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Publicado em 21/06/2026, às 08h09 Reprodução / Redes Sociais / Instagram / @flaviojoseoficial Cauan Borges
A repercussão provocada pelo cancelamento de cerca de 15 apresentações do renomado sanfoneiro Flávio José na Bahia recolocou em evidência um debate que há anos circula entre artistas, produtores e público nordestino, mas que raramente alcança o centro da discussão política.
Mais do que uma divergência de valores contratuais, o episódio expôs uma transformação estrutural no principal evento cultural do Nordeste. O São João continua imutavelmente grande em espectadores, investimento e visibilidade nacional, mas, ao mesmo tempo, parece cada vez menos organizado em torno do gênero musical que historicamente o definiu.
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Ao anunciar a perda dos shows, Flávio José relacionou diretamente o ocorrido à mudança de prioridades na ocupação dos palcos juninos. Em nota publicada nas redes sociais, o forrozeiro ‘desceu a lenha’, com muita classe, diante da postura do Ministério Público da Bahia (MP-BA) ao recusar o valor imposto pelo sanfoneiro paraibano.
"Às vésperas da maior festa de manifestação cultural do Nordeste, eu recebo a notícia de que o MP da Bahia resolveu diminuir o meu cachê! Enquanto outros artistas que nada têm a ver com forró, como sertanejos, ganham rios de dinheiro", disparou José.
Segundo o MP-BA, o cachê solicitado pelo artista para 2026 foi de R$350 mil por apresentação, valor que representa aumento de aproximadamente 40% em relação ao ano anterior. O órgão entendeu que o reajuste ultrapassava os parâmetros recomendados às prefeituras e informou que encaminhou orientações para mais de cem municípios revisarem contratos considerados acima da média.
A justificativa institucional parte de um cenário de aumento acelerado dos gastos públicos com festas populares. Desde 2022, quando iniciou o monitoramento dos festejos juninos por meio de um portal de transparência, o MP afirma ter identificado crescimento expressivo nos custos das atrações e das estruturas. De acordo com os dados divulgados, a média dos contratos passou de cerca de R$200 mil para aproximadamente R$700 mil em quatro anos.
O órgão sustenta que o objetivo da fiscalização é controlar uma inflação artificial nos valores e afirma ter economizado quase R$19 milhões para os cofres públicos por meio de recomendações e renegociações.
Em nota, declarou que “as recomendações buscam a adequação do contrato às orientações técnicas dos órgãos de controle, construídas a pedido dos próprios gestores municipais, via União dos Municípios da Bahia (UPB)”. Mas os números divulgados pela própria plataforma de transparência revelam um aspecto que ultrapassa o debate fiscal.
Entre os dez maiores cachês pagos por 137 prefeituras baianas que já informaram gastos neste São João, não aparece nenhum representante do forró tradicional:
Entre os dez maiores contratos citados anteriormente, apenas três artistas são nordestinos. Desses, apenas João Gomes, Wesley Safadão e Nattan dialogam com linguagens derivadas do forró contemporâneo.
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Ao mesmo tempo, artistas diretamente associados ao repertório tradicional junino, como Alceu Valença, Elba Ramalho e Alcymar Monteiro, recebem valores máximos próximos de R$250 mil. A diferença coloca nomes históricos do São João recebendo menos de um quarto dos maiores cachês praticados atualmente.
Essa reorganização econômica dos palcos ajuda a explicar por que o desconforto entre artistas do gênero não está concentrado apenas no valor pago a Flávio José. O debate envolve a percepção de que o forró deixou de ser o eixo central da programação junina e passou a dividir ou até perder protagonismo para atrações que chegam com maior alcance comercial e maior circulação nacional.
Nos últimos anos, essa mudança ganhou um componente decisivo com a consolidação de um novo modelo de indústria musical baseado em plataformas digitais e concentração de audiência. Em 2021, a música “Os Menino da Pecuária”, da dupla Leo e Raphael, alcançou 87 milhões de reproduções no Spotify e se tornou um dos símbolos do crescimento do chamado agronejo. O gênero mistura elementos do sertanejo, pop e música eletrônica enquanto incorpora símbolos ligados ao agronegócio e ao consumo como linguagem central.
Cinco anos depois, o impacto desse processo aparece nos rankings de audiência nas plataformas musicais. No dia 19 de junho deste ano, 29 músicas entre as 50 mais ouvidas do Spotify Brasil pertenciam ao sertanejo e suas variações, que incluem o agronejo, agrofunk e agrobeat. Isso significa que quase 60% da principal vitrine de consumo musical do país estava concentrada em um mesmo universo estético e comercial.
Confira:
O que domina os streamings passa a chegar aos eventos com maior poder de negociação, maior exposição publicitária e maior capacidade de atrair investimentos. Nessa conjuntura, o algoritmo deixa de apenas registrar tendências e passa também a produzir novos ‘modismos’.
De forma artificial, sua expansão acompanha um processo mais amplo de inserção da imagem do agronegócio no entretenimento nacional. A associação entre artistas populares, publicidade e narrativas de prosperidade no campo ampliou o alcance desse repertório e consolidou uma presença constante em campanhas, programas televisivos e grandes eventos: “O Agro é Pop, O Agro é Tech, O Agro é Tudo”, diz o famoso slogan institucional ecoado pela TV Globo. Além do discurso, a ‘mamãe Globo’ também põe a ideia em sua grade de novelas. É o caso de “Coração Acelerado”, exibida pela emissora na faixa das 19h. O universo central do mundo da música sertaneja é representado por cantoras como Ana Castela e Maiara & Maraisa, que foram citadas anteriormente na lista de cachês do São João baiano.
A famosa cantora Solange, ex-vocalista da banda Aviões do Forró ao lado de Xand, comentou em entrevista divulgada no dia 24 de maio a redução do espaço destinado aos nomes tradicionais do forró durante o período dos festejos juninos.
"A tradição tem que ser mantida. Eu acho que tem grandes nomes da música que ficam de fora para dar espaço a outros artistas que não são do ritmo. Não tenho nada contra. Eu acho que existe, sim. O Brasil é rico em ritmos, mas o forrozeiro, o cantor, a banda de fórmula, ela tem que ser priorizada. A prioridade tem que ser fórmula. Não desmerecemos os outros ritmos, mas uma festa junina tem que ter fórmula. São João tem que ter fórmula", destacou a cantora.
Nessa amarga seara, as festas juninas deixaram de ser apenas espaços de celebração regional para se tornar ambientes estratégicos de circulação nacional do entretenimento. O critério de contratação passa a responder mais à capacidade de gerar fluxo econômico e repercussão do que necessariamente à relação histórica entre artista e manifestação cultural.
Além disso, questionada se o “forró pede socorro”, a artista expôs sua opinião em poucas palavras: “Com certeza”.
Recentemente, o ilustre Santanna, O Cantador, declarou que observava uma diminuição gradual do espaço para os forrozeiros em festas tradicionais do Nordeste e afirmou que “notava que já existia uma vontade de tirar a gente. Eu, Flávio José...”.
Em 2023, o próprio Flávio José, centro do debate deste ano, enfrentou um episódio simbólico quando teve uma apresentação encurtada em Campina Grande, na Paraíba, para adequação do cronograma, que teria posteriormente um show de Gusttavo Lima. Ao mesmo tempo em que o topo da indústria concentra cifras milionárias, a base cultural enfrenta outro problema.
Em publicação realizada no dia 5 de junho, curtida por José, o poeta e compositor Flávio Leandro chamou atenção para os artistas invisíveis do circuito junino ao expor que “existe a farra dos cachês, sim. É clara, nítida; mas tem uma lista de coisas inconclusas, e a maior de todas elas é o piso dos cachês de artistas de bairro, dos trios de forró, de Zé, de Maria, de Pedro e de Chiquinha, que se submetem a cachês humilhantes que roubam sonhos, paz e dignidade”.
Infelizmente, os números apresentados ajudam a ilustrar essa desigualdade tanto cultural quanto de investimento. Segundo levantamento do UOL, ao averiguar o Portal da Transparência, somente na Bahia, foram registrados 201 cachês inferiores a R$1 mil destinados a artistas locais. Um deles foi contratado por apenas R$200.
Como em qualquer cenário do sistema mercadológico, o lucro e o acúmulo de capital sempre estarão no topo da lista de prioridades de qualquer centro comercial e estatal. No entanto, quando a priorização de nomes pouco atrativos culturalmente para cidades do interior baiano deixa de lado ícones do forró e sucateia os artistas menores, isso não é apenas investimento ou ação marketeira com um suposto “olhar do público geral” com base nos números das plataformas ou seguidores do Instagram, mas uma tentativa cruel e nada inocente de desmantelar aquilo de mais precioso na música, que é a sua identidade, e a capacidade do público de enxergá-la por meio da sonoridade. Salvem o nosso forró.
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