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Tragicamente, o Brasil não vive apenas uma crise política cíclica. O que se consolida é um modelo de disputa e manutenção de poder baseado no ódio, na desinformação e na fabricação sistemática de inimigos. Não se trata de um desvio pontual, mas de uma engrenagem histórica que articula elites econômicas, setores conservadores e parte do sistema midiático para preservar privilégios, ainda que isso custe a corrosão da democracia.
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Quando a deputada Erika Hilton (PSOL-SP) é atacada publicamente por figuras como o apresentador Ratinho, não estamos diante de um episódio isolado ou de um excesso retórico. Trata-se de um reflexo direto de uma cultura política que transformou a violência simbólica em linguagem cotidiana. O riso que acompanha esse tipo de ataque não alivia, ele normaliza.
O ambiente também se manifesta em outros episódios recentes. Na Assembleia Legislativa de São Paulo, a deputada Fabiana Bolsonaro (PL-SP) foi acusada de praticar blackface após se pintar de marrom durante uma manifestação política, em forma de 'protesto' à escolha de Erika, mulher trans, como presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher.
Para a Fabiana, uma pessoa branca, tingir-se de 'negra' seria uma analogia perfeita para explicar o caso que envolve a deputada do PSOL. O triste episódio não só reforça como símbolos e práticas historicamente associados à discriminação ainda aparecem no centro da disputa política, mas demonstra como a ignorância e o ódio centralizado em minorias que buscam ampliar suas vozes são sempre suprimidos por discursos simbolicamente e diretamente ofensivos.
Esse cenário não surge do nada, a própria Organização das Nações Unidas (mesmo que ineficaz em seu trabalho) já alertava, em 2019, que o discurso de ódio é qualquer forma de comunicação que desumaniza pessoas com base em quem elas são. No Brasil, a manifestação recheada de animosidade ocupa o centro do debate público.
Parte disso tem a ver com um processo longo.
O cientista político Antonio Albino Canelas Rubim chama de “inoculação do ódio” a construção gradual que transforma adversários em inimigos a serem eliminados. Ao longo dos anos, esse sentimento foi sendo cultivado, muitas vezes com ajuda de coberturas enviesadas e narrativas simplificadoras que reduziram a política a uma disputa moral.
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O poder não se sustenta apenas pela força, mas pela capacidade de produzir “verdades”. Quem controla o discurso define quem pertence e quem deve ser excluído. No Brasil, esse mecanismo opera com clareza: o diferente vira ameaça e o dissenso vira perigo.
É justamente neste ponto que o conservadorismo deixa de ser apenas uma posição política e passa a funcionar como instrumento de exclusão. Não como ideia abstrata, mas como prática concreta. Ao longo da história recente, setores conservadores se mobilizaram repetidamente contra a ampliação de direitos, seja na pauta racial, de gênero ou social. Sempre que há avanço, há reação. E essa reação quase sempre vem carregada de medo e ressentimento.
O filósofo Jacques Rancière ajuda a entender esse movimento ao falar do “ódio à democracia”. Para o pensador, a democracia incomoda justamente quando começa a incluir quem antes estava fora. Como ele resume em uma de suas reflexões mais conhecidas sobre o tema, “o escândalo da democracia é que qualquer um pode governar”.
Quando novos grupos ocupam espaço, o incômodo cresce. O conflito não é um defeito do sistema, é sinal de que ele está funcionando. O problema é quando esse incômodo vira tentativa de exclusão.
No Brasil, isso aparece com força quando políticas públicas voltadas à inclusão, como o Programa Nacional de Direitos Humanos, passam a ser tratadas como ameaças. Não porque sejam radicais, mas porque mexem em estruturas históricas de concentração de poder. A mídia e as redes sociais têm papel central, os meios de comunicação não apenas informam, mas moldam o que é percebido como importante. Quando a lógica do mercado domina, a tensão vira produto.
Mas o que esperar de um país que elegeu um presidente que, de forma contundente, afirmou que ter uma filha mulher é “fraquejar”, e que homens negros em centros quilombolas precisariam ser pesados por arrobas? O que vemos hoje não é um movimento inocente, é ‘naturalmente normalizado’ e perpetuado, abraçando ideais que estão impregnados na sociedade de forma intrínseca.
O conflito vende e o ódio engaja.
Nas redes, isso se intensifica, ainda mais quando os algoritmos favorecem o conteúdo mais extremo, mais emocional, mais divisivo. A desinformação não é um efeito colateral, é parte do funcionamento. A filósofa Carolin Emcke oferece, talvez, uma das chaves mais diretas para entender esse cenário.
Como a pesquisadora afirma, “o ódio precisa de certeza; quem odeia não pode duvidar”. A convicção absoluta é o que permite que ataques sejam feitos com tranquilidade, como se fossem não apenas aceitáveis, mas necessários.
E quando essa lógica se instala na política, o resultado é previsível. Divergência deixa de ser parte do jogo democrático e passa a ser tratada como ameaça existencial. Foi assim que o país chegou a episódios extremos recentes, como os ataques de 8 de janeiro. Mesmo derrotadas, essas forças continuam presentes porque o ambiente que as alimenta segue intacto.
Como lembrava Hannah Arendt, regimes autoritários não nascem apenas da violência, mas da erosão da verdade. Quando tudo pode ser distorcido, quando fatos viram opinião, o terreno está pronto para qualquer tipo de manipulação.
No fim, a questão é menos sobre episódios isolados e mais sobre o projeto de sociedade que está em disputa. Um meio social que amplia direitos inevitavelmente enfrenta resistência. Em terras de verde e amarelo, essa pertinácia tem se organizado em torno do medo, da desinformação e do ódio.
Enquanto isso continuar sendo uma estratégia eficaz de poder, casos como o de Erika Hilton ou episódios como o blackface na Alesp não serão exceção, serão rotina. Na verdade, já são...
*Texto reflete exclusivamente a opinião do colunista e não representa, necessariamente, a posição editorial do BNews.
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