Artigo
Em “Aquarius" (2016), longa-metragem dirigido por Kleber Mendonça Filho, a personagem Clara, interpretada por Sônia Braga, resiste à pressão de uma construtora que pretende demolir o prédio onde ela mora para erguer um novo empreendimento imobiliário.
Ambientada em Recife, a história desmantela em tela as tensões entre memória, mercado e direito à cidade, elementos centrais no debate contemporâneo sobre gentrificação em diversos territórios do Brasil varonil.
📲 Clique aqui e leia a última matéria da coluna de cultura!
O conceito descreve mudanças sociais, econômicas e demográficas em áreas urbanas que passam por valorização imobiliária. O fenômeno ganhou destaque em estudos urbanos a partir da década de 1960 em cidades da América do Norte e da Europa.
Pesquisadores observaram que bairros antigos, muitas vezes abandonados ou desvalorizados, voltavam a atrair moradores com maior renda e novos investimentos. A lógica desse retorno urbano foi discutida em obras clássicas como as de Jane Jacobs, que defendia a vitalidade dos bairros com usos mistos e criticava o modelo de expansão urbana baseado em zoneamento rígido.
Em teoria, a reocupação desses espaços poderia representar uma crítica ao padrão urbano que separou pobres e ricos em áreas distintas da cidade. Porém, na prática, o processo costuma gerar um efeito cumulativo.
A presença inicial de artistas, estudantes e pequenos empreendedores aumenta a atratividade do bairro, atrai investimentos e impulsiona a valorização imobiliária. Com o tempo, o aumento de preços pode levar à substituição dos moradores originais e até mesmo dos primeiros agentes da revitalização.
O debate citado aparece de forma crescente no Centro Histórico de Salvador, especialmente na região do Pelourinho e no bairro do Santo Antônio Além do Carmo. A valorização turística e a chegada de novos empreendimentos alteram gradualmente o perfil social dessas áreas, ao mesmo tempo em que reativam a economia local.
Levantamentos baseados no Sistema Cartográfico da Região Metropolitana de Salvador (SICAR/RMS) identificaram 2.481 unidades imobiliárias dentro da poligonal do Parque Histórico do Pelourinho. O estudo utilizou como base o SICAR RMS 92 e precisou de verificação direta em campo, já que a base cartográfica considera cada edificação como unidade mínima. As pesquisas conseguiram reunir informações de cerca de metade dessas unidades, com aproximadamente 15% dos dados obtidos por entrevistas diretas com moradores e cerca de 35% por observação de campo.
Clique aqui e leia a tese completa com todos os dados!
Entre as edificações analisadas, cerca de 20% estavam em estado de ruína e aproximadamente 15% estavam à venda ou tinham proprietários que não residiam mais na cidade. A pesquisa também identificou 272 unidades residenciais ocupadas por migrantes ou imigrantes, número que corresponde a cerca de 80 por cento das respostas obtidas nos formulários. Parte dos moradores nasceu em Salvador, mas pertence a famílias que migraram para a região ou retornaram após viver em outras cidades.
Os dados indicam que cerca de 60 por cento desses migrantes chegaram ao Centro Histórico depois de 1985. Esse grupo corresponde a 202 das 372 unidades pesquisadas, onde foram contabilizadas 687 pessoas. Entre 2010 e 2018, os pesquisadores realizaram 100 entrevistas aprofundadas com moradores da região para compreender o perfil social da população e as transformações urbanas em curso.
As entrevistas incluíram cinco grupos distintos de moradores. O primeiro reúne descendentes de estrangeiros e brasileiros que chegaram antes de 1980. Os demais incluem estrangeiros europeus, africanos e asiáticos, latino-americanos, brasileiros das regiões Sul e Sudeste e moradores oriundos da própria Bahia ou de outros estados do Nordeste. A análise desses dados indica a existência de diferentes etapas do processo de transformação urbana, que se aproximam das fases descritas na teoria das ondas de gentrificação formuladas por Neil Smith.
A reportagem procurou a Companhia de Desenvolvimento Urbano do Estado da Bahia (Conder), a Secretaria Municipal de Desenvolvimento e Urbanismo (Sedur) e a Secretaria de Infraestrutura para obter esclarecimentos oficiais com possíveis projetos de requalificação na região. Também foram solicitadas informações sobre a existência de políticas públicas ou medidas voltadas à permanência das comunidades locais, diante das discussões por conta dos processos de gentrificação nas áreas, além do planejamento da pasta para conciliar preservação histórica, desenvolvimento econômico e garantia do direito à moradia no Centro Histórico.
No entanto, até o momento, não houve retorno por parte da Sedur e da Seinfra (nota da Conder no final da matéria).
Em entrevista à coluna, o historiador Murilo Mello destaca que as reformas urbanas realizadas na década de 1990 tiveram papel decisivo nesse processo. Segundo Mello, a revitalização do Centro Histórico trouxe ganhos econômicos e ampliou a visibilidade da região, mas também provocou mudanças sociais profundas.
As reformas da década de noventa são decisivas no processo de valorização do Pelourinho. Elas trazem lucros para a cidade e para empresários e também garantem sustento para muita gente que trabalha ali de forma informal. É a dor e a delícia. Existe a revitalização, mas também aparecem consequências que deixam um sabor amargo nesse processo”, afirmou.
📲 Clique aqui e inscreva-se no canal do BNews no Youtube!
O historiador aponta que a transformação urbana alterou o perfil social do bairro ao longo do tempo: “As comunidades tradicionais que viviam no Pelourinho antes de noventa foram expulsas em grande parte. Houve uma substituição para dar lugar a um novo comércio e a outra ocupação do espaço. Muitas pessoas tiveram que procurar moradia em outras áreas da cidade e algumas ficaram sem alternativa habitacional”, disse.
Murilo Mello também defende que processos de revitalização da região onde moradores vivem, sobrevivem e se divertem podem incluir políticas de integração social: “É possível revitalizar o espaço, incentivar o turismo e, ao mesmo tempo, oferecer cursos e oportunidades para que os moradores que viviam ali continuem trabalhando e vivendo no local”, comentou.
Além do olhar teórico e especializado, a valorização do Centro Histórico também é observada por quem convive diariamente com a região. Em bate-papo com a coluna, o criador de conteúdo digital Léo Marinho, que acompanha o cotidiano do Pelourinho e mantém contato com moradores, artistas e trabalhadores do bairro, externa que o crescimento turístico do centro cultural soteropolitano é “forte”, mas que luta diariamente contra o processo de gentrificação.
Eu vejo que o Pelourinho passa por um processo forte de valorização impulsionado pelo turismo e por novos empreendimentos. Isso traz investimento, movimento e visibilidade para a região. Ao mesmo tempo existe um debate muito sério sobre gentrificação porque essa valorização pressiona moradores antigos a sair, seja pelo aumento dos aluguéis ou pela falta de políticas que garantam a permanência dessas famílias”, disparou Léo.
Apaixonado pelo 'Pelô', Léo ressalta que a identidade cultural da região depende da permanência dos moradores tradicionais: “O Pelourinho não é apenas um conjunto de prédios históricos. Ele é feito de pessoas. São moradores, trabalhadores e artistas que mantêm viva a cultura do lugar. Sem essas pessoas o bairro corre o risco de virar apenas um cenário turístico”, afirmou.
A memória das transformações urbanas também aparece no relato de Clarindo Silva, conhecido como Seu Clarindo, figura histórica da vida cultural do Pelourinho. Aos 83 anos, o símbolo da estirpe baiana acumula mais de cinco décadas de atuação cultural no Centro Histórico soteropolitano.
Eu vivi o Centro Histórico em diversas fases. A Rua Chile já foi um lugar de elite, com lojas importantes e grande circulação. Depois da Segunda Guerra Mundial começou um processo de esvaziamento. Muitas famílias tradicionais foram para bairros como Graça, Barra e Corredor da Vitória. O centro perdeu instituições, livrarias e bibliotecas. Foi um processo muito duro”, afirmou.
De forma contundente, Clarindo também aponta a contradição entre o abandono de imóveis e a necessidade de moradia na cidade: “Hoje existem muitos prédios vazios no centro e muita gente sem casa. A pergunta que sempre faço é como pode existir 'tanta casa sem gente e tanta gente sem casa'. Para existir conservação, precisa existir vida, moradia também é preservação da memória cultural", comunicou.
Assim como na trama de Mendonça Filho, em que a personagem de Sônia Braga luta para permanecer em seu apartamento diante da pressão do mercado imobiliário, o debate sobre o futuro do Centro Histórico de Salvador envolve mais do que a recuperação de edifícios antigos.
A discussão passa pelo direito de permanência dos moradores, pela preservação da memória urbana e pela forma como a cidade decide conciliar desenvolvimento econômico com a vida cotidiana de quem sempre ocupou esses espaços.
Nota da Conder na íntegra:
Classificação Indicativa: Livre
cinema em casa
som poderoso
Imperdível
Smartwatch barato
Limpeza inteligente