Cultura

"Vivendo do Ócio": Sem abandonar as raízes, banda baiana explora o rock alternativo há quase duas décadas em Salvador

Divulgação / Victoria Zacconi e Kevin Lino
"Vivendo do Ócio", a banda que representa o rock independente na Bahia, misturando influências locais e globais desde 2006  |   Bnews - Divulgação Divulgação / Victoria Zacconi e Kevin Lino
Cauan Borges

por Cauan Borges

cauan.borges@bnews.com.br

Publicado em 01/02/2026, às 08h00



Formada em Salvador no ano de 2006, a banda “Vivendo do Ócio" (VDO), criada pelo guitarrista e vocalista Jajá Cardoso com o baixista Luca Bori, construiu uma trajetória que ajuda a compreender a pluralidade do rock independente na Bahia.

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Em um estado historicamente associado a matrizes afro-brasileiras, o grupo soteropolitano se afirma dentro do indie-rock, do alternativo e do pós-punk sem romper com as raízes territoriais que o formou.

A banda fez da origem um eixo central de identidade do grupo musical. Como resume o vocalista Jajá Cardoso em entrevista exclusiva à coluna de cultura do BNews: “A gente ama ser baiano. Ser baiano pra gente nos dá a carta pra fazer o que a gente quiser com a nossa música”.

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Jajá Cardoso em entrevista à coluna de cultura do BNews - Foto: Cauan Borges / BNews

Ao longo de quase duas décadas, a banda baiana, que também conta com a presença de Davide Bori (guitarra e backing vocal) e Gabriel Burgos (bateria), atravessou transformações profundas no modo de produzir e difundir música, do Orkut e do MySpace às plataformas de streaming. Para Jajá, o processo não se trata de dificuldade, mas de adaptação. 

Eu acho que é uma mudança para todo mundo que é do meio musical. A gente tenta se adaptar, mas não deixa a nossa essência de lado para se enquadrar em condição nenhuma”, afirmou.

Essa postura ajudou a banda a manter uma relação direta com o público, além de um processo criativo que prioriza identificação e representação. A "Vivendo do Ócio" se tornou uma referência dentro de uma cena que ajuda a desmontar a ideia de que o rock baiano é deslocado de sua realidade. Pelo contrário, o movimento dialoga com referências globais e com o repertório vivido desde cedo. 

“Eu cresci tocando pandeiro, já toquei guitarra em banda de pagode. O swing não é à toa, reflete no nosso som de forma natural”, disse Jajá. A naturalidade descrita pelo vocalista se reflete em uma cena diversa, que inclui do instrumental ao experimental, do indie ao pós-punk, reafirmando Salvador como um polo criativo plural.

Criação da banda

A Vivendo do Ócio nasce do encontro entre Jajá Cardoso e Luca Bori no bairro do Santo Antônio Além do Carmo, na capital baiana, em 2006. Antes disso, ambos circulavam por bandas de hardcore e outros projetos musicais pela cidade, compartilhando equipamentos e referências. Inclusive, a sua primeira experiência com banda foi em uma de pagode quando ainda era adolescente, o que demonstra uma versatilidade com o instrumento.

“Desde moleque eu fui criado lá no Santo Antônio. Eu sempre tive minhas bandas e o Luca sempre teve as bandas dele. A gente trocava equipamento, fita de videogame, essas coisas”, relembrou Jajá.

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Diego (primeiro baterista), Davide, Jajá e Luca - Foto: Rafael Kent

Quando as tentativas de grupos musicais anteriores se encerraram, Jajá passou a compor canções com mais frequência, influenciado pelo pós-punk e pelo indie que ganhava projeção nos anos 2000. Posteriormente, a decisão de criar um novo projeto veio da vontade de tocar aquilo que estavam ouvindo naquele momento.

Eu tava ouvindo muito as bandas do pós-punk e as bandas novas que estavam fazendo sucesso. The Strokes, Arctic Monkeys, e as bandas antigas, Gang of Four e The Jam, que são os pais desse estilo”, contou. 

A formação inicial se pensou como um power trio, mas logo ganhou uma segunda guitarra com a entrada de Davide Bori. A primeira música lançada que trouxe aquele “boom” foi a faixa “É Melhor Pensar Duas Vezes" (2006), que entraria no disco de estreia “Nem Sempre Tão Normal” (2009), divulgada em plataformas como o PureVolume.

Após a gravação e o lançamento da música, a resposta que os artistas almejavam foi quase que imediata, ao abrir um show da famosa banda de rock 'emo' brasileira, Fresno, na orla de Salvador: “Quando a gente entrou no palco e tocou essa música pela primeira vez ao vivo, na nossa 'pré-estreia', percebemos as pessoas cantando. A gente tinha lançado na internet a algumas semanas e percebemos que tinha algo acontecendo ali”, recordou.

Assista:

Em 2008, a banda gravou uma demo com Glauco Neves, músico e profissional audiovisual baiano conhecido por sua atuação como baterista em bandas da cena rock de Salvador, e passou a ocupar todos os espaços possíveis na capital baiana: “A gente tocou em todos os lugares possíveis. O Boomerangue também foi muito importante pra formar público, era um dos melhores espaços da época”, afirmou Jajá. 

Sem redes sociais estruturadas, o crescimento vinha do boca a boca, do jornal impresso e das comunidades virtuais da época. No mesmo período, a banda venceu um concurso do Guaraná Antarctica, que rendeu um contrato com a gravadora e abriu caminho para a mudança para São Paulo.

A ida para a capital paulista, inicialmente planejada para alguns meses, se estendeu por anos: “Essa vida em São Paulo foi fundamental pra gente. Muitas vezes a gente estava no lugar certo, na hora certa, com as pessoas certas”, diz. Mesmo com gravadora, o grupo manteve a autonomia, tendo liberdade de criação e ampliando suas ideias. 

A gente ralou pra caramba. Funcionava como um escritório. Cada um cuidava de uma coisa, imprensa, shows, contatos”, relatou. 

Ao longo desse percurso, a "Vivendo do Ócio" circulou por centenas de cidades brasileiras, participando de festivais do Norte ao Sul do Brasil. Além disso, o grupo também construiu uma turnê na Europa em países como Inglaterra – quando participou do "Brazilian Day", em Londres, e tocou no famoso pub "The Dublin Castle", onde artistas como Arctic Monkeys, B.B King e Amy Winehouse também passaram. E Holanda, quando realizou um show em um clube de surf em Den Haag (Haia), cidade localizada na costa dos Países Baixos.

Além disso, a banda conquistou diversos prêmios durante o processo de amadurecimento e crescimento, como o Palm Springs International Animation Festival, na Califórnia, e o prêmio Aposta MTV do Video Music Brasil (VMB). Com isso, a VDO consolidou uma identidade reconhecível em vários cantos do mundo, tanto pelos timbres das guitarras, como da voz de Jajá.

Com o tempo, a nossa identidade foi ficando mais forte. Hoje as pessoas ouvem e sabem que é a Vivendo do Ócio”, resumiu o vocalista.
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Premiação MVB 2009 - Show da banda no Brazilian Day de Londres / Fotos: Marcos Issa - Fabrizio Bori

“Hasta La Bahia”

Lançado em 19 de setembro de 2025 em todas as plataformas digitais, “Hasta La Bahia" marca um retorno simbólico da banda. Produzido por André T e gravado integralmente em Salvador, o quinto álbum de estúdio inaugura um novo capítulo após mais de uma década em São Paulo. Para Jajá, o conceito do disco nasce de um sentimento objetivo. 

“A andorinha sempre volta pra casa. A capa representa esse retorno às nossas origens, a nossa terra”, explicou, referindo-se à arte do disco, ilustrada pelo vocalista e finalizada em parceria com Victoria Zacconi e Luca Bori.

Com oito faixas, o álbum traduz a maturidade do grupo em uma sonoridade plural, onde o rock alternativo se expande para o funk, o soul e a disco music, além de abraçar conceitos abstratos que apenas um compositor e musicista baiano pode traduzir. O processo de criação, segundo Jajá, foi intuitivo.

“A gente foca em música por música e fazemos uma lista de pré-produção extensa, muito mais do que entra no disco e no final vemo as que mais se conectam umas com as outras”, afirmou. 

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Algumas canções foram resgatadas de períodos antigos, como “Se Me Deixar Eu Vou Lá", composta há mais de 15 anos e retrabalhada para o novo contexto. O disco reúne colaborações que ampliam o repertório afetivo da banda. "Baila Comigo", parceria com Paulo Miklos, ex-vocalista do Titãs, surgiu com a chegada do baterista Gabriel Burgos: “Ele trouxe muito groove pra banda. Já chegou com o pé quente”, brincou Jajá. 

Um fato curioso acerca do novo disco é que a canção “Não Tem Nenhum Segredo” nasceu de um sonho do compositor: “Acordei com o refrão pronto e gravei no celular”, contou Jajá, antes de convidar o cantor e compositor Ronei Jorge e dividir os vocais com a produtora musical Jadsa. 

O encerramento com a canção "Vai Voar", composição de Luca Bori, baixista e vocal da banda, que conta com arranjo de cordas da Orquestra Sinfônica da Bahia, foi um dos momentos mais marcantes do processo: “Foi mágico. Ver os músicos gravando, participar disso tudo, foi maravilhoso”, relatou Jajá, que também destacou a experiência de levar parte da orquestra para o show de lançamento no Centro Histórico de Salvador, no Pelourinho, em dezembro do ano passado.

Em um cenário que ainda enfrenta limitações de estrutura e apoio, a banda permanece como referência de continuidade, identidade e liberdade criativa dentro da cena indie, alternativa e pós-punk da Bahia.

O trabalho "Hasta La Bahia" funciona como um elo entre gerações da música alternativa baiana e não apenas simboliza o retorno ao lar, mas reforça a ideia de pertencimento que atravessa toda a trajetória do grupo. 

“Vamos sempre falar da nossa terra. Não tem como ignorar isso, está enraizado nas nossas influências musicais e em nós como pessoa”, completou Jajá.

Escute ao álbum:

Classificação Indicativa: Livre

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