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Organizado pelo Academy Awards, o Oscar ocupa um lugar singular na cultura contemporânea. Para uma parcela do público, representa a consagração máxima da indústria cinematográfica. Para outra, é antes de tudo um grande evento midiático, capaz de transformar obras em disputas narrativas e artistas em personagens de uma temporada de premiações.
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A cerimônia, transmitida globalmente e acompanhada por milhões de espectadores, neste domingo (15), funciona como uma vitrine de visibilidade e como um termômetro da indústria cultural. No entanto, confundir esse palco com um sinônimo absoluto de qualidade fílmica é ignorar que o cinema, enquanto linguagem e enquanto indústria, se constrói em processos muito mais longos e complexos do que uma única noite de gala.
É nesse contexto que a trajetória de Wagner Maniçoba Moura, indicado à categoria de Melhor Ator por sua performance no longa “O Agente Secreto” (2025), de Kleber Mendonça Filho, ajuda a iluminar uma discussão mais ampla. A presença do ator em produções que circulam internacionalmente e que participam do circuito de festivais inevitavelmente o aproxima do universo das premiações.
Entretanto, sua importância para o cinema brasileiro e para o audiovisual contemporâneo não se explica apenas por essa proximidade. Ao longo de mais de duas décadas, Moura construiu uma carreira que atravessa linguagens, territórios e diferentes momentos da cultura audiovisual brasileira.
Embora seja frequentemente tratado como a maior premiação do cinema, o Academy Awards funciona, sobretudo, como um mecanismo de visibilidade dentro da indústria da sétima arte. A importância do reluzente de ouro está menos na capacidade de definir o que é ou não um grande filme e mais no poder de amplificar obras e artistas dentro de um circuito global de distribuição, imprensa e mercado.
Essa dinâmica não é exclusiva do cinema. Assim como a Copa do Mundo mobiliza narrativas nacionais no futebol, o Oscar organiza narrativas de prestígio dentro do audiovisual. Filmes são convertidos em concorrentes, campanhas de divulgação moldam percepções críticas e estúdios disputam a atenção pública. O resultado é um espetáculo que mistura arte, mercado e política cultural.
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Ao mesmo tempo, a história do cinema mundial mostra que inúmeras obras fundamentais jamais passaram pelo palco da premiação. Movimentos inteiros, do neorrealismo italiano, com cineastas como Roberto Rossellini, Vittorio De Sica e Luchino Visconti, ao cinema novo latino-americano, exemplificado pelos diretores Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, Ruy Guerra, Santiago Álvarez, e Jorge Sanjinés, consolidaram sua relevância muito além do circuito de Hollywood.
Resumidamente, o reconhecimento crítico, a influência estética e o impacto cultural raramente se resumem a um troféu.
Continuo fechado com minhas posições de um cinema terceiro-mundista. Um cinema independente do ponto-de-vista econômico e artístico, que não deixe a criatividade estética desaparecer em nome de uma objetividade comercial e de um imediatismo político" - Glauber Rocha, cineasta baiano.
Glauber Rocha estaria completando 87 anos hoje. pic.twitter.com/KWlHIt92FQ
— CINEMA 505 (@CINEMA505) March 14, 2026
Durante muito tempo, a imagem pública de Wagner Moura esteve associada a um personagem específico. Trata-se do Capitão Nascimento, protagonista de “Tropa de Elite”, do controverso diretor José Padilha.
O filme marcou profundamente a cultura popular brasileira e se tornou um dos maiores fenômenos de público do cinema nacional. Seu impacto foi ampliado com “Tropa de Elite 2”, que ultrapassou a marca de 11 milhões de espectadores e se tornou um dos maiores sucessos de bilheteria da história do país.
No entanto, reduzir Moura a esse papel seria ignorar a amplitude de sua trajetória. Antes e depois do fenômeno de Tropa de Elite, o ator transitou entre teatro, televisão e cinema, construindo uma carreira que acompanha as transformações do audiovisual brasileiro desde o início dos anos 2000.
Com o tempo, seu trabalho passou a dialogar também com produções internacionais e com o circuito de festivais. Esse movimento não representou uma ruptura com o cinema brasileiro, mas uma expansão de sua presença. Moura passou a atuar como um elo entre diferentes circuitos culturais, levando consigo uma trajetória que nasceu no teatro e na televisão nacional.
Confira os filmes favoritos com Wagner Moura da coluna:
A discussão sobre reconhecimento internacional frequentemente ignora um elemento essencial: a estrutura que sustenta a produção cinematográfica no Brasil. Muito antes de qualquer expectativa em torno do Oscar, o cinema brasileiro foi moldado por um conjunto de políticas públicas, instituições e mobilizações de classe.
Entre os instrumentos legislativos fundamentais estão a Lei Sarney (1986), primeiro mecanismo de incentivo fiscal à cultura; a Lei Rouanet (1991), que instituiu o Programa Nacional de Apoio à Cultura; e a Lei do Audiovisual (1993), que se tornou um dos principais pilares de financiamento do cinema independente após a chamada Retomada do cinema brasileiro.
O arcabouço institucional comentado foi ampliado com a criação da Agência Nacional do Cinema (ANCINE) no início dos anos 2000, com o Fundo Setorial do Audiovisual e com políticas de regulação do mercado televisivo que ampliaram o espaço para produções nacionais.
Além das políticas públicas, instituições como o Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual e a Cinemateca Brasileira desempenham papéis fundamentais na organização de dados, preservação da memória e consolidação de uma cultura cinematográfica no país. O resultado desse conjunto de iniciativas foi a construção gradual de uma indústria capaz de produzir, distribuir e sustentar narrativas próprias. No entanto, ainda há muito o que melhorar.
Descentralização do cinema brasileiro
Nos últimos anos, um dos fenômenos mais relevantes do audiovisual brasileiro foi a descentralização da produção cinematográfica, mas também entre os títulos confeccionados para a TV (plataformas de streamings). Durante décadas, o cinema nacional esteve fortemente concentrado no eixo Rio–São Paulo.
A expansão de políticas culturais e de circuitos de produção permitiu o surgimento de novos polos criativos em diferentes regiões do país. Cidades como Recife, Belo Horizonte, Porto Alegre e Brasília passaram a sediar festivais e a abrigar coletivos de produção. Essa mudança ampliou o repertório de histórias e trouxe novas perspectivas regionais para o cinema brasileiro.
Dentro deste cenário, “O Agente Secreto" se tornou um exemplo emblemático do processo citado anteriormente. Filmado majoritariamente em Recife, o longa tornou-se o primeiro filme brasileiro produzido fora do eixo Sul-Sudeste a atingir a marca de um milhão de espectadores em apenas seis semanas de exibição. Mais do que um sucesso de público, o filme simboliza a consolidação de um cinema brasileiro plural, capaz de dialogar com diferentes territórios e públicos.
A grande questão para mim é que o Brasil foi montado errado. Toda a riqueza ficou concentrada numa região só. Isso explica muitos dos problemas do país. Tudo ficou muito concentrado no Sudeste e no Sul. Raramente houve uma alteração de curso para isso. Acho que nos governos Lula já começou a ter alguma alteração de curso em relação a isso. Mas ainda há uma reação muito forte à ideia", afirmou o Kleber Mendonça Filho, em entrevista à Folha de SP, ao abordar a centralização do filmes brasileiro.
Brasil foi montado errado, diz Kleber Mendonça, que traz novos temas em longahttps://t.co/lFnw0m9bXx
— Folha de S.Paulo (@folha) September 13, 2025
A descentralização geográfica também veio acompanhada de uma ampliação temática e estética nas produções audiovisuais brasileiras. Séries como "Cangaço Novo" (2023), dirigida por Fábio Mendonça e Aly Muritiba, gravada majoritariamente no Nordeste, evidenciam como narrativas ambientadas fora do eixo Rio–São Paulo passaram a ganhar destaque ao explorar realidades regionais, dinâmicas sociais próprias e novos imaginários sobre o interior do país.
Esse movimento abriu espaço para produções que dialogam diretamente com territórios e culturas locais, incorporando paisagens, sotaques e conflitos específicos às histórias. O resultado é um retrato mais diverso do Brasil, no qual o audiovisual deixa de se concentrar apenas nos grandes centros urbanos e passa a valorizar múltiplas identidades regionais.
Ao mesmo tempo, coletivos independentes e criadores ligados a polos emergentes do audiovisual passaram a experimentar novas formas de produção e linguagem. Esse cenário contribuiu para consolidar um ambiente criativo mais plural, onde convivem séries de grande alcance, obras autorais e projetos híbridos que desafiam os limites tradicionais da narrativa audiovisual brasileira.
No campo da animação, produções como “O Menino e o Mundo" (2013), dirigido por Alê Abreu e indicado ao Oscar de Melhor Animação em 2016, demonstraram que o cinema brasileiro também pode competir em festivais internacionais com propostas visuais e narrativas singulares.
#Oscar2016: Brasil é indicado ao prêmio de melhor animação com 'O menino e o mundo' https://t.co/3Kk66MxhZ0 #G1 pic.twitter.com/PEuCtM2GU6
— g1 (@g1) January 14, 2016
Quando filmes brasileiros aparecem no radar de grandes premiações, a atenção internacional tende a se concentrar no troféu. No entanto, a história recente do cinema nacional mostra que o verdadeiro processo é mais profundo.
O percurso que vai de produções como "Carlota Joaquina" (1995) até obras contemporâneas como “O Agente Secreto" revela uma trajetória marcada por resistência cultural, políticas públicas e experimentação artística. Cada filme que alcança reconhecimento internacional é, na verdade, o resultado de décadas de construção institucional e criativa.
A presença de Wagner Moura nesse cenário não deve ser interpretada apenas como a possibilidade de conquistar uma estatueta banhada à ouro, simboliza algo maior. Como um todo, o momento caracteriza a capacidade do cinema brasileiro de ocupar espaços globais sem abandonar suas singularidades.
Talvez seja por isso que a frase que dá título a este texto faça sentido, Wagner não merece o Oscar, não porque lhe falte talento ou relevância, mas porque sua trajetória aponta para algo mais amplo do que um prêmio. O caminho de Wagner assinala para a história de um cinema que se construiu coletivamente, que resistiu a crises políticas e econômicas e que continua a produzir narrativas capazes de dialogar com o mundo sem perder suas raízes.
Mesmo assim, caso o Oscar venha. Obrigado, Bolsonaro.
*Texto reflete exclusivamente a opinião do colunista e não representa, necessariamente, a posição editorial do BNews.
Wagner Moura levou política brasileira para um dos talk shows mais famosos dos EUA 🎬
— OCorre News (@ocorrenews) March 9, 2026
Durante participação no Jimmy Kimmel Live, o ator comentou sobre o filme Marighella e fez uma crítica ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
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