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Uma disputa simbólica que já vinha se desenhando nos últimos anos durante o Carnaval de Salvador confirmou-se em 2026. De um lado, a força estética e política da pipoca, de outro, a consolidação de um pop formatado para a engrenagem da indústria. Nesse cenário, a multidão que acompanhou o BaianaSystem nos circuitos Barra-Ondina e Campo Grande reafirmou que ainda existe espaço para identidade e risco no maior carnaval de rua do planeta.
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A banda, comandada por Russo Passapusso, saiu com sua pipoca nos dias centrais da festa, em ambos os circuitos da capital, arrastando milhares de foliões sem a mediação das cordas. Como de costume, navegando o Navio Pirata, o repertório foi um manifesto sonoro. “Lucro (Descomprimindo)” ecoou como síntese de uma crítica social que dialoga com o próprio modelo mercantil da festa.
Sem contar com o apoteótico “Sulamericano”, que reafirmou o lugar da Bahia dentro de uma cartografia cultural mais ampla, conectando periferias globais através do grave, do dub, do samba-reggae e da guitarra baiana. A potência da pipoca não se explica apenas pelo volume de público presente nas ruas, semelhante ao que o cantor Igor Kannário executa há anos na cidade, mas também na sustentação na construção de linguagem.
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O grupo articula referências afro-baianas, eletrônica, cultura sound system e discurso político sem diluir a complexidade para caber em fórmulas fáceis. Mesmo diante da polêmica sobre apresentações em camarotes, o que poderia tensionar a imagem de um projeto associado à rua, a resposta popular foi inequívoca. A massa continuou seguindo o trio, sendo o espaço de consagração. Abraçando o ‘inimigo’, é possível usá-lo a seu favor.
As controvérsias e o incômodo revelam uma ideia importante. A contradição existe, mas não anula o capital simbólico acumulado. O BaianaSystem consegue transitar por estruturas comerciais sem perder completamente o vínculo com a base que o sustenta. Os prêmios conquistados no Grammy Latino com o álbum mais recente do grupo, “O Mundo Dá Voltas”, exemplificam esse processo.
Há cálculo estratégico, mas há sobretudo densidade estética. A indústria pode absorver, mas não consegue esvaziar por completo.
No polo oposto dessa equação está Pedro Sampaio, presença no circuito Dodô (Barra-Ondina) e também na Torre Beats, no Farol da Barra. Dono de hits como “JETSKI”, ao lado da estrela em ascensão Melody, o DJ representa uma engrenagem afinada com as lógicas de viralização, refrões imediatos e produção pensada para plataformas digitais, o mérito do produtor é evidente, Sampaio compreende o funcionamento do mercado, domina o ‘timing’ das redes e sabe converter polêmica em engajamento ao nadar na corrente da indústria.
Mesmo após as acusações de plágio com sua música, que tem sido frequentemente comparada ao som icônico "Somebody's Watching Me", do cantor americano Rockwell, Pedro abraça a ideia e sequer desmente o processo, apenas 'segue o baile'.
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Vale destacar que, o problema não é a popularidade ou a simplicidade fonética, mas a limitação de escopo, a sonoridade aposta na repetição de fórmulas já consolidadas no funk pop eletrônico, com pouca expansão temática ou estética.
O espetáculo funciona como produto eficiente, mas raramente ultrapassa o território do entretenimento imediato. Não há erro técnico ou artístico nisso, porém, existe um horizonte restrito. O clipe de “JETSKI”, por exemplo, carregado do estereótipo das periferias brasileiras, em uma música que aborda uma moto aquática. Meio irônico, não?
Enquanto a pipoca do BaianaSystem tensiona a própria estrutura do carnaval ao ocupar a rua com discurso e experimentação, Pedro Sampaio opera confortavelmente dentro do modelo já estabelecido, fruto bem-acabado (ou nem tanto) de uma lógica que transforma o Carnaval em vitrine de streaming. O grupo baiano, ao contrário, tensiona essa lógica ao inserir camadas culturais que escapam ao consumo rápido.
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Salvador, como qualquer palco artístico, continua sendo o palanque de duas forças coexistentes, a do produto e a da proposta. Pedro Sampaio cumpre seu papel como engrenagem eficiente de uma indústria que exige hits instantâneos. O BaianaSystem amplia o campo de possibilidades ao insistir que a música de carnaval pode ser uma construção coletiva e um produto rentável ao mesmo tempo.
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