Artigo
Mesmo que de forma superficial e pouco inventiva na maioria das vezes, o cineasta britânico Christopher Nolan sempre demonstrou interesse por personagens consumidos pelas consequências das próprias escolhas. De Leonard Shelby em "Amnésia" (2000) a Bruce Wayne em "Batman: O Cavaleiro das Trevas" (2008), passando por Cooper em "Interestelar" (2014) e J. Robert Oppenheimer em "Oppenheimer" (2023), seus protagonistas carregam um peso moral que nunca desaparece completamente.
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Em seu mais novo longa-metragem, "A Odisseia" (The Odyssey, 2026), essa característica talvez alcance sua forma mais madura. A adaptação do poema de Homero abre mão de glorificar a figura heroica de Odisseu para acompanhar um homem incapaz de escapar da violência que ajudou a provocar.
Ao mesmo tempo, o filme reúne com mais naturalidade duas marcas cada vez mais presentes na filmografia de Nolan. De um lado, a busca frequente pelo tom mais realista. Do outro, uma montagem fragmentada e guiada pela memória.
O Odisseu, interpretado por Matt Damon, está distante do guerreiro infalível eternizado por adaptações clássicas, como "Ulysses" (1954), estrelado por Kirk Douglas. No lugar do herói quase mitológico, surge um homem desgastado física e emocionalmente, marcado pela culpa e por uma masculinidade que se manifesta menos pela força do que pela dificuldade de lidar com as próprias emoções.
O desejo de retornar para casa convive o tempo inteiro com a incapacidade de abandonar a identidade construída durante a Guerra de Troia.
Como apontou o crítico Arthur Tuoto, essa leitura aproxima "A Odisseia" muito mais de "A Última Tentação de Cristo" (1988), de Martin Scorsese, do que de qualquer outro épico recente. Assim como o Cristo vivido por Willem Dafoe se divide entre uma missão extraordinária e o desejo por uma vida comum, o Odisseu de Damon também atravessa esse conflito.
A diferença é que Nolan inverte completamente a lógica proposta por Scorsese, e justamente aí reside uma das ideias mais instigantes do longa. No filme de 1988, Cristo é tentado pela possibilidade de abandonar o sacrifício para construir uma família. Já em "A Odisseia", a tentação está em permanecer preso ao extraordinário.
Odisseu demonstra orgulho da própria trajetória, recorda Troia, desafia os deuses, afirma que ouvirá o canto das sereias sem morrer e parece fascinado pela possibilidade de continuar vivendo entre guerras e feitos excepcionais. Voltar para Ítaca também significa aceitar que talvez não exista mais espaço para o homem que a guerra transformou em lenda.
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Essa perspectiva muda profundamente a maneira como Nolan interpreta a própria Guerra de Troia. O emblemático Cavalo deixa de representar apenas inteligência militar para assumir uma função semelhante à da bomba atômica em "Oppenheimer" (2023). Ambos simbolizam invenções que encerram uma civilização enquanto inauguram outra sustentada pela destruição. O famoso estratagema deixa de ser apenas uma façanha e passa a funcionar como um pecado original, cujas consequências acompanham toda a narrativa.
O Odisseu de Damon atravessa a história tentando descobrir se existe alguma forma de redenção para quem venceu uma guerra por meio da fraude e do massacre. Essa aproximação entre "A Odisseia" e "Oppenheimer" também aparece na construção formal. Jennifer Lame, colaboradora essencial na montagem dos filmes de Nolan desde "Tenet" (2020), organiza a narrativa como uma memória fragmentada.
Os acontecimentos raramente obedecem a uma cronologia convencional, como se cada episódio respondesse à lógica da culpa.
Algumas imagens retornam apenas quando um novo acontecimento lhes atribui outro significado. A montagem aproxima batalhas de lembranças domésticas, mortes de reencontros e violência de afetos. O resultado está distante do quebra-cabeça narrativo que marcou filmes como "A Origem" (2010) e "Interestelar" (2014). Desta vez, a fragmentação serve para organizar estados psicológicos.
A sequência do Ciclope, talvez uma das melhores do longa, resume quase que perfeitamente essa proposta. Nolan reduz as transições tradicionais e constrói toda a cena por meio de interrupções, lacunas e fragmentos. O espectador nunca domina completamente aquele espaço. A ameaça cresce justamente porque a montagem restringe o acesso às informações. Assim, o horror nasce da percepção limitada dos próprios personagens, reforçado pela relação entre imagem e design de som.
O interesse pela experiência sensorial, citado no início do texto, atravessa toda a produção. Desde "Dunkirk" (2017), Nolan passou a substituir parte da exposição verbal por construções baseadas na presença física dos corpos e dos espaços. Em "A Odisseia", essa tendência atinge um novo patamar. Rodado integralmente em IMAX, o longa utiliza o formato para muito mais do que ampliar paisagens. Em vez de transformar a Grécia Antiga em uma sucessão de imagens monumentais, Nolan procura fazer o público sentir que aqueles ambientes realmente podem esmagar quem vive neles.
Ao contrário de muitos épicos contemporâneos, a fotografia evita a estilização excessiva. A imagem permanece relativamente seca e, em vários momentos, assume um aspecto quase documental. O espetáculo nasce da escala física dos cenários, não da ornamentação visual. Essa escolha torna as cenas de guerra ainda mais impactantes porque a monumentalidade nunca elimina a vulnerabilidade dos personagens.
Entretanto, talvez a maior surpresa do filme esteja em outro aspecto. Pela primeira vez na carreira, Nolan demonstra domínio absoluto das cenas de intimidade.
A sequência entre Penélope, interpretada por Anne Hathaway, e Antínoo, vivido por Robert Pattinson, sintetiza essa evolução. O encontro acontece no quarto da rainha, enquanto o pretendente tenta convencê-la a aceitar um novo casamento. Durante praticamente toda a conversa, a câmera permanece atrás de uma tapeçaria. Aos poucos, aproxima-se dos personagens sem abandonar esse ponto de vista. Penélope ocupa o foco da imagem, enquanto Antínoo permanece ligeiramente desfocado.
A esposa em luto aparece aprisionada pela própria dor, enquanto a presença do pretendente surge quase como uma sombra tentando ocupar aquele espaço. O enquadramento comenta emocionalmente o diálogo sem recorrer ao excesso de explicações, algo que costumava aparecer com frequência em trabalhos anteriores do diretor.
É difícil não lembrar da conversa entre J. Robert Oppenheimer, interpretado por Cillian Murphy, e Harry Truman, vivido por Gary Oldman, em "Oppenheimer" (2023). Naquele momento, Nolan já utilizava a posição da câmera para traduzir culpa, humilhação e relações de poder. Em "A Odisseia", essa compreensão da linguagem cinematográfica amadurece ainda mais. Pela primeira vez, os diálogos possuem uma força visual comparável às grandes cenas de ação.
Como consequência, até o sobrenatural se beneficia dessa abordagem mais intimista. A visita ao Submundo de Hades impressiona pelos efeitos visuais, mas o que fica marcado é o encontro entre Odisseu e Sinon. Nolan entende que o fantástico funciona melhor quando preserva a presença física dos atores.
O mesmo acontece na sequência de Circe, personagem interpretada por Samantha Morton. Trata-se, provavelmente, de um dos momentos mais surpreendentes de toda a filmografia do diretor. Morton domina completamente o espaço.
O olhar, as pausas e o controle do diálogo tornam desnecessária qualquer tentativa de explicar os elementos mágicos presentes na narrativa. Nolan finalmente encontra um equilíbrio raro entre fantasia e realismo. O sobrenatural permanece concreto justamente porque nunca perde de vista a dimensão humana.
Como voltar para uma vida comum depois de participar do fim de uma civilização? Como recuperar o papel de marido, pai e rei depois de transformar a própria inteligência em instrumento de destruição?
É justamente por isso que Nolan filma o Cavalo de Troia quase como um objeto religioso. A presença monumental lembra um altar, mas trata-se de um altar construído sobre a mentira. Se a cruz em "A Última Tentação de Cristo" representa um sacrifício capaz de fundar uma nova comunidade, o Cavalo de Troia simboliza exatamente o oposto. Esconde a violência para destruir uma cidade. Um símbolo recebe a morte para produzir vida. O outro entrega um presente que transporta a morte em seu interior.
Mesmo quando a narrativa assume uma estrutura mais linear no último ato, Nolan preserva a sensação de memória distante. Tudo parece filtrado pela consciência de alguém incapaz de abandonar o passado. Não existe retorno completo porque não existe possibilidade de apagar aquilo que Troia deixou para trás.
"A Odisseia" representa uma síntese prazerosa do cinema de Christopher Nolan. O filme reúne o interesse pela culpa visto em "Oppenheimer" (2023), a construção sensorial desenvolvida em "Dunkirk" (2017), a fragmentação narrativa presente desde "Amnésia" (2000) e a escala monumental que acompanha sua filmografia há mais de uma década.
Mais importante que isso, acrescenta um elemento que, durante muito tempo, parecia faltar ao diretor. Uma sensibilidade dramática capaz de transformar diálogos, olhares e silêncios em momentos tão marcantes quanto batalhas, monstros e grandes demonstrações de técnica.
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