Artigo
A ideia que sustenta “A Última Casa” (2026), novo filme da Netflix dirigido por Louis Leterrier, lançado na plataforma na última sexta-feira (7), parte de uma situação que, por si só, já estabelece um campo fértil para o suspense. Uma família acorda presa dentro da própria casa enquanto uma chuva misteriosa torna o lado de fora inacessível. Portas não podem ser abertas, janelas não podem ser quebradas e qualquer tentativa de contato com o exterior fracassa. O que resta é permanecer naquele espaço e descobrir como sobreviver.
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O filme nasce de uma premissa que permitiria explorar isolamento, paranoia, desgaste emocional e os conflitos de uma família submetida a uma situação sem explicação. O problema é que “A Última Casa” não está interessada em explorar nenhuma dessas possibilidades, mas sim em entregar respostas fáceis ao espectador. O suspense, que muitas vezes nasce da dúvida e da falta de informações, acaba prejudicado pela necessidade constante de explicar o que está acontecendo.
O diretor francês esteve à frente de filmes como “O Incrível Hulk” (2008), “Truque de Mestre” (2013) e “Carga Explosiva 2” (2005), além de ter comandado episódios de produções televisivas de grande alcance como “Lupin” (2021), também produzido pela Netflix. Sua filmografia demonstra familiaridade com ação, ritmo e grandes estruturas de produção. Entretanto, em seu mais novo longa, essa experiência não encontra uma história capaz de sustentar o compasso escolhido pela montagem.
Escrita por Matthew Robinson, a narrativa apresenta um universo que poderia ser descoberto aos poucos, mas opta por antecipar informações e explicar regras antes que elas produzam impacto. O mistério perde espaço à medida que o texto transforma diálogos em ferramentas de exposição, consequentemente, o espectador quase nunca é deixado sozinho diante de uma situação para interpretá-la, já que os personagens verbalizam frequentemente aquilo que a própria imagem já apresentou.
Em determinados momentos, o filme parece duvidar da capacidade de quem está diante da tela de compreender uma cena sem receber uma explicação imediata. A partir dessa escolha, os protagonistas também são afetados. Em vez de permitir que o confinamento revele mudanças de comportamento por meio de ações, silêncios e conflitos, o roteiro recorre a conversas que explicam estados emocionais e acontecimentos.
No entanto, é fundamental destacar que o problema citado acima ultrapassa “A Última Casa” e aparece em parte das produções recentes da Netflix. Em “Stranger Things” (2016), por exemplo, tornou-se recorrente a utilização de diálogos explicativos para apresentar regras, acontecimentos e conceitos de seu universo. A questão não está em explicar elementos de uma história, mas na frequência com que a explicação substitui a experiência.
A crítica do ator Matt Damon, estrela de “A Odisseia” (2026), ao modelo de produção dos streamings toca justamente nesse ponto. Enquanto divulgava o filme “Dinheiro Suspeito” (2026), produzido pela Netflix, Matt já chegou a afirmar que a plataforma ‘vermelhinha’ tenta “emburrecer” seus filmes para tornar a experiência mais simples e digerível para quem assiste enquanto mantém o celular nas mãos.
O jeito padrão de fazer um filme de ação, pelo que aprendemos, era ter três sequências de ação. Uma no primeiro ato, uma no segundo e uma no terceiro. Você gasta a maior parte do dinheiro na sequência do terceiro ato. É o seu clímax. E agora eles [Netflix] estão tipo, ‘Podemos ter uma grande sequência nos primeiros cinco minutos? Queremos que as pessoas fiquem assistindo. E não seria tão ruim se você repetisse a trama três ou quatro vezes no diálogo, porque as pessoas estão mexendo nos celulares enquanto assistem.”, afirmou Matt Damon em entrevista ao podcast de Joe Rogan durante a divulgação do filme “Dinheiro Suspeito”.
Os problemas de “A Última Casa” não param por aí…
O filme apresenta inúmeros planos, mas poucos deles permanecem tempo suficiente para construir o espaço. A edição é truncada e acelerada, com cortes que interrompem cenas que pediriam mais tempo para produzir tensão.
A casa, que deveria ser um dos principais elementos dramáticos da história, não recebe o tratamento visual necessário. O filme passa por diferentes ambientes, objetos e mudanças, mas raramente permite que o espectador compreenda aquele espaço como um mundo próprio. Falta inventividade cênica para transformar o confinamento em uma experiência visual.
Essa pressa também prejudica os momentos dramáticos, onde as cenas de diálogos mais introspectivos e situações de desgaste emocional poderiam encontrar força no silêncio e na duração. Em vez disso, a montagem corta, muda de plano, acelera a narrativa, eo confinamento, que deveria produzir a sensação de tempo passando de maneira quase física, acaba tratado como uma sucessão de acontecimentos.
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Esse aspecto se torna ainda mais evidente quando a história avança por dias e meses. O roteiro informa a passagem do tempo, mas o filme não consegue transmitir o peso desse período sobre os personagens. A deterioração física e emocional que poderia surgir da permanência naquele ambiente aparece de maneira superficial.
O soteropolitano e vencedor do Globo de Ouro, Wagner Moura, chega ao projeto após a indicação ao Oscar por “O Agente Secreto” (2025) e reencontra a Netflix depois da experiência em “Agente Oculto” (2022) e na famosa série “Narcos”. Ao lado de Greta Lee, o ator baiano recebe um personagem que possui conflitos suficientes para sustentar um drama familiar. O problema é que esses atritos existenciais não encontram desenvolvimento no texto.
Os dois atores precisam extrair emoção de cenas nas quais o roteiro já entrega a interpretação ao público. Quando os personagens explicam aquilo que sentem, sobra pouco espaço para que os intérpretes construam essas emoções por meio de gestos, pausas e relações.
Greta Lee, que já demonstrou alcance em trabalhos como “Vidas Passadas” (2023), encontra aqui uma personagem limitada pelas necessidades do roteiro. Moura também não consegue transformar seu personagem em uma presença que sustente sozinho a tensão do confinamento.
Curiosamente, mesmo que não tenha sido aproveitada pela direção de fotografia com 'takes' mais inventivos, é a própria casa que apresenta uma das poucas evoluções perceptíveis ao longo da história. A direção de arte acompanha a passagem do tempo por meio do desgaste do ambiente, da improvisação e das marcas deixadas pelo confinamento.
A explicação para o fenômeno que mantém a família presa desperta interesse, mas a maneira como a resposta é apresentada não produz o impacto esperado. O filme chega ao fim sem desenvolver algumas das questões que ele próprio estabelece e sem transformar as dúvidas restantes em um recurso narrativo.
Um “bom suspense” não precisa responder tudo, muito pelo contrário, parte de sua força pode estar justamente na capacidade de deixar o público pensando sobre aquilo que acabou de assistir. “A Última Casa” não parece confiar nem no mistério que busca expor em tela e nem no espectador como receptor das ideias apresentadas em tela.
O resultado é uma produção que fica presa no "quase algo", minimizando a experiência do confinamento e focando, de forma exagerada, a explicação de suas próprias regras. As ilustres presenças de Wagner Moura e Greta Lee não são acompanhadas pelo roteiro, enquanto a direção de Leterrier encontra dificuldade para transformar a casa em um espaço de tensão.
Com uma 1h50m de duração, o filme apresenta possibilidades de suspense psicológico, drama familiar e ficção especulativa, mas raramente permanece tempo suficiente em qualquer uma delas. Ao tentar mostrar tudo, explicar e manter o ritmo em alta, a produção acaba retirando do próprio suspense aquilo que mais poderia sustentá-lo, o tempo.
Classificação Indicativa: Livre
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