Artigo
Publicado em 27/10/2026, às 16h35 Arquivo pessoal José Medrado
As eleições sempre funcionam como um espelho amplificado das nossas incoerências, e, claro, identificações e projeções, mas o último pleito me deixou um enigma particularmente incômodo. Em meio ao rolar o feed de redes sociais, vi relatos e posições de voto que desafiavam a minha lógica mais elementar. Uma delas, contudo, me fez pausar: a declaração de voto de um adepto de religião de matriz africana — alguém que pressupõe guardião do axé e da sabedoria ancestral —, que sinalizou abertamente sobre sua escolha nas urnas. Foi o único voto cuja procedência me vi forçado a questionar direta e particularmente. Não por intromissão na liberdade alheia, mas por perplexidade estrutural: a corrente política que ele estava abraçando com sinais públicos era a mesma cujos expoentes e bases mais radicais historicamente perseguem, demonizam e pregam a destruição dos terreiros e da própria fé que ele representa. Como conciliar a devoção aos orixás e à ancestralidade com o apoio ruidoso a quem prega o seu próprio apagamento e satanização? Sob a ótica das relações interpessoais e do senso comum, ficamos sem resposta. A conta simplesmente não fecha. Contudo, quando recorremos à psicologia social, os contornos dessa contradição começam a se desenhar. Fenômenos como a identificação com o agressor mostram como o pertencimento a uma bolha ideológica pode se tornar mais sedutor do que a preservação da própria identidade cultural, espiritual e comunitária.
O fanatismo político atua como um anestésico da razão. Ele cega para o passado recente e entorpece o discernimento do presente. Quando o discurso de "nós contra eles" se enraíza, o indivíduo passa a priorizar o inimigo comum construído pela narrativa partidária, esquecendo-se de que, na fila da intolerância, a sua própria fé é o próximo alvo. Não se trata de ditar como cada um deve votar, mas de constatar com tristeza até que ponto a polarização consegue obscurecer a autopreservação. Quando a ideologia faz a liderança espiritual abraçar a mão que apedreja o seu terreiro, a política deixa de ser um instrumento de representação e passa a ser apenas o sintoma de um alheamento profundo da própria história e do seu próprio axé.