica que enfrentaremos. Contudo, em todo canto, e a Bahia não é diferente do cenário nacional - onde observamos um presidente em cima do palanque 24 horas por dia - pessoas e personagens que usam do momento para conseguir dividendos puramente partidários.
O Covid-19, Coroca Vick, Coronga, XingLing, Peste Chinesa e tantas outras alcunhas, muitas ouvidas por mim nos mais diversos áudios de grupos de WhatsApp de política do interior, se tornou o principal nome das oposições dos prefeitos e vereadores.
O inimigo invisível de nome e sobrenome numérico - como disse certa vez o ministro da Saúde, Henrique Mandetta - só falta se filiar a um partido e concorrer no pleito deste ano, cuja possibilidade de prorrogação fora aventada para meados de novembro, um avanço diante do cenário incerto de quando teremos o achatamento da curva de casos e óbitos.
De acordo com o boletim de fim de semana da secretaria da Saúde, já passam de 70 o número de cidades com notificações. O perigo fica não só no local específico, mas deixa em alerta municípios vizinhos. Se não tomarmos cuidado, conforme a pesquisa divulgada pela Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), em sete meses poderemos passar de um milhão de casos e o nossos sistema de saúde entrará em colapso. E tem grupinhos que, assim como Bolsonaro, só pensam naquilo: eleição.
Assisti vídeos de pastores indignados com fechamento de suas igrejas com realização de ataque de cunho político e até distorcendo a Constituição Federal. Comerciantes preocupados única e exclusivamente com lucros, e não com a saúde de seus colaboradores ou no pensamento do coletivo na prevenção. Escutei conversas vazadas de pré-candidatos a vereador apontando que prefeitos estariam torcendo para casos do Covid-19 acontecerem em seus municípios para assim conseguirem decretar o estado de calamidade e gastarem o dinheiro como bem entenderem e sem controle. Creio, parte-se primeiro da boa-fé e fiscaliza-se.
Outro fato mesquinho: divulgam os dados dos munícipes contaminados como forma de incitar ira contra a família de quem está contaminado e, se esse, tiver uma ligação muito próxima a determinado político, acusa o agente público de levar o vírus para a região. Condenam a não realização de eventos, como cancelamento do São João.
Escutei de uma vereadora de uma cidade da região do Sisal, em entrevista a uma rádio neste fim de semana, que a população não se preocupasse, pois o vírus está no fim. Eu questiono: onde ela exerga a luz no fim do túnel? Se a Itália e a Alemanha estão pedindo para seus conterraneos saírem do Brasil o quanto antes através de comunicado de suas embaixadas, para mim, é sinal de que essa luz tá longe.
Muitos prefeito têm se fortalecido no viés eleitoral, pois, apesar de alguns serem estrambólicos nas medidas, de certo modo, demonstram preocupação com seu povo. Isso incomoda a oposição não parceira. Outros podem dar um tiro no pé se não zelarem pelos seus: que o diga o de Itamaraju, do PSDB, que negou a instalação de 20 leitos de UTI no município por achar que o governador Rui Costa, do PT, estava fazendo exigências demais. Queira Deus que ele não sinta falta dessa ajuda.
Diante desse cenário, cujo correto seria todos de mãos dadas, ninguém tem pensado nas consequências vindouras. Eu não arriscaria ter o coronavírus como cabo eleitoral. O rastro de destruição surgido pelo vírus, na abertura da caixa de Pandora, é algo muito arriscado na soma estratégica, mesquinha e tacanha, com direito a contabilização de óbitos. O mundo tem nos mostrado isso.
* Victor Pinto é jornalista formado pela Ufba, especialista em gestão de empresas em radiodifusão e estudante de Direito da Ucsal. É editor do BNews e coordenador de programação da Rádio Excelsior da Bahia. Atua em outros veículos e com consultoria. Twitter: @victordojornal