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De novo, Marvel? “Homem-Aranha: Um Novo Dia” é covarde, tropeça em caminhos conhecidos e expõe vícios do estúdio

Com direção de Destin Daniel, “Homem-Aranha: Um Novo Dia” busca se distanciar da trilogia anterior e trazer uma nova estética  |  Divulgação / Sony Pictures

Publicado em 02/08/2026, às 08h00   Divulgação / Sony Pictures   Cauan Borges

Antes de tudo, é preciso reconhecer o contexto em que"Homem-Aranha: Um Novo Dia"- (2026)chega aos cinemas. Depois de uma sequência de filmes e séries que dividiram o público, a Marvel Studios parece empenhada em recuperar a confiança de uma audiência que, nos últimos anos, passou a questionar a direção criativa do estúdio.

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A recepção morna de grande parte dos personagens introduzidos em producões na fase mais recente do Universo Cinematográfico da Marvel (UCM), como "She-Hulk", "Ms. Marvel", "Cavaleiro da Lua", "Wonder Man", "Coração de Ferro" e "Os Eternos", deixou evidente que o antigo entusiasmo já não é automático. 

Nesse cenário cada vez mais alarmante para Kevin Feige, líder criativo da Marvel nas telonas, trazer de volta o herói mais popular da casa não é apenas uma escolha narrativa, mas sim uma tentativa (desesperada) de reconquistar o carinho dos fãs em um universo cada vez mais desgastado.

Tom Holland como Peter Parker em "Homem Aranha: Um Novo Dia" - Foto: Divulgação / Sony

De novo, Marvel?

Com direção do jovem Destin Daniel Cretton, responsável por “Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis” - (2021), o novo capítulo de Peter Parker tenta marcar distância da trilogia comandada por Jon Watts. De forma mais que positiva, a mudança na construção estética é evidente. A fotografia abandona parte do aspecto artificial que marcou muitos dos últimos projetos do universo e recupera elementos básicos da linguagem cinematográfica. Há mais contraste entre luz e sombra, cores menos lavadas, cenários físicos e uma Nova York que finalmente parece habitada.

O Homem-Aranha volta a existir em ruas reconhecíveis, cercado por prédios, becos, trânsito e pessoas, algo essencial para um personagem cuja identidade sempre esteve ligada ao cotidiano urbano. Pela primeira vez desde a chegada de Tom Holland ao papel do ‘Teioso’, o universo do personagem transmite uma sensação de realidade que aproxima o espectador da experiência de acompanhar um jovem 'lascado' e abatido que tenta equilibrar responsabilidades comuns e heroísmo.

No entanto, nem tudo são flores. O problema mais categórico do filme é que a forma evolui muito mais do que o conteúdo.

A proposta dramática apresentada pelo roteiro, escrito por Erik Sommers, Chris McKenna, nasce das consequências do último filme do personagem, “Sem Volta para Casa" - (2021). Após apagar sua existência na memória das pessoas que ama, Peter vive isolado socialmente, ao mesmo tempo em que constroi e amplia sua relação de heroísmo com Nova York. Como esperado, a dúvida central do longa-metragem é simples: ainda é possível existir como Peter Parker enquanto o Homem-Aranha ocupa quase todo o espaço da sua vida? 

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Em tese, esse dilema existencial do personagem deveria ser o fio condutor do filme. Infelizmente, na prática, a ideia apresentada desde o início da obra nunca se aprofunda apropriadamente. O principal desafio da produção dirigida por Destin Daniel reside na construção do protagonista, que, ao afirmar que Peter precisa descobrir quem é fora da máscara, nunca revela essa identidade ao espectador. 

Quando não está combatendo criminosos ou lidando com eventos ligados ao UCM, pouco sobra de sua rotina, de seus sonhos ou de seus interesses interpessoais. A impressão exposta em tela é que Peter existe apenas quando veste o uniforme.

Entretanto, é importante destacar que essa limitação não é exclusiva deste filme, mas acompanha grande parte dos heróis da Marvel Studios, que passaram a ser definidos quase exclusivamente por suas funções dentro da franquia. Em vez de personagens que vivem suas histórias, muitos se tornaram peças de um universo compartilhado que exige e força constantes conexões com produções futuras. O resultado é que conflitos pessoais cedem espaço para ganchos, participações especiais e novas ameaças.

É exatamente isso que acontece em "Homem-Aranha: Um Novo Dia". A obra com o famoso selo Marvel/Sony de qualidade até tenta desenvolver uma narrativa mais íntima, mas a história é constantemente interrompida por subtramas que pouco acrescentam ao arco emocional de Peter. Os fragmentos narrativos servem mais para manter o universo interligado do que para aprofundar os traumas e limites morais do seu protagonista.

E o lado positivo?

As interações entre Peter e Yelena Belova estão entre os momentos mais interessantes do longa. A dinâmica funciona porque parte de uma ideia curiosa: o Homem-Aranha começa a tratar o heroísmo quase como um emprego, aproximando-se de figuras mais experientes dentro da estrutura dos Vingadores. Florence Pugh mantém o carisma que consolidou a personagem nos filmes anteriores e cria uma química natural com Tom Holland.

O Justiceiro, interpretado pelo inimigo do desemprego Jon Bernthal, também encontra espaço neste registro mais leve e pouco engessado. Sua postura rígida, característica do personagem, contrasta com o comportamento inseguro de Peter, e cria situações que lembram uma comédia sobre colegas de trabalho com personalidades incompatíveis. Nesses momentos, o filme encontra um ritmo que diverte sem depender exclusivamente de piadas previsíveis.

Homem Aranha e o Justiceiro em "Homem Aranha: Um Novo Dia" - Foto: Divulgação / Sony

Faltou coragem...

O problema citado no inicío da crítica reaparece quando a narrativa tenta transformar essa leveza em drama. A dualidade entre Peter Parker e Homem-Aranha nunca produz consequências realmente dolorosas ou cenicamente emocionantes. Diferentemente do clássico “Homem-Aranha 2”, de Sam Raimi, no qual abandonar o uniforme afeta tanto a cidade quanto a vida pessoal do protagonista, aqui as escolhas parecem existir apenas como conceito. Não há perdas concretas nem dilemas capazes de alterar o rumo da história.

As participações de personagens como Hulk, com a volta de Mark Ruffalo ao papel, reforçam esse sentimento. Em vez de ampliar o debate sobre identidade — algo que faria sentido ao considerar a relação entre Bruce Banner e seu alter ego —, o gigante verde funciona como uma muleta que sustenta o elemento da ação no longa. O mesmo vale para outros personagens e conflitos que entram e saem da trama sem alterar o desenvolvimento emocional do protagonista.

A sensação de incompletude acompanha o filme até sua conclusão, por mais irônico que pareça. A história não termina porque resolveu seu principal conflito, mas porque precisa abrir caminho para a próxima produção da Marvel. A resolução emocional é adiada mais uma vez, como se cada longa fosse apenas um capítulo intermediário de uma narrativa maior.

Homem Aranha e Hulk em cena durante "Homem Aranha - Um Novo Dia" - Foto: Divulgação / Sony

Qual o saldo final?

"Homem-Aranha: Um Novo Dia"  é o exemplo mais que perfeito do momento atual da Marvel Studios. Há sinais claros de que o estúdio identificou parte dos problemas que afastaram o público e, consequentemente, o visual ganha personalidade, a direção demonstra mais cuidado com a composição das cenas e o herói volta a parecer inserido em um mundo concreto. Porém, essas mudanças não alcançam o coração da história e tudo parece mastigado, mas nada é digerido.

O filme melhora a aparência do Homem-Aranha e abandona, mais uma vez, a ideia de que Peter Parker é capaz de existir além da máscara. Enquanto o maior personagem da Marvel continuar preso às necessidades do universo compartilhado, qualquer tentativa de explorar sua humanidade parecerá incompleta.

Em sua busca para recuperar o suposto prestígio perdido, Kevin Feige dá um passo na direção certa, mas ainda parece incapaz de romper completamente com a fórmula que levou parte do público a se distanciar dela, ao suprimir o poder cinematográfico de seus cineastas.

Nota da Coluna: ❤️ ❤️ ❤ ❤ ❤ 

Classificação Indicativa: Livre


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