Artigo
Pelo jeito, não foi apenas o lado esquerdo do trio de Bell que protagonizou icônicas brigas no Carnaval de Salvador. O que se viu nos circuitos carnavalescos este ano, especialmente no Dodô (Barra-Ondina), foi um ambiente tensionado por disputas públicas, declarações atravessadas e questionamentos que, em muitos momentos, deslocaram o foco do que sustenta a festa, o encontro entre artista e público.
📲 Clique aqui e leia a última matéria da coluna de cultura!
Os atrasos de trios elétricos serviram como ponto de partida para uma série de episódios. A reclamação de Bell Marques sobre o andamento do desfile ganhou contornos mais diretos no domingo (15), quando o cantor atribuiu o congestionamento no circuito ao caminhão do Olodum, que desfilava à frente do bloco Camaleão. Segundo o ‘bandada man’, a dificuldade em acompanhar o ritmo comprometeu o percurso e tornou inviável manter a dinâmica planejada.
A fala em cima do trio, ao apontar que o problema se repete todos os anos e que seria necessário entender o que ocorre no trajeto, foi acompanhada por foliões que aguardavam a retomada do desfile. No dia seguinte, o cenário se ampliou com a cobrança pública feita por integrantes do Afoxé Filhos de Gandhy a Bell Marques, ainda na concentração.
Do alto do trio, um porta-voz pediu respeito ao acordo estabelecido previamente, que previa a saída às 16h. A manifestação ocorreu quando Bell subiu ao trio por volta das 15h50. Ao iniciar o desfile às 16h, o cantor respondeu à crítica ao mencionar o horário exato e afirmar que o Camaleão está entre os blocos que menos atrasam. As falas, feitas em sequência e em espaço aberto, evidenciaram a falta de alinhamento entre os envolvidos na organização do circuito ou, talvez, a intensa necessidade da troca de formas. Pelo menos, o entretenimento foi garantido.
Assista:
Ver essa foto no Instagram
O caso envolvendo o bloco de Daniela Mercury levou a discussão para outro campo. Ao questionar a ordem dos desfiles e recorrer à Justiça, a artista apresentou argumentos baseados em sua trajetória e na construção histórica do circuito. Trata-se de um direito legítimo, até porque, uma artista com contribuições ao Axé Music como os discos "Feijão Com Arroz" (1991) e "O Canto Da Cidade" (1993) possui todo o 'aval' para exigir o lhe pertence moralmente.
Além disso, a forma como a organização pública conduz o evento, especialmente por meio da prefeitura, deve ser alvo de questionamento quando necessário. Ainda assim, a sucessão de embates levanta uma questão inevitável sobre até que ponto o confronto constante com diferentes agentes contribui para a solução prática dos problemas apresentados.
Assista:
Ver essa foto no Instagram
E a música do Carnaval, em?
Enquanto isso, outras manifestações reforçaram o clima de disputa. Tony Salles, de forma um tanto quanto imatura, direcionou críticas 'veladas' à conquista de Ivete Sangalo em torno da escolha da Música do Carnaval, em uma postura que pouco acrescenta ao debate e que se volta contra uma artista que já interpretou canções do próprio repertório dele em outras ocasiões. A discussão, que poderia se restringir ao campo musical, acabou ganhando contornos pessoais e desviando a atenção do que efetivamente chega ao público.
de novo, Tony? todo ano isso…. pic.twitter.com/4TskSooghJ
— oxente zamura vampira🧛♀️ (@queenivete) February 19, 2026
Eu não sou de entrar em polêmicas, mas nessa aqui agora eu faço questão. Quem esse cara pensa que é pra ficar soltando indiretinha pq >>> PERDEU <<< em enquete popular?
— Darllan 🧛♂️ (@darllann) February 19, 2026
E essa não é a primeira vez ou primeiro ano que ele faz isso em relação a @ivetesangalo, falta de respeito… pic.twitter.com/HWA3YSCTLQ
Diante desse conjunto de acontecimentos, a tentativa de valorização individual por parte dos artistas aparece de forma evidente. Há um esforço constante em ampliar espaços, consolidar posições e reafirmar trajetórias dentro de uma festa que, por natureza, é coletiva. No entanto, o que se observa nos circuitos é que o público pouco se envolve com essas disputas. O interesse permanece na entrega sobre o trio, na condução do repertório, na capacidade de manter a energia ao longo do percurso e na conexão estabelecida com quem acompanha o desfile.
A resposta do povo de Salvador não se dá apenas por meio de declarações ou disputas públicas, mas sim na permanência nos circuitos, na escolha de quem seguir nos blocos, na adesão espontânea à pipoca e na forma como cada apresentação é recebida. Quando há ritmo e envolvimento com a massa através da música, a reação é imediata. Quando isso não acontece, o distanciamento também é percebido sem necessidade de explicações.
O Carnaval segue como uma vitrine para artistas que buscam expandir suas marcas e consolidar seus espaços. Ainda assim, a lógica da festa continua sendo definida por quem está na rua. Em meio a conflitos, decisões judiciais, críticas e respostas públicas, permanece um elemento que não se altera, o público não acompanha disputas, acompanha shows. A pipoca do BaianaSystem é o exemplo perfeito disso. No final, a resposta para toda essa questão chata é uma só: "Nas veias abertas da América latina, tem fogo cruzado queimando nas esquinas".
*Texto reflete exclusivamente a opinião do colunista e não representa, necessariamente, a posição editorial do BNews.
Assista:
Ver essa foto no Instagram
Classificação Indicativa: Livre
Lançamento com desconto
cinema em casa
som poderoso
Imperdível
Smartwatch barato