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“O Mentalista” vira do avesso tudo que a Netflix produz e se distancia da maré de ‘emburrecimento’ das produções do streaming

Sucesso de "O Mentalista" na Netflix mostra que histórias bem construídas ainda têm espaço em um cenário de streaming dominado por narrativas ultrajantes  |  Divulgação / CBS - Netflix

Publicado em 16/08/2026, às 08h30   Divulgação / CBS - Netflix   Cauan Borges

Há algo curioso, e até certo ponto irônico, no fato de “O Mentalista" ter voltado ao centro das atenções mais de uma década depois de seu encerramento. Criada por Bruno Heller e lançada originalmente em 2008 pela emissora CBS, a série policial com episódios de até 43 minutos encontrou uma 'segunda vida' nos streamings, voltou a figurar entre os títulos mais assistidos da Netflix no Brasil, e alcançou o topo do ranking da plataforma em julho deste ano. 

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O fenômeno torna-se algo único não apenas pela distância entre a estreia e a nova popularidade, mas também porque demonstra como uma produção televisiva encerrada em 2015 ainda consegue estabelecer uma relação imediata com um público que, em muitos casos, sequer acompanhou sua exibição original. 

Na contramão...

O retorno de “O Mentalista" ao topo da audiência manifesta uma contradição interessante (e ao mesmo tempo triste) em relação ao modelo de produção que se consolidou nos serviços de streaming na última década, e que tem se alastrado como um vírus sem cura nos últimos anos.

A Netflix, que em muitos momentos parece ter contribuído para um processo de “emburrecimento” de suas próprias produções ao privilegiar narrativas cada vez mais explicativas, personagens que verbalizam suas intenções e histórias pensadas para serem acompanhadas de maneira casual, tornou-se uma espécie de nova televisão. 

Uma reportagem publicada pela revista norte-americana N+1 explicita essa percepção ao mostrar que a própria plataforma reconhece o comportamento de parte de seu público como uma espécie de segunda tela, com espectadores que assistem enquanto fazem outras atividades e nem sempre mantêm atenção integral ao que acontece na história. 

Em relatos cedidos ao portal estadunidense, roteiristas que trabalharam para a Netflix ouviram de executivos da empresa a orientação para que personagens dissessem em voz alta aquilo que estavam fazendo, permitindo que até mesmo quem acompanha uma produção de forma distraída consiga entender o que está acontecendo em tela. 

Essa lógica de “visualização casual” ajuda a explicar uma mudança importante na linguagem do streaming, que passou a produzir histórias cada vez mais preocupadas em não perder o espectador desatento, ou, em outras palavras, burro. “O Mentalista”, curiosamente, vai na direção oposta dessa maré maligna imposta pela plataforma ‘vermelhinha’.

De forma mais do que positiva, a série confia na capacidade de observação de quem acompanha o processo narrativo, constrói seus mistérios sem explicar tudo imediatamente e permite que o público acompanhe o raciocínio de Patrick Jane sem transformar cada informação em uma fala didática ou extremamente mastigada, como a coluna apontou anteriormente na crítica do mais novo longa-metragem da plataforma, “A Última Casa”.

É justamente por isso que o sucesso renovado da obra de Bruno Heller se assemelha a um vento frio em uma tarde infernal. Enquanto parte da produção autoral da Netflix se aproxima cada vez mais da lógica da televisão ligada ao fundo, a série recupera uma forma de narrativa que exige algum envolvimento do espectador e que encontra sua força na inteligência dos personagens, na leitura de comportamentos e nas relações que se desenvolvem ao longo de centenas de episódios.

Não se trata de afirmar que toda produção contemporânea seja inferior ou que explicar uma história seja necessariamente um defeito, mas existe uma diferença evidente entre contar uma narrativa para alguém que está disposto a acompanhá-la e construir uma narrativa para alguém que talvez esteja olhando para a tela apenas de vez em quando. 

“O Mentalista” pertence ao primeiro grupo e, talvez por isso, pareça tão refrescante em uma plataforma que ajudou a consolidar o segundo. A série não precisa dizer o que Jane está fazendo para que entendamos que ele está manipulando alguém, assim como não precisa anunciar cada mudança emocional para que o espectador perceba o que está por trás de seu comportamento. 

Ao voltar a ser descoberta pela audiência da Netflix, uma produção de 2008 encontra seu espaço no mercado atual justamente por não ter sido feita para o espectador distraído de 2026.

Tereza Lisbon e Patrick Jane - Foto: Divulgação / CBS - Netflix
Van Pelt, Patrick Jane e Cho - Foto: Divulgação / CBS - Netflix
Elenco de "O Mentalista" - Foto: Divulgação / CBS - Netflix

Qual o maior trunfo da obra?

No centro dessa estrutura está Patrick Jane, interpretado por Simon Baker, e talvez seja impossível separar o sucesso da série do carisma e charme do ator australiano. Tal qual Sherlock Holmes, Jane não é um investigador convencional e tampouco se comporta como um herói tradicional. Antes de trabalhar para a polícia, o personagem ganhava dinheiro como falso médium e explorava a credulidade de pessoas que acreditavam em suas supostas capacidades sobrenaturais.

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No entanto, sua habilidade real sempre esteve latente em outro lugar: na capacidade de observar comportamentos, identificar pequenas mudanças nas reações das pessoas e utilizar essas informações para conduzir uma situação na direção que deseja.

O passado de Jane é justamente o que transforma uma premissa aparentemente simples em uma história pessoal. Em uma participação na televisão, o protagonista debochou de Red John, um serial killer que já havia se tornado conhecido pela polícia, e afirmou que poderia ajudar a identificá-lo.

O assassino assistiu à entrevista e decidiu responder à provocação da maneira mais cruel possível. O ‘vilão’ invadiu a casa de Jane, matou sua esposa e sua filha e deixou na parede o conhecido rosto sorridente desenhado com sangue. 

Gostaria que tivesse alguém que conhecesse o meu pior lado e ainda assim me amasse” – fala de Patrick Jane na série.

A partir daquele momento, a investigação deixou de ser apenas um trabalho para Jane e passou a representar uma espécie de punição que ele mesmo se impôs. Consequentemente, é nesse ponto que Simon Baker consegue dar profundidade ao personagem.  Patrick Jane pode ser engraçado, arrogante, provocador e manipulador, mas suas ações sempre carregam a tragédia subjacente.

A série ganha grande parte de sua força ao alternar esses dois lados sem precisar fazer do protagonista uma pessoa moralmente correta. Jane permanece como um homem habilidoso em manipular pessoas, infringir regras e agir de forma duvidosa, porém o público compreende a origem de sua obsessão e começa a segui-lo mesmo quando suas escolhas são difíceis de justificar. Essa ambiguidade também contribui para aproximar o espectador dos demais personagens. 

Entretanto, o maior destaque da obra de Bruno reside na personagem Teresa Lisbon, interpretada por Robin Tunney. A figura de Lisbon atua como um contraponto ao comportamento errático de Jane, tendo que lidar com as repercussões das ações do consultor ao mesmo tempo em que tenta manter um certo nível de profissionalismo nas investigações.

A conexão entre os dois vai além da oposição entre a agente que cumpre os procedimentos e o homem que opta por seus próprios métodos; envolve também a confiança que é gradualmente construída ao longo das temporadas e a tensão sexual entre os protagonistas, que os roteiristas confirmam ao colocá-los frente a um altar (spoiler alert, rs).

Nesse conjunto, Tim Kang se destaca especialmente como o agente Kimball Cho, personagem que poderia facilmente ter sido ofuscado pela personalidade exuberante de Patrick, mas Kang consegue criar uma presença com uma atuação contida, quase sempre controlada e extremamente objetiva.

O humor de Cho frequentemente vem da forma como o personagem responde às circunstâncias, sem que haja uma necessidade clara de fazer piada com suas falas. Em síntese, Jane prefere conduzir as investigações como um espetáculo psicológico, enquanto Cho se mostra mais interessado em solucionar o problema. Essa divergência gera uma dinâmica que contribui para manter o equilíbrio da equipe.

A série também encontra na trilha sonora uma ferramenta importante para estabelecer sua identidade. A música acompanha as investigações com sobriedade e consegue transitar entre os momentos de tensão, o humor ácido e as situações mais dramáticas sem tentar determinar o que o espectador deve sentir. Essa escolha combina com a própria natureza de "O Mentalista", que raramente precisa exagerar para criar uma atmosfera. A produção entende que uma investigação pode ser interessante sem que cada descoberta precise ser acompanhada por uma explosão sonora ou por algum recurso visual que anuncie sua importância.

Essa sobriedade se torna ainda mais relevante nas cenas dramáticas, principalmente pelo fato de que os personagens da série estão longe de serem figuras moralmente simples. Jane é um homem que construiu parte da própria vida enganando outras pessoas, enquanto diversos personagens envolvidos na investigação de Red John carregam segredos, interesses particulares e relações questionáveis com a própria lei.

Ao permitir que seus personagens permaneçam dúbios, a série consegue criar uma proximidade maior com o espectador, porque eles não parecem existir apenas para cumprir funções narrativas. São pessoas que tomam decisões ruins, escondem informações, mentem e, eventualmente, demonstram alguma forma de vulnerabilidade.

Patrick Jane e o símbolo do Red John - Foto: Divulgação / CBS - Netflix
Tereza Lisbon e Patrick Jane - Foto: Divulgação / CBS - Netflix
Patrick Jane - Foto: Divulgação / CBS - Netflix

Red John e o vilão tradicional

Além dos memes em volta do seu famoso emblema representado por uma ‘carinha feliz’ desenhada com o sangue de suas vítimas, a grande história de Red John funciona como o principal elemento de continuidade durante a série. Durante anos, o assassino permanece como uma figura quase inalcançável, capaz de manipular pessoas e antecipar os movimentos de Jane.

A investigação começa a ganhar outra dimensão quando Lorelei Martins revela que Red John era alguém que Jane já havia conhecido pessoalmente e cuja mão já havia apertado. A partir dessa informação, o assassino deixa de ser apenas uma ameaça distante e passa a ser uma possibilidade dentro do próprio círculo de pessoas que o protagonista conheceu.

No fim da quinta temporada, Jane reduz suas suspeitas a sete nomes, entre eles Thomas McAllister, Gale Bertram, Bret Stiles, Reede Smith, Ray Haffner, Bob Kirkland e Brett Partridge. A escolha cria uma das etapas mais interessantes da narrativa porque transforma um mistério aparentemente ilimitado em uma investigação com possibilidades concretas. A revelação do famoso e enigmático antagonista acontece no oitavo episódio da sexta temporada e dá ao personagem uma ligação ainda mais profunda com a estrutura policial que cercava Jane.

A construção desse mistério, entretanto, também revela algumas das limitações da obra de Bruno. Em determinados momentos, principalmente nas últimas duas temporadas, a série recorre a decisões arbitrárias e soluções simplificadas para resolver situações que haviam sido construídas como grandes enigmas.

O próprio fato de Red John descobrir os sete nomes antes mesmo de Jane concluir sua lista é uma das situações que não recebe uma explicação suficientemente convincente. A produção parece muito presa em preservar a sensação de que o personagem possui uma capacidade quase ilimitada de antecipar os acontecimentos e esquece de estabelecer uma lógica para explicar como o assassino conseguiu determinadas informações.

Isso não significa que a série deixe de funcionar, pelo contrário, existe uma autenticidade importante em “O Mentalista" justamente ao reconhecer o próprio universo e não tentar transformá-lo em algo maior do que precisa ser. Os casos podem apresentar soluções convenientes, alguns mistérios podem depender de coincidências e determinadas decisões narrativas podem parecer simplistas, mas a produção quase sempre retorna aos personagens e à dinâmica que realmente sustentam sua existência.

Os casos do ''O Mentalista'' são geralmente resolvidos assim:

-O Patrick chama todos os suspeitos na sala

-Ele mostra um baralho da Tarot pra todo mundo

-''Patrick isso é loucura, mas tenta ai so pra ver''

-Ele pede pra cada suspeito pegar um carta

-Todos mostram a carta… pic.twitter.com/rYgNMxusLD

— CinePobre (@cinepobrebr) August 3, 2026

As primeiras temporadas possuem uma aparência muito particular, marcada pelos cenários e pelas ruas reproduzidas nos estúdios da CBS, o que contribui para criar a sensação de que aquelas investigações acontecem dentro de um espaço físico reconhecível. Existe uma materialidade naquela Califórnia de “O Mentalista" que ajuda a dar personalidade à produção.

Porém, nem tudo são flores. A partir da quarta temporada, o uso de telas verdes passa a aparecer com uma frequência que, na minha percepção, prejudica ligeiramente essa característica. Algumas cenas começam a apresentar uma artificialidade visual que não era tão perceptível nos primeiros anos, especialmente quando os cenários digitais passam a ocupar um espaço maior dentro da construção das sequências.

O recurso não chega a comprometer a qualidade cênica da série de forma abrupta, mas diminui parte daquela sensação de concretude que fazia os primeiros episódios parecerem mais próximos e menos dependentes de recursos visuais.

Qual o saldo final?

A Netflix contribuiu para reintroduzir a série a uma geração que não assistiu à sua exibição original, permitindo que uma produção de sete temporadas e 151 episódios fosse apreciada de forma distinta da proposta inicial. Ao invés de se submeter à grade de programação semanal da TV, o público contemporâneo tem a liberdade de acompanhar Patrick Jane, Lisbon, Cho, Van Pelt e Rigsby por horas, explorando gradualmente as particularidades daquele grupo e compreendendo os motivos pelos quais a produção se manteve relevante ao longo dos anos.

O sucesso atual também demonstra que há espaço para uma televisão que não se preocupa em parecer grandiosa. É valioso acompanhar uma investigação que se inicia e conclui no mesmo episódio, assim como é valioso dedicar várias temporadas para observar o desenvolvimento de uma relação, sem precisar transformar cada alteração em um evento significativo. “O Mentalista” reconhece que a repetição pode ser uma qualidade quando há personalidade suficiente nela.

Mais do que uma nostalgia passageira e com pouco valor semântico, característica presente nos últimos filmes de boneco do Universo Marvel, o retorno de Patrick Jane ao topo da atesta que o público ainda se conecta com histórias simples, mas que carrega uma inventividade do gênero e, acima de tudo, do poder criativo do seu autor, se distanciando ao máximo do impacto das grandes produtoras no processo de escrita e produção das séries, como o Prime Video, Warner e a própria Netflix.

A obra é de uma emissora que tinha espaço para desenvolver personagens, repetir fórmulas batidas, trabalhar clichês da categoria, cometer erros e manter a crença na força de seu próprio universo estabelecido desde o primeiro episódio. "Voilà".

Nota da Coluna: ❤️ ❤️ ❤️ ❤️ ❤

Classificação Indicativa: Livre


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