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Luara, 23 anos, executada dentro de casa: o crime que a Bahia precisa investigar como transfobia

Confira o artigo de Marcelo Cerqueira  |  Reprodução/Redes Sociais

Publicado em 07/11/2026, às 17h37   Reprodução/Redes Sociais   Redação


Ela não estava na rua. Não estava em festa. Não estava em situação de risco visível. Luara, mulher trans de 23 anos, estava em casa, com a família, no bairro de São João do Cabrito, Subúrbio Ferroviário de Salvador, cuidando da avó idosa e cadeirante. Levantou-se por volta da meia-noite da última sexta-feira (6) para administrar um remédio à idosa. Foi nesse gesto de cuidado que encontrou homens armados dentro do imóvel onde morava. Morreu com múltiplos disparos na cabeça, na frente da família.

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O Bnews, no cumprimento de sua função jornalística, repercutiu o caso com imparcialidade e compromisso com a notícia. O Grupo Gay da Bahia também não afirma qual foi a motivação do crime. Essa é atribuição da polícia, e antecipar conclusões não serve à justiça nem à memória de Luara. Nesta tarde de sábado, o GGB ouviu moradores gays do bairro, cujos nomes omitimos por segurança. "Às vezes inventam fuxico, não apuram e as pessoas morrem por isso", disse o primeiro. O segundo relatou: "Ouvimos falar que ela estava chipando" - passando informações da comunidade para um adversário. Somam-se a isso as relações interpessoais entre moradores, inclusive de ruas do mesmo bairro, que já não podem ocorrer por determinação da guerra de território. Antes de qualquer empatia, é preciso pedir comprovante de residência para saber com quem se pode relacionar, namorar ou ser amigo.

Mas o GGB exige que a hipótese de transfobia seja investigada com seriedade, e não descartada por presunção.

Os elementos disponíveis apontam nessa direção. Foram vários disparos concentrados na região da cabeça, sem relato de subtração de bens - padrão compatível com animosidade contra a identidade da vítima, não com latrocínio. A imprensa local informa que Luara não tinha envolvimento com atividades criminosas, o que enfraquece a linha de acerto de contas. E ela acumulava exatamente os marcadores que a literatura sobre transfeminicídio identifica como de risco máximo: mulher trans, negra, pobre, periférica, cuidadora de pessoa com deficiência.

Uma mulher trans negra, executada dentro de casa, sem que nada tenha sido levado. Se essa combinação não aciona o protocolo de crimes de ódio, é porque o protocolo não existe de fato.

A Bahia é o estado que mais mata no Brasil. O Dossiê da ANTRA registrou 77 assassinatos de travestis e mulheres trans no país em 2025 - e travestis e mulheres trans representam 97% das vítimas em nove anos de série histórica, com 1.221 casos. Racismo e transfobia são apontados como os dois principais fatores. Esses números não são abstração estatística: são corpos com nome, endereço e história. Luara é agora um deles.

Diante disso, o GGB expediu ofício à 3ª DH/BTS e à Promotoria Especializada na Defesa da População LGBTQIA+ do Ministério Público da Bahia requerendo cinco providências: apuração com recorte expresso de identidade de gênero, preservação integral da cadeia de custódia das imagens de câmeras e vestígios, acolhimento da família - incluindo a avó idosa sob seus cuidados -, informação institucional sobre o andamento das diligências e, na hipótese de confirmação da motivação transfóbica, observância da qualificadora do art. 121, § 2º, I, do Código Penal.

Reafirmamos o que dizemos desde 1980: sem dado, não há política pública. Sem política pública, não há prevenção. Cada caso que não é registrado como transfobia desaparece duas vezes - primeiro da vida, depois da estatística. Foi para romper esse apagamento que o GGB criou, em 1984, o primeiro banco de dados sobre violência homofóbica do país. Luara já está registrada nele. Com nome, idade, território e circunstância.

O GGB se solidariza com a família de Luara, com sua avó, com as mulheres trans e travestis do Subúrbio Ferroviário e de toda a Bahia. Seguiremos acompanhando o caso e cobrando respostas. Nenhuma a menos. Luara, presente

*Marcelo Cerqueira é articulador e ativista pelos Direitos Humanos. Também é presidente do Grupo Gay da Bahia.


Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do BNEWS.

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