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Representações de Jesus Cristo: Até que ponto a liberdade artística pode desafiar a religião?

Cena do filme "A Última Tentação de Cristo" - Crédito: United International Pictures
Como diferentes cineastas reinterpretam a figura de Jesus Cristo e desafiam tradições na fé e arte  |   Bnews - Divulgação Cena do filme "A Última Tentação de Cristo" - Crédito: United International Pictures
Cauan Borges

por Cauan Borges

cauan.borges@bnews.com.br

Publicado em 05/04/2026, às 08h00



"Houve apenas um cristão, e ele morreu na cruz", diz o filósofo alemão Friedrich Nietzsche em sua obra "O Anticristo". A figura de Jesus Cristo ocupa um lugar singular na história da humanidade. Não se trata apenas de um personagem religioso, mas de um símbolo que atravessa séculos, molda valores éticos, inspira sistemas políticos e influencia a própria noção de civilização no lado ocidental do globo terrestre.

Ao migrar para o cinema, teatro e televisão, a representação simbólica abandona o campo exclusivo da fé e passa a habitar também o território da arte, espaço onde interpretação, linguagem e subjetividade são pontos inevitáveis, pelo menos, em grande parte dos casos.

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É justamente no processo apresentado anteriormente que nasce a tensão inventiva entre os realizadores: até que ponto a liberdade artística pode reinterpretar Cristo sem colidir com os limites impostos pela tradição cristã?

Desde os primórdios da dramaturgia, representar Jesus é um desafio que vai além da estética visual. Trata-se de traduzir em imagens aquele que, para os cristãos, é simultaneamente humano e divino. Cada obra que se propõe a fazê-lo responde, ainda que indiretamente, à pergunta central do cristianismo: quem é Jesus Cristo? 

No entanto, essas respostas dizem menos sobre o Cristo histórico e mais sobre o olhar de quem o representa.

Em "A Paixão de Cristo" (2004), dirigido por Mel Gibson, o longa-metragem opta por um realismo brutal, quase físico, que busca enfatizar o sofrimento e o peso do pecado. A obra provoca impacto e devoção, mas também levanta questionamentos do risco de reduzir a mensagem cristã à dor, e deixa em segundo plano a ressurreição e o amor redentor.

Enquanto o cineasta Franco Zeffirelli, em "Jesus de Nazaré" (1977), constrói um Cristo harmonioso, inspirado na estética renascentista. A narrativa busca equilíbrio entre humanidade e divindade, mas foi fortemente criticada à época por apresentar uma figura idealizada, distante da complexidade histórica e cultural do Oriente Médio do século I.

O contraste se intensifica em “O Evangelho Segundo São Mateus" (1964), de Pier Paolo Pasolini. Ateu e marxista, o diretor entrega uma das representações mais reverentes de Cristo, com estética austera e foco na força do texto bíblico. Seu Jesus é menos uma construção teológica e mais um enigma humano, carregado de transcendência.

Martin Scorsese, por sua vez, em “A Última Tentação de Cristo” (1988) – o favorito da coluna entre os filmes citados –, mergulha na dimensão psicológica do símbolo religioso. Ao explorar dúvidas e tentações, o filme humaniza Jesus de forma "radical", o que provocou reações intensas, protestos, acusações de blasfêmia e ameaças de morte ao cineasta vencedor do Oscar.

Eu sou um mentiroso, um hipócrita. Eu tenho medo de tudo... Eu não luto, eu não mato, porque tenho medo", relata Ele, em monólogo interpretado por Willem Dafoe no filme de Scorsese.

Para muitos fiéis, certas interpretações não são apenas ousadas, são inaceitáveis.

"Jesus Cristo Superstar", musical britânico de 1973 dirigido pelo cineasta canadense Norman Jewison, traduz a narrativa bíblica para a linguagem da cultura pop dos anos 1970 e aproxima Cristo de uma figura de celebridade. Décadas depois, a série "The Chosen" (2017) adota estratégia diferente: humaniza sem romper com a devoção característica e conservadora, com diálogo direto com o público contemporâneo e consolidando um novo modelo de produção religiosa no streaming. 

No Brasil, produções do canal de comédia Porta dos Fundos geraram forte reação de grupos cristãos ao utilizarem o humor para reinterpretar narrativas bíblicas. As críticas, muitas vezes, extrapolam o campo artístico e entram no debate jurídico e político e levantam discussões sobre censura, liberdade de expressão, intolerância religiosa e o mais temido de todos: o comunismo.

Outro ponto de atrito está na representação étnica de Jesus, já que a imagem clássica de um Cristo branco, europeu, de olhos claros, já foi amplamente questionada por historiadores. A figura do “Jesus negro” — ou, de forma mais precisa, de um Jesus com características do Oriente Médio — é considerada mais próxima da realidade histórica. Ainda assim, essas releituras frequentemente enfrentam resistência, o que evidencia como a imagem de Cristo também foi moldada por contextos culturais e políticos ao longo do tempo.

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O embate não pode ser analisado isoladamente, pois dialoga com a presença da religião na esfera pública. Em sociedades laicas, como a brasileira (teoricamente), a fé não deve impor limites institucionais à produção artística. No entanto, a força social do cristianismo, especialmente em contextos em que há grande mobilização política de grupos religiosos, influencia o que pode ou não ser considerado aceitável.

O sociólogo Boaventura de Sousa Santos ajuda a compreender esse cenário ao diferenciar posturas pluralistas e fundamentalistas dentro da religião. Enquanto setores pluralistas aceitam interpretações contextualizadas dos textos sagrados, grupos fundamentalistas tendem a rejeitar qualquer releitura que se afaste da literalidade. No campo artístico, essa diferença se traduz em maior ou menor tolerância à experimentação.

Temos o direito de ser iguais quando a nossa diferença nos inferioriza; e temos o direito de ser diferentes quando a nossa igualdade nos descaracteriza. Daí a necessidade de uma igualdade que reconheça as diferenças e de uma diferença que não produza, alimente ou reproduza as desigualdades” - texto de Boaventura.

Limitar a arte a uma única interpretação empobrece o debate e transforma a fé em um território fechado, incapaz de dialogar com o tempo presente. A história do cinema mostra que não existe uma única imagem de Cristo, e talvez nunca tenha existido. O Jesus de Gibson, Zeffirelli, Pasolini, Scorsese, Jewison ou Jenkins não é o mesmo. Tampouco é o mesmo das sátiras, das releituras raciais, extremamente pertinentes, ou das produções contemporâneas.

Cada representação revela menos acerca de um retrato definitivo de Jesus e mais da busca humana por compreendê-lo artisticamente. Cristo, enquanto figura cultural e espiritual, permanece aberto à interpretação.

Ele é, ao mesmo tempo, tradição e reinvenção.

Jesus não é apenas uma imagem fixa e irredutível, mas uma identidade em disputa, constantemente recriada a partir da visão, das inquietações, falta de comodismo e da fé de cada realizador e, talvez, o personagem mais emblemático que um autor pode escrever.

*Texto reflete exclusivamente a opinião do colunista e não representa, necessariamente, a posição editorial do BNews. 

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Capa do filme "A Última Tentação de Cristo", dirigido por Martin Scorsese - Crédito: United International Pictures

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