Cultura

Na corrida pelo Globo de Ouro, Wagner Moura combate o 'vira-latismo' e transforma Bahia e Pernambuco em protagonistas do cinema global

Divulgação / Victor Juca
Wagner Moura e Kleber Mendonça Filho são a Bahia e Pernambuco no Globo de Ouro, para o desespero de muitos, mas não de todos  |   Bnews - Divulgação Divulgação / Victor Juca
Cauan Borges

por Cauan Borges

cauan.borges@bnews.com.br

Publicado em 11/01/2026, às 08h00 - Atualizado às 10h00



Com o ator baiano Wagner Moura e o diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho no ‘fronte’, o cinema brasileiro, representado por “O Agente Secreto” (2025), chega à cerimônia do Globo de Ouro, neste domingo (11), em um momento simbólico da sétima arte nacional, com as indicações em Melhor Filme de Drama, Melhor Filme Internacional e Melhor Ator em Filme de Drama.

A presença de produções tupiniquins e de nomes como Wagner e Kleber no circuito internacional, mais do que disputar prêmios, contribui para o desmonte de um discurso de 'vira-latismo' recorrente no Brasil, especialmente quando os cidadãos que se dizem “patriotas” rejeitam a própria cultura e o cinema feito dentro do território brasileiro.

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Wagner Moura em "O Agente Secreto", de Kleber Mendonça Filho - Divulgação / Vitrine Filmes

Enquanto esse argumento superficial insiste em tratar o audiovisual do Brasil como algo menor e simplório, os números e o reconhecimento dos longa-metragens mostram o contrário. “Ainda Estou Aqui”, dirigido por Walter Salles, tornou-se um dos maiores sucessos recentes do cinema nacional, com bilheteria superior a R$ 200 milhões mundialmente, e cerca de 6 milhões de espectadores nos cinemas brasileiros, segundo informações da Revista Veja. 

O desempenho colocou o filme, ganhador do Oscar de Melhor Filme Internacional no ano passado, entre as maiores arrecadações da história do país, e deram um ‘tapa na cara’ das pessoas que afirmaram, por anos, que obras comprometidas com a memória política e social não dialogam com o grande público.

A atriz Fernanda Torres, vencedora do Globo de Ouro, indicada ao reluzente de ouro da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas Americana e protagonista do longa de Walter, não apenas utilizou os dois pés, como também deu um golpe na 'boca' do estômago dos espectadores com sua performance.

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O mesmo vale para “O Agente Secreto”, novo filme de Mendonça Filho, que estreou em 2025, ao arrecadar cerca de R$ 6,6 milhões no primeiro fim de semana após o lançamento, além de ter ultrapassado a marca de 1 milhão de ingressos vendidos, tornando-se o filme nacional com a maior bilheteria nas telonas brasileiras no ano, de acordo com dados da Comscore. 

Em um mercado historicamente dominado por produções estrangeiras, em que os filmes de Hollywood dominam as salas de cinema, o resultado não só reforça a vitalidade dos longas nacionais quando encontram espaço para circular, como também fundamenta a ideia de que, quando há oportunidade, investimento e liberdade criativa, a arte prospera.

Apesar dos números, é importante frisar que a qualidade da indústria cinematográfica nacional está longe de ser definida apenas por meio dos dados de bilheteria. No entanto, é fundamental a apresentação dos fatos quantitativos como instrumentos de explicação do poder e potencial expansivo da nossa sétima arte.

‘O Baiano Tem o Molho’

No centro desse movimento está Wagner Maniçoba de Moura, premiado em Cannes e, agora, cotado para vencer a categoria de atuação masculina em filme de drama no Globo de Ouro. O ‘molho’ do baiano vai muito além da sua capacidade dramática nas telonas.

No dia 10 de dezembro de 2025, Wagner se posicionou contra o chamado PL do Streaming (Projeto de Lei 8.889/2017), ao criticar a proposta por enfraquecer a produção nacional e favorecer grandes plataformas estrangeiras. Na crítica, o ator aponta fragilidades centrais no texto da proposta. 

Segundo o baiano, o projeto falha ao não assegurar mecanismos robustos de estímulo à produção independente nacional. Um dos principais alvos do parecer é a alíquota de cerca de 4% sobre o faturamento das plataformas estrangeiras. Para Moura, o percentual é baixo diante do porte e da influência dessas empresas no mercado brasileiro.

Logo após os comentários do artista, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva editou, durante o Natal, um decreto que estabelece cota de tela e garante espaço para filmes brasileiros no circuito comercial, uma medida fundamental para que obras com orçamentos inferiores em comparação com "Ainda Estou Aqui" e "O Agente Secreto" cheguem ao público geral.

Como figura pública atuante no cenário político e cultural dos Estados Unidos, onde vive e constrói carreira ao lado de sua companheira de longa data, a fotógrafa Sandra Delgado, Wagner assume também o papel de contraponto a uma ideologia que busca apagar as nuances das identidades latinas, especialmente a brasileira.

Em entrevista ao The Hollywood Reporter durante a campanha internacional de "O Agente Secreto", o ator afirmou que jamais renunciará ao seu sotaque baiano para atuar no país governado pelo republicano Donald Trump, cuja retórica repugnante rejeita de forma contundente a presença de imigrantes.

Durante a conversa, Moura enfatizou que sempre se sentiu “muito brasileiro” e acredita que essa característica é justamente o que o diferencia em Hollywood. Segundo o ator, sua origem e sua cultura fazem parte do que ele leva para cada trabalho, ao representar milhões de pessoas que vivem nos EUA e se expressam com seus respectivos sotaques nativos.

Wagner também declarou que nunca compreendeu colegas que tentam eliminar o próprio jeito de falar e contou que, ao chegar ao país norte-americano, era frequentemente questionado sobre a possibilidade de interpretar personagens com sotaque americano e sempre respondia da mesma forma: “Não”.

Memória e identidade na obra de Mendonça Filho

Em “O Agente Secreto", o baiano vive Marcelo, um homem que atravessa cidades, instituições e identidades provisórias enquanto foge da perseguição da ditadura e tenta proteger o filho. O filme organiza essa trajetória como uma sucessão de deslocamentos físicos e emocionais, misturando suspense, humor absurdo, terror e ação sem perder o eixo humano da narrativa.

Kleber Mendonça Filho retoma um interesse já presente em "Retratos Fantasmas” (2023), mas agora dentro da ficção. Se no documentário o diretor observava as salas de cinema como espaços de afeto e memória, em seu novo longa, o próprio ato de filmar surge como uma forma de enfrentar o passado traumático do país. Pernambuco deixa de ser cenário e passa a ser linguagem, assim como a Bahia se afirma na presença de Wagner como figura simbólica, ao conectar territórios historicamente marginalizados a um cinema de alcance global.

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Kleber Mendonça Filho e Wagner Moura juntos em Salvador / Divulgação

Quando o Globo de Ouro for entregue neste domingo, independentemente do vencedor, o que estará em jogo vai além de estatuetas. Trata-se de afirmar que o cinema brasileiro tem público, impacto econômico e relevância ideológica, além de ter um escopo criativo incontável.

Os números desmentem o desprezo disfarçado de patriotismo, carregado de um conservadorismo doentio. Amar o Brasil passa, necessariamente, por reconhecer a força de sua cultura, de suas histórias e de um cinema que insiste em olhar para o passado e para o presente sem pedir permissão, ao tocar em feridas geracionais, mas também entretendo e cultivando a criatividade fictícia.

Classificação Indicativa: Livre

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