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Da cultura ao lucro: Carnaval de Salvador abandona tradição e consolida exploração do trabalho

Divulgação / Prefeitura de Salvador
Como a mercantilização transformou o Carnaval de Salvador em um produto e esvaziou sua identidade cultural  |   Bnews - Divulgação Divulgação / Prefeitura de Salvador
Cauan Borges

por Cauan Borges

cauan.borges@bnews.com.br

Publicado em 08/02/2026, às 07h00



Vendido ao mundo inteiro como a maior festa popular do planeta, o Carnaval de Salvador tornou-se, na prática, um dos exemplos mais acabados de como a mercantilização extrema pode esvaziar a cultura, apagar identidades e normalizar a exploração do trabalho.

O que antes era celebração coletiva, invenção popular e afirmação da famosa 'baianidade', atualmente, opera sob a lógica dura da indústria cultural, na qual a experiência é segmentada por classe social e o lucro se impõe como valor intransigente.

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A narrativa oficial, reproduzida por emissoras de TV, campanhas publicitárias e discursos institucionais, constrói um Carnaval de conto de fadas, um "outdoor" da cultura baiana. Mas, será mesmo? 

Cultura x lucro

Durante os festejos, as câmeras têm endereço nos camarotes luxuosos, blocos fechados e trios patrocinados por grandes marcas. O que fica fora desse enquadramento estatal é, justamente, aquilo que deu origem à festa, a pipoca. A ocupação democrática da rua e a mistura de corpos, sons e histórias sempre definiu o carnaval baiano. 

Porém, o povo, hoje empurrado para faixas cada vez mais estreitas e invisíveis do circuito, não é um detalhe marginal, é o coração histórico da festa. Foi ali, na ausência de cordas, abadás e credenciais VIP, que o carnaval se constituiu como espaço de invenção cultural e encontro social. Ao reduzir esse espaço, o poder público e os grandes empresários do entretenimento não estão apenas reorganizando o fluxo da festa, mas redefinindo quem tem direito à cidade e sob quais condições.

Esse processo não ocorre por acaso, ele é resultado direto de uma política urbana e cultural que transformou o carnaval em negócio. Prefeituras sucessivas passaram a tratar a festa como ativo econômico, justificando a privatização do espaço público em nome da geração de receitas, do turismo e do crescimento do comércio. Esses objetivos, em si, não são ilegítimos, já que, consequentemente, causa o avanço da cidade como centro comercial, ampliando os horizontes, mas a que custo?

O problema é o preço social e cultural pago por eles, sempre cobrado dos pobres, negros, trabalhadores informais e periféricos. Nesse cenário, chama atenção o abandono progressivo dos blocos afros, a espinha dorsal da identidade cultural do carnaval de Salvador. Ilê Aiyê, Olodum, Muzenza, Malê Debalê e tantos outros foram responsáveis por afirmar a negritude, internacionalizar ritmos, politizar a festa e disputar narrativas sobre quem somos enquanto povo. 

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Meio século de história da entidade será celebrado com o espetáculo Ilê Aiyê - Alfredo Filho / Secom / PMS

Hoje, sobrevivem com dificuldade, disputando migalhas de patrocínio e vagas no edital Ouro Negro, disponibilizado pela Secretaria Estadual de Cultura da Bahia (Secult), enquanto milhões são investidos em estruturas que reproduzem um carnaval pasteurizado, embranquecido e cada vez mais alinhado a padrões globais de entretenimento.

Não por acaso, Luiz Caldas, o chamado “Pai do Axé”, tornou-se um dos críticos mais contundentes desse modelo. Ao reconhecer seu próprio papel na abertura do carnaval às grandes gravadoras e ao capital, Caldas aponta para um dilema central: o axé nasceu como síntese democrática, mas foi capturado por uma engrenagem que concentra visibilidade em poucos artistas e esvazia a diversidade criativa da festa. Quando a música passa a obedecer mais à lógica do mercado do que à pulsação do povo, a cultura deixa de ser expressão e vira produto.

O Carnaval perde na essência para poder lucrar na parte financeira”, lamentou Caldas em entrevista à Terra Magazine em 2012.

Precarização do trabalho

Mas, talvez, nenhuma face desse carnaval mercantilizado seja tão brutal quanto a precarização do trabalho. Os “cordeiros”, trabalhadores responsáveis por segurar as cordas que privatizam as ruas, simbolizam de forma quase didática a permanência de estruturas escravocratas no Brasil contemporâneo. O paralelo com os liteireiros do período colonial não é retórico: trata-se de corpos negros e pobres usados como muros humanos para garantir o conforto de uma elite foliã.

Esses trabalhadores enfrentam jornadas extenuantes, ausência de direitos básicos, humilhações constantes e remunerações irrisórias. Receber cerca de 80 reais por seis horas de trabalho pesado, em meio ao calor, à violência e ao caos da festa, enquanto fantasias e camarotes custam milhares de reais, não é uma distorção ocasional, é projeto. É o capitalismo operando em sua forma mais crua, naturalizando a desigualdade e transformando a exploração em paisagem.

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Com barracas improvisadas e até colchões, ambulantes se preparam para a festa mais esperada do ano na Bahia | Paulo M. Azevedo / BNEWS

O mesmo vale para os ambulantes, que são autônomos, mas dependem da gestão pública e das marcas de cervejas que patrocinam o evento. A responsabilização da Ambev e da Prefeitura de Salvador pelo Ministério do Trabalho e Emprego, após a constatação de trabalho análogo à escravidão envolvendo mais de 300 vendedores no Carnaval de 2025, escancarou o que já era sabido, as grandes empresas não apenas patrocinam a festa, mas controlam diretamente a força de trabalho, impondo jornadas de até 20 horas, negando acesso à água, descanso e higiene. O Estado, longe de atuar como garantidor de direitos, aparece como facilitador desse modelo, concedendo exclusividades e fechando os olhos para abusos sistemáticos.

Reflexo do que foi apresentado, na última semana, durante a preparação para as festas deste ano, os trabalhadores acamparam em plena calçada na região do Morro do Gato, no bairro da Barra, para garantir um local “privilegiado” nas vendas no circuito. Em nota ao BNews, a Secretaria Municipal de Ordem Pública (SEMOP) afirmou que “os ambulantes foram devidamente orientados e advertidos de que o descumprimento das normas resultará na apreensão imediata do material e no descredenciamento para atuação nos eventos”. 

Assista:

Em entrevista, o secretário do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte (Setre) do estado da Bahia, Augusto Vasconcelos, direcionou a culpa da condição dos trabalhadores à gestão municipal, comandada por Bruno Reis, e afirmou que busca a melhora do processo trabalhista com a realização de projetos direcionados às categorias envolvidas

“Mesmo reconhecendo que a responsabilidade principal é da Prefeitura e dos patrocinadores do Carnaval que vendem bebidas, o Governo do Estado não cruza os braços. Adotamos o programa Corre Indecente, que visa implementar uma série de ações, especialmente para categorias que foram historicamente invisibilizadas ao longo da trajetória do Carnaval. Ambulantes, cordeiros, catadores de materiais recicláveis, mototaxistas e outras categorias contarão com pontos de apoio, de hidratação, espaço para banho, alimentação, kit e lanche, entre outras medidas que inclusive acontecerão no pós-Carnaval”, destacou Augusto, ao BNews.

A reportagem também entrou em contato com a Secretaria de Justiça e Direitos Humanos (SJDH), em busca de um pronunciamento acerca da atual situação dos trabalhadores e de uma possível ação que minimize a dor das pessoas que atuam durante os festejos, porém, não houve retorno.

Nada disso pode ser dissociado da formação histórica do Brasil, último país do mundo a abolir formalmente a escravidão. A precarização do trabalho não é um desvio do sistema, mas uma de suas engrenagens centrais. Quanto menos se paga, mais se acumula. Quanto mais vulnerável é o trabalhador, maior a margem de lucro. No Carnaval de Salvador, essa lógica se apresenta de forma escancarada, fantasiada de festa e alegria. 

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Ambev tem um contrato exclusivo com a prefeitura de Salvador | - Divulgação BNews

Ainda assim, não se trata de demonizar quem frequenta blocos ou camarotes, nem de propor um boicote moralista ao carnaval. O problema não está no folião individual, mas em um modelo que transforma cultura em mercadoria, rua em propriedade privada e trabalhador em descartável. Um modelo que avança ano após ano, reduzindo o espaço do povo e ampliando o poder do capital.

O resultado é um carnaval que continua grandioso, barulhento e rentável, mas cada vez mais distante daquilo que o tornou singular. Uma festa agradável, talvez, mas não mais popular. Não mais baiana em sua essência. Não mais expressão viva de um povo que, historicamente, transformou dor em ritmo, exclusão em invenção e desigualdade em luta. 

Resgatar o Carnaval de Salvador não é um exercício de nostalgia, mas uma disputa política. Passa por investimento real nos blocos afros, pela defesa do espaço público, pela valorização da pipoca e, sobretudo, pela garantia de trabalho digno para quem sustenta a festa com o próprio corpo. Sem isso, o carnaval seguirá crescendo em cifras e encolhendo em sentido.

E Salvador perderá, pouco a pouco, aquilo que nenhuma marca é capaz de comprar, que é a sua identidade.

*Texto reflete exclusivamente a opinião do colunista e não representa, necessariamente, a posição editorial do BNews. 

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