Bem, você não sabe, mas eu vou revelar agora: eu dormi na noite de julho para 1º de agosto trajando um quimono todo de seda, com um dragão chinês bordado na região das costas, um presente do marido, das viagens à sua terra ancestral, a Itália.
Não usei só porque era um quimono, mas porque é vermelho-sangue. Nesse agosto, quanto mais confronto, melhor. A tendência é de cores fortes. Se a gente chegou até aqui, para setembro é um passo. Porque a gente deve se prevenir contra o agouro e o azar deste mês, é porque é terrível.
Eu não sei o que é pior: se essa turma reversa ou o mês do desgosto. Ah, sim, dizem uma coisa boa de agosto: o aniversário da minha avó Domiciana é no dia 10. Ela, que era serena e por quem eu nutria grande amor, não tinha medo de agosto. E você, caro leitor do Bnews, revele!
Todo mundo entendeu o mês, só que a gente fica apreensivo. Não é não? A má fama de agosto começou em Portugal, claro né. Então vários episódios e tragédias, sobretudo políticas, aconteceram naquele país e foram trazidos para cá, para o Brasil, pela corte portuguesa. Quando a gente sofre... então vamos descolonizar isso.
Aqui tem um episódio do cachorro louco. Como é que é? Mas eu juro que eu nunca na minha vida vi um cachorro louco. Mas a gente, no interior, ficava em pânico. Quando vinha um cachorro babando, já saía todo mundo correndo, sabia nem o que queria fazer, mas era o pânico instalado.
E os grandes episódios mundiais? Agosto não gosta de correr. O cenário entre os líderes europeus era que, todo mundo queria fazer a guerra, não é? Na Europa, todas as potências queriam expansão, queriam conquistar colônias, queriam ter poder. Então estava todo mundo disposto a brigar. E isso começou em agosto, com o atentado contra o príncipe Francisco Ferdinando (ou Franz Ferdinand, em alemão), herdeiro do trono do Império Austro-Húngaro, assassinado em Sarajevo. E aí foi só a gota d'água: os países começaram a se aliar e foi decretada a Primeira Guerra Mundial.
Foi também em agosto que os Estados Unidos desceram a bomba - "Enola Gay", em 1945 - sobre Hiroshima e Nagasaki, duas cidades do Japão Imperial, que foram destruídas, causando um colapso no mundo. Uma bomba nunca é justificada. O Japão dos samurais era um inferno - escrevo isso para dizer o contexto do Japão da época: uma nação extremamente violenta, onde a vida humana não valia muita coisa e as mulheres eram obrigadas a parir sem gritar. Conhecedor dessa realidade, o genial Gilberto Gil escreveu uma das músicas mais incríveis do seu repertório, chamada "A Paz". E o poeta, na letra, diz o seguinte: "uma bomba sobre o Japão fez nascer o Japão da paz".
Em agosto, no Brasil, o cenário político também levanta tragédia. Nós tivemos a morte de dois presidentes, não no mesmo ano, e também a renúncia de Jânio Quadros. O mês ficou marcado por eventos políticos e mortes trágicas no país: o suicídio do presidente Getúlio Vargas (1954), a morte de Juscelino Kubitschek (1976) e a renúncia de Jânio Quadros (1961).
Marcos internacionais em agosto - nossa ancestralidade lésbica. Fora do Brasil, o mês também registra momentos fundamentais para a militância global:
Revolta da Compton's Cafeteria (agosto de 1966): três anos antes do famoso levante de Stonewall, mulheres transgêneras e drag queens iniciaram um dos primeiros motins da história dos Estados Unidos contra a violência policial, em San Francisco.
Fundação da ILGA (8 de agosto de 1978): foi criada a International Lesbian and Gay Association (Associação Internacional de Lésbicas e Gays), uma das maiores federações globais focadas na conquista de direitos civis iguais.
Descolonizando agosto – o nosso
Dia Nacional da Visibilidade Lésbica. O Dia Nacional da Visibilidade Lésbica, celebrado em 28 de agosto, nasce da luta histórica das mulheres lésbicas e bissexuais por reconhecimento, dignidade e direito à vida. Mais do que uma data no calendário, é um ato político de resistência contra a lesbofobia, o apagamento e a violência que ainda marcam a existência dessas mulheres no Brasil, especialmente as negras e periféricas. Visibilidade, aqui, é também saúde coletiva: ocupar espaços, existir sem medo e ser nomeada é um gesto de cura individual e comunitária. Neste 28 de agosto, que a visibilidade lésbica não seja apenas lembrada, mas transformada em políticas públicas, respeito cotidiano e amor concreto.
Estimado leitor do nosso Bnews, para nós, sobreviventes que habitamos essa parte do Brasil, quente e úmida, é mesmo muita resiliência. Passamos incólumes por junho e julho - considerando que vencemos o mofo, a oleosidade da pele, a deterioração climática nas fachadas dos edifícios e dos cortes e penteados de cabelo. Agosto, com seus 31 dias que parecem sem fim, na verdade é um passo para a chegada da primavera, que chega da Itália com malas de perfumes e cestos de flores de quintal. Primavera! Fora, fora a aflição - se precisar, passiflora e maracujá, com porta para passar logo. Não esqueça! Em setembro, tem a 23ª Parada LGBT no dia 6, na Barra - festa-se de flores.
Marcelo Cerqueira
Gestor Público da PMS, Escritor, Jornalista (DRT-2135), Estrategista da Diversidade e Inclusão.
Classificação Indicativa: Livre