Artigo
Quem nunca tirou um tempo do dia para assistir uma produção sul-coreana? Os doramas deixaram de ser um consumo de nicho para se tornarem um dos fenômenos culturais mais marcantes do Brasil na era do streaming. O audiovisual do leste asiático ocupa o topo dos catálogos, dominam conversas nas redes sociais e influenciam hábitos de consumo, linguagem e até projetos de vida.
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Há mérito nisso, muitos desses títulos, como "Goblin" (2016), "Melancia Cintilante" (2023), "Tudo Bem Não Ser Normal" (2020) e "O Príncipe do Café" (2007), "Vinte Cinco, Vinte Um (2022)", demonstram qualidade técnica, uma notável capacidade de construir mundos a partir do poder imagético e narrativas que apostam no apelo emotivo, no romance ‘brega’ e em relações interpessoais como motor principal, sem abandonar o primor cenográfico na fomentação da ideia do autor em tela, mesmo que, em diversos momentos, seja transmitido um olhar polido e pouco provocativo.
Contudo, como todo fenômeno massivo em uma sociedade capitalista, o sucesso vem acompanhado de distorções, fetiches e idealizações perigosas. Entre o conforto emocional e a fantasia vendida como realidade, é preciso olhar para os dramas asiáticos com menos encantamento cego e mais senso crítico.
O problema de "Meu Namorado Coreano"
O mais recente reality da Netflix, "Meu Namorado Coreano" (2026), que leva cinco brasileiras à Coreia do Sul “em busca do amor”, é um exemplo ‘perfeito’ da problemática que o mundo dos doramas carrega. Antes mesmo de apertar o play na série, já é possível antever o conflito. Não se trata apenas de um programa mal resolvido, trata-se da materialização de um imaginário construído há anos pela indústria cultural. Não existem realities em que mulheres viajam em massa à Alemanha, à Bolívia ou à Tailândia para “caçar” um namorado. Com a Coreia do Sul, existe. E isso diz muito.
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A ideia do reality não surge do nada. Ele é fruto direto da romantização vendida pelos k-dramas, com homens sensíveis, emocionalmente disponíveis, impecavelmente educados e prontos para um amor ideal, mesmo que, de forma estruturada, a culpa em si não está totalmente ligada às produções, mas sim na forma como o público reage à ficção em tela. O problema é que essa imagem não apenas ignora as contradições sociais do país, como também transforma homens coreanos em objeto de desejo fetichizado, um caso clássico do que se chama de "yellow fever", a redução de sujeitos à sua etnia como fantasia erótica.
Esse processo não é novo, ele apenas se remodelou. Nos anos 2000, com o ‘boom’ dos animes e mangás, surgiu o termo racista “maria-hashi”, usado para rotular mulheres que “preferiam” homens asiáticos tratados como um bloco homogêneo.
Hoje, o foco migrou para a Coreia do Sul, impulsionado pelo estereótipo masculino dos doramas. Uma construção tão irreal que nem as próprias mulheres coreanas o sustentam. Prova disso é o crescimento do movimento 4B, no qual mulheres sul-coreanas defendem não namorar, não casar, não ter relações sexuais nem filhos com homens, em resposta à misoginia estrutural e à violência de gênero no país.
O entretenimento, aqui, deixa de ser inocente, até porque, o maior interesse é o acúmulo de capital ao explorar a visão limitada e o desejo dos espectadores. Ao vender e ilustrar a Coreia como cenário de conto de fadas romântico e polo sexual, "Meu Namorado Coreano" não apenas reforça expectativas irreais para mulheres brasileiras, como também ignora uma realidade social marcada pelo machismo, pela pressão estética extrema e pela desvalorização das mulheres. Além disso, o programa é pobre visualmente, não há estímulo narrativo, com uma edição truncada que parece não saber o que quer mostrar.
Eu assisti 1 episódio e meio do reality da netflix "meu namorado coreano", e a sensação que eu tenho é de que é só mais um roteiro de novela vertical de tiktok, tudo narrado artificialmente, as atuações terríveis e nada verdadeiras. Mas que por alguma razão acharam bacana! pic.twitter.com/pQ56B0V22L
— Doramas Brasil (@doramabra) January 2, 2026
A Onda Coreana e o retorno do melodrama
Seria injusto, no entanto, reduzir o fenômeno dos doramas apenas aos seus efeitos colaterais. A força dessas produções está diretamente ligada à "Hallyu", a chamada Onda Coreana, que desde o fim dos anos 1990 vem expandindo a cultura pop sul-coreana para além de suas fronteiras, impulsionada pelo K-pop, pela gastronomia, pela moda e, mais recentemente, pelos streamings.
Pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), reunidos no Núcleo de Estudos em Teledramaturgia (Neta), apontam que o sucesso dos doramas no Brasil dialoga profundamente com a nossa própria tradição melodramática. Em pesquisa divulgada, Diego Oliveira, coordenador do grupo, destaca que “o dorama resgata o essencial da telenovela, que é o melodrama, o drama em excesso, algo do qual fomos nos afastando com o tempo”.
Na era do streaming, essas narrativas unem o velho e o novo, com histórias emotivas, temporadas fechadas, episódios longos e um ritmo que favorece o consumo contínuo. Em contraste com o naturalismo violento e urbano que marcou parte da teledramaturgia recente, os doramas oferecem uma premissa de delicadeza, afeto e escapismo, algo que se tornou ainda mais desejado no pós-pandemia.
Tendo como base as informações apresentadas, os números confirmam o impacto. Um levantamento da Ecglobal indica que quase 90% dos brasileiros consomem k-dramas, muitos deles semanalmente, com preferência clara pela Netflix. Mais do que uma tendência, trata-se de uma mudança no modo de sentir e consumir narrativas. Como resume o pesquisador Marcelo Augusto Lopes, da UFRJ, o público parece buscar “um reencontro com a emoção, com aquilo que a teledramaturgia sempre teve de mais humano”.
Olhar do 'Doramática' e dos jovens espectadores
É justamente nesse ponto que entra a importância e relevância de iniciativas como o portal e perfil "Doramática Doramas", criado pela fluminense Alice Rodrigues, de 25 anos, e pela maranhense Brenda Mendes, de 26 anos. Para as administradoras da página, o consumo de doramas vai muito além do entretenimento trivial, mas exige responsabilidade crítica. O contato constante com essas narrativas influenciou trajetórias pessoais e profissionais, transformando um hobby em espaço de reflexão, escrita e diálogo com o público.
#DDNews
— Doramática Doramas (@doramatica_d) January 4, 2026
Uma thread das principais notícias de produções asiáticas divulgadas na última semana;
📍Do dia 29 de dezembro de 2025 ao dia 04 de janeiro de 2026 pic.twitter.com/1CVJzW1FrU
Alice destaca que as produções de TV sul-coreanas moldaram seu olhar sensível para narrativas e reforçaram sua escolha pelo jornalismo, enquanto Brenda aponta o impacto direto na construção de sua escrita e na criação de laços afetivos e comunitários. Ambas observam que o público brasileiro passou a enxergar os doramas como identidade cultural, ao ampliar interesses por idiomas, literatura e costumes asiáticos.
"O interesse pelos doramas pode reforçar estereótipos e gerar idealizações extremas. Para determinadas pessoas, as produções passam a alimentar a construção de uma imagem idealizada da Coreia do Sul como um “país perfeito” ou a romantização excessiva de relacionamentos, especialmente com homens coreanos, cuja imagem é moldada a partir de experiências ficcionais", comentou Brenda.
Entretanto, como dito anteriormente, o crescimento vem acompanhado de riscos. Segundo elas, a idealização excessiva da Coreia do Sul e dos relacionamentos pode gerar frustrações profundas, além de reforçar estereótipos e comportamentos problemáticos, como a cobrança desproporcional sobre atrizes e a romantização de relações irreais.
"O consumo ampliado traz questões delicadas como o fato de que a popularização dos doramas também favorece processos de idealização e construção de imagens irreais, tanto sobre os países asiáticos quanto sobre os relacionamentos e as figuras públicas. É comum notar um sentimento de posse em relação aos atores, principalmente uma cobrança maior sobre as atrizes, que são frequentemente mais criticadas quando não correspondem às expectativas criadas pelos fãs. A fantasia pode ultrapassar os limites da ficção”, alerta Alice.
Estamos de cara nova!
— Doramática Doramas (@doramatica_d) January 1, 2026
Um ano novo sempre pede mudanças, e às vezes, pede também coragem para virar a página. ✨️
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Essa ambiguidade nas narrativas também aparece na fala de jovens espectadores brasileiros. Estudantes como Íris Mesquita, de 21 anos, reconhecem o potencial positivo dos dramas televisivos sul-coreanos, tanto na dramaturgia quanto no entretenimento, ao estimular empatia, cuidado e reflexão emocional.
"Os doramas, em geral, costumam influenciar na importância da empatia, da escuta e do cuidado com o outro, isso se mostra bastante presente em suas narrativas, em vista que os gestos simples, atenção aos detalhes emocionais e o respeito ao tempo do outro, o que pode levar quem assiste a refletir mais sobre seus próprios sentimentos e os das pessoas ao redor", destacou Íris.
Ao mesmo tempo, apontam o perigo de tomar essas histórias como modelo absoluto de vida. Já Ailana Felix, de 20 anos, resume bem o dilema: "Se o telespectador não tiver visão mais realista, pode criar expectativas em coisas que não são possíveis de acontecer e em impacto positivo, o telespectador pode se inspirar em algo que seja construtivo e real."
No fim, os doramas são obras de espelho e projeção, ao construírem mundos belíssimos, emocionalmente envolventes e tecnicamente sofisticados. Porém, também vendem fantasias que, quando consumidas sem crítica, distorcem realidades sociais teoricamente complexas, especialmente no que diz respeito ao romance, ao gênero e à própria 'pseudo-perfeição' da Coreia do Sul.
Gostar de doramas não é o problema, o imbróglio é confundir afeto com fetiche e narrativa fictícia como verdade absoluta. O desafio, talvez, seja aprender a sentir sem deixar de pensar.
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