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Marcelo Cerqueira: A ressignificação da episteme do afeto: Que orgulho é esse?

A importância do orgulho na saúde mental e coletiva da população LGBT+ frente à LGBTfobia  |  Arquivo Pessoal

Publicado em 28/06/2026, às 18h27   Arquivo Pessoal   Marcelo Cerqueira:

Neste 28 de junho de 2026, orgulhosamente, convido vocês, "querides" leitores e leitoras do Bnews, a embarcarem comigo em uma viagem profunda pelo conhecimento da origem semântica da nossa luta. Diante das estruturas de opressão, surge a pergunta central: que orgulho é esse? Não falamos aqui da satisfação fútil ou da vaidade individualista. O orgulho que ostentamos é uma construção biopolítica, uma resposta coletiva a um projeto histórico que tentou nos converter em silêncio e pó.

O conceito nasceu na sociedade americana protestante como uma palavra-guia, individualista, em uma busca frenética pela liberdade individual — o que conhecemos como o "American Way of Life", largamente associado ao Pride. A primeira Parada do Mundo, em 1970, o "Gay Pride", seria inocente se não fizesse uso dessa palavra fortíssima que, em português, comunica "orgulho".

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Não foi fácil instaurar esse movimento mantendo uma ligação semântica com a origem, pois não se tratava de uma tradução simplista. A palavra "gay" era consenso, mas para "Pride", após muito debate, optou-se pela tradução literal: "orgulho". Diferente da origem, essa palavra no português possuía significados distintos. Dessa forma, cunhou-se, originariamente, "Parada do Orgulho Gay", unindo dois termos com significados diversos. O GGB fez uso desta nomenclatura até 2007, mudando posteriormente para LGBT+.

Para a população LGBT+, o orgulho não é um sentimento passivo. Foi ressignificado e tornou-se uma tecnologia de resistência. Enquanto o sistema normativo utiliza a vergonha como uma arma de controle para descompensar nossos corpos, respondemos com a afirmação radical da existência. O orgulho é o antídoto político para a vergonha que tentaram impor sobre a nossa existência. Ele é a ferramenta que permite ao sujeito transitar da condição de "objeto de estudo" ou "patologia" para a condição de sujeito de direitos e protagonista da narrativa de sua própria história.

Historicamente, a tradição judaico-cristã e a moral burguesa classificaram o orgulho como o mais grave dos pecados: a soberba. Essa definição serviu, por séculos, para punir qualquer tentativa de autonomia daqueles que não se encaixavam na norma. No entanto, na gramática da libertação LGBT+, essa palavra sofreu uma transmutação, mudando "da água para o vinho". O que era "pecado" tornou-se estratégia de sobrevivência e dignidade.

Essa mudança de sentido é fundamental para compreendermos a nossa trajetória. Para quem foi ensinado a se esconder, ter orgulho pode ser considerado um ato de desobediência civil. Não se trata de arrogância, mas de reivindicação de humanidade e espaço seguro. Enquanto a soberba busca a superioridade sobre o outro, o nosso orgulho busca a equidade de existência e a recusa em aceitar um lugar de abjeção.

Como estrategistas da nossa própria vida, ressignificamos o termo para que servisse de escudo contra a necropolítica que nos cerca e que decide quem vive ou morre.
Sob a perspectiva da Saúde Coletiva, o orgulho atua como um componente clínico essencial. A vergonha, quando internalizada, funciona como um "veneno biopolítico" que gera isolamento, depressão, vulnerabilidade e suicídio. Ela adoece o corpo social e individual. Nesse contexto, o orgulho emerge como uma tecnologia de cuidado e saúde pública.

Ao afirmarmos quem somos, interrompemos o ciclo de autodestruição imposto pelo estigma. Ter orgulho é uma medida de redução de danos contra os efeitos da LGBTfobia e do racismo. Ele fortalece o sistema imunológico da nossa comunidade, criando redes de afeto e suporte que o Estado muitas vezes negligencia. Não é vaidade, é vacina. É a produção de saúde através da dignidade, transformando o "corpo-alvo" em um corpo-soberano, capaz de produzir novos sentidos e desejos em um território que antes só oferecia a morte.

A atuação do GGB em Salvador e em todo o Brasil, capitaneada e inspirada pelo legado do professor Luiz Mott, demonstra que o orgulho deve ser territorializado. Mott, como um intelectual orgânico, compreendeu logo cedo que a luta contra a LGBTfobia é, antes de tudo, uma luta pela saúde coletiva. Ele nos ensinou que o armário é a mais insalubre das prisões e que a visibilidade é o primeiro passo para a cura social.

Nossa atuação no Centro de Referência LGBT Vida Bruno, com seu corpo técnico dispensando atendimento especial e humanizado, e o monitoramento via Observatório Racial e LGBT+ da Secretaria da Reparação, Ambulatório da Saúde LGBT+ da Secretaria Municipal da Saúde, Ambulatórios TT do Hupes, SESAB, Baiana de Medicina e CPDD, são extensões desse orgulho transformado em ação técnica.

Transformamos a dor em dado estatístico e o luto em luta política. O orgulho nos dá a coragem necessária para ocupar os espaços de poder, do Judiciário ao Sistema Prisional, exigindo que a nossa dignidade não seja negociada. É a inteligência estratégica aplicada à defesa da vida; não é arrogância.

Em última análise, o orgulho que celebramos em 2026 é a nossa soberania inegociável. Ele é o marco zero da nossa cidadania. Quando perguntarem "Que orgulho é esse?", responderemos que é o orgulho de quem sobreviveu ao apagamento e decidiu florescer no asfalto da exclusão. É a consciência de que a nossa existência não é um erro. Que o orgulho seja sempre o nosso norte, não como um troféu estático, mas como um movimento contínuo de descolonização do afeto e afirmação da vida.

Marcelo Cerqueira - Estrategista da Diversidade, escritor, professor e gestor público.

Classificação Indicativa: Livre


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